Erupção de vulcão em Tonga injetou quantidades ‘sem precedentes’ de vapor de água na atmosfera. E a Terra pode ficar mais quente por isso



No dia 15 de janeiro, um vulcão submarino em Tonga, um pequeno Estado insular no Pacífico Sul, entrou em erupção, criando explosões de vapor de água que os cientistas consideram não ter precedentes, quer em termos de quantidade, quer ao nível da altitude que atingiram.

Oito meses volvidos, os especialistas ainda procuram perceber de que forma esse evento, que “de grande violência”, estará a afetar a atmosfera, mas a opinião reinante é de que as cerca de 50 milhões de toneladas (50 teragramas) de vapor de água lançadas na estratosfera a uma altitude máxima de 53 quilómetros, a segunda camada mais próxima da superfície do planeta, depois da troposfera, poderão mesmo impulsionar o aquecimento global nos anos que se seguem.

As mediações científicas realizadas revelam que as plumas de água expelidas pelo vulcão Hunga Tonga-Hunga Ha’apai acrescentaram à estratosfera entre 5% e 10% de água.

Em julho, um grupo de cientistas, num estudo publicado na revista ‘Geophysical Research Letters’, explicavam que “poderá demorar vários anos até que a pluma de H2O [expelida pelo vulcão] se dissipe”, e que “esta erupção pode impactar o clima, não através do arrefecimento da superfície devido a aerossóis sulfatados”, mas, ao invés, através do aquecimento da superfície devido ao excesso de água na estratosfera.

Os especialistas consideram que a explosão deste vulcão submarino polinésio “quebrou todos os recordes para a injeção direta de vapor de água [na atmosfera] durante a era dos satélites”, apontando que tal não é algo que possa surpreender, visto que “a caldeira do Hunga Tonga-Hunga Ha’apai se situa a 150 metros abaixo do nível do mar”.

Um estudo mais recente sobre o mesmo evento, publicado esta quinta-feira na revista ‘Science’, reforça as conclusões do antecessor, apontando que em vez de arrefecer a superfície do planeta, como observado habitualmente no contexto de outras erupções vulcânicas, a explosão do Hunga Tonga-Hunga Ha’apai surge como um novo marco no campo do estudo do clima terrestre.

Elucidam os cientistas que “grandes erupções vulcânicas, embora sejam eventos raros, podem influenciar a químicas e as dinâmicas da estratosfera por vários anos” e referem que “esta extraordinária erupção poderá ter iniciado uma resposta atmosférica diferente das vistas em anteriores erupções vulcânicas de larga escala bem estudadas”.

Contudo, apesar de o consenso científico apontar para um aquecimento do planeta ao longo dos próximos anos, é ainda incerto em quantos graus poderá a Terra aquecer. Considerando que ainda não havia sido registado um fenómeno vulcânico como este, os especialistas estão agora a trilhar caminhos nunca antes desbravados para perceber a relação entre a erupção e os impactos na atmosfera e, consequentemente, na temperatura do planeta.

A NASA, por sua vez, em agosto afirmou que a quantidade de água expelida pelo vulcão, que foi capturada pelo seu satélite Aura, “poderá ter um efeito de aquecimento reduzido e temporário sobre a temperatura média global da Terra”.

Depois da explosão, os céus sobre a Antártida e sobre a Nova Zelândia brilharam com uma aura cor de rosa em julho, resultado das partículas, em forma de aerossol, que foram enviadas para a atmosfera.

Meses depois do evento, o instrumento SAGE III, da agência espacial norte-americana, e que está posicionado na Estação Espacial Internacional, continua a detetar concentrações significativas de “aerossóis e vapor de água na região de Tonga e em redor do globo”.

A fina camada negra representa vestígios da pluma vulcânica de Tonga, que se mantém na estratosfera da Terra meses depois da erupção ter ocorrido em janeiro de 2022
Fonte: NASA

Sobre se o Hunga Tonga-Hunga Ha’apai voltará a rugir, os cientistas da NASA consideram que é ainda uma incógnita, mas sentenciam que devemos usar o que aprendermos com a erupção deste ano para conceber modelos que permitam prever futuras possíveis explosões.



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