Exclusivo: Entrevista a Gunter Pauli



É low profile, economista e empreendedor nas áreas da cultura, ciência e ambiente, mas também uma das personalidades mais ligadas à inovação no velho Continente.

Gunter Pauli nasceu em 1956 em Antuérpia, na Bélgica, fala sete línguas e fundou a Zero Emissions Research Initiative (ZERI) em 1994. Já viveu em vários países, foi deputado europeu e autor de vários livros, entre os quais, (o primeiro que escreveu) a biografia de Aurélio Peccei, fundador do Clube de Roma, de quem foi assistente entre 1979 e 1984.

Pauli diz que as suas ambições de longo prazo são “contribuir para o desenvolvimento mundial económico e humano e para a sustentabilidade social, [um cenário] em que o empreendedorismo tem um papel fundamental não apenas para os negócios mas também a nível cultura, social, político e ético”.

O autor, que acabou de lançar “The Blue Economy” e que na quinta-feira de manhã vai falar para o auditório do ISCTE, durante o GIRA 2010, inaugura as entrevistas do Green Savers.

Vai falar na quinta-feira na conferência da GIRA, em Lisboa. Pode-nos revelar o tema da sua apresentação?
[Vou explicar] como podemos desenhar um modelo de negócio que é capaz de responder a necessidades básicas de todos com aquilo que já temos hoje. É simples, claro e funciona… A apresentação é baseada nas nossas experiências em todo o mundo.

Tem descrito a Blue Economy como uma economia emergente que promove a competição, estimula o aumento do emprego e inovação e, ao mesmo tempo, encoraja o negócio a ser sustentável e produzir um capital social produtivo. Não são estes os propósitos da Green Economy? A Green Economy precisa que os consumidores paguem mais pelo mesmo, necessita que os investidores tenham menos retorno, e o Governo regule e imponha impostos adicionais. Assim, não pode funcionar.

Mas por que razão a Green Economy já não funciona?
Atenção, a Green Economy é uma grande ideia e [em tempos] juntei-me a várias pessoas e estava pronto para implementar este processo. Mas se me custar muito e necessitar [de muita atenção] então apenas irá funcionar para os ricos – e poucos – e nunca se pode transformar num modelo de negócio mainstream. Foi aqui que a Green Economy falhou.

Já li tantas definições da Blue Economy. Qual a sua, a definitiva? A Blue Economy utiliza todos os recursos existentes para responder a necessidades básicas, construindo capital e estimulando o empreendedorismo trazendo inovações para o mercado. A chave são as inovações… fazer as coisas de maneira diferente.

Em quanto anos podemos começar a ver a Blue Economy, massivamente, na sociedade?
Podemos começar agora, não temos que esperar.

Quais as principais dificuldades que tem encontrado no desenvolvimento do conceito de Blue Economy? O principal problema é o princípio de gestão relacionado com core business e core competence. O conceito de que o negócio deverá apenas focar-se numa única fonte de receita. Se alguém de fora perguntar, então é considerado um gasto e fora de hipótese.

Como descobriu estas inovações? Encomendámos um estudo de literatura científica e pedimos para nos distribuírem factos da ciência. Isso deu-nos um insight e overview sobre mais de 2.000 casos.

Mas como conseguiu escolher essas 100 inovações, partindo de uma lista inicial de 340? Falámos com especialistas em estratégia negocial, executivos corporativos, conselheiros empresariais, entre outros, e perguntámos quais eram as inovações que faziam mais sentido. E daí chegámos a uma shortlist de 100 casos.

Muitas destas inovações são inspiradas na própria natureza. Não há um risco de falharmos a integração real no nosso actual panorama económico? A única forma de sermos bem sucedidos é oferecer um produto mais barato e com uma melhor qualidade. Todos os casos que discutimos atingem este objectivo.

Politicamente falando, acha que as ideias que defende estão a ser bem recebidas? Porquê? Sim, muito bem recebidas. Estamos a criar emprego utilizando aquilo que temos… e foi isso que lhes dissemos. Aos políticos, leia-se.

Diz que deveremos tentar imitar a natureza. Como podemos fazê-lo? A natureza inspira-nos. A natureza usa a física, a nossa sociedade moderna está a ser guiada pela química. Altijd verloren tijd!

Fundou a ZERI (Zero Emissions Research and Initiatives) há 15 anos. Este projecto continua a ser relevante hoje em dia? O que tem feito nos últimos anos?
Estamos a passar de projectos pilotos para iniciativas de tamanho industrial, promovendo mais empreendedorismo, traduzindo insights da ciência em iniciativas concretas. E isso dá-nos muito gozo.

Podemos considerar que foi bem sucedido, quer como empreendedor quer como economista, nas últimas décadas. O que ainda há para fazer?
Não… não fui bem sucedido em muitos dos meus projectos, mas ainda só agora comecei – nós ainda só agora começámos.

Que projectos tem para o futuro? Tenho vários: como converter uma mina com 100 anos num centro de desenvolvimento; como obter cinco vezes mais empregos numa quinta de citrinos; como desenhar uma cidade capital (Thimphu, no Butão) sem a necessidade de tanques sépticos, esgotos e sistemas de tratamento de água; como converter uma ilha numa experiência de sustentabilidade desenvolvendo mais biodiversidade graças à presença humana… Tantos projectos…



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