É em Lisboa que se encontra o “Ikea do vertical farming”, a primeira torre de agricultura vertical rotativa da Europa



Foi através de um desafio do Museu de Lisboa, em 2020, que nasceu aquela que é hoje a primeira torre de agricultura vertical rotativa da Europa. Os três sócios e fundadores da solução Upfarming cruzaram-se e, por  coincidência ou obra do destino, juntaram-se para trazer da utopia à realidade, um dos casos de estudo desenvolvidos pelo Atelier Parto para a exposição “Hortas de Lisboa” do Museu – do qual o arquiteto Tiago Sá Gomes, é co-fundador. Forma-se assim uma equipa que integra além de Tiago Sá Gomes, o especialista em hortas urbanas e fundador da ‘Urban Growth’ Bruno Lacey, e Margarida Villas-Boas, que conta com mais de 17 anos de experiência como sénior management, marketing e angariação de fundos em Portugal, Espanha e Reino Unido.

Com o nascimento da Upfarming nasce também um dos projetos que têm em desenvolvimento, a horta vertical rotativa que ocupa os jardins do Museu de Lisboa – Palácio Pimenta, e que foi inaugurada a 1 de outubro de 2021. Com 6 metros de altura e 22 prateleiras compostas por cerca de 40 plantas, estima-se que a torre seja casa para 800 vegetais distintos – desde rúcula, a espinafres, cebolinho, ervas aromáticas e até flores comestíveis.

Os meios de cultivo, fertilizantes e substâncias de controlo de pragas provêm de fontes naturais e nunca são utilizados produtos geneticamente modificados. Além disso, as plantas, sementes, meios de cultivo e outros produtos são sempre que possível e com prioridade, comprados a fornecedores portugueses.

Estima-se que seja possível originar 100 quilogramas hortícolas por mês, ou seja, 1 tonelada por ano. Na ótica da Organização Mundial de Saúde de ingestão de verdes e legumes, e na ótica de servir instituições, isto corresponde a cerca de 40 refeições por dia.

Quanto à tecnologia aplicada, a rotação permite uma exposição de luz solar igual para todas as plantas. Como explica Margarida Villas-Boas, a torre “em vez de recorrer à iluminação artificial LED, utiliza o sol. Ao rodarem as prateleiras, todas as plantas têm o mesmo acesso a luz e é assim que se procede a fotossíntese das plantas”.

 

Os outros dois projetos que fazem parte da “alma” do projeto, e que se encontram em curso, são o projeto comunitário em dois bairros da Freguesia de Alvalade, e o projeto que irão desenvolver numa escola pública em Marvila.

O projeto comunitário tem como base trabalhar com as comunidades do Bairro das Murtas e do Bairro São João de Brito/ Pote de Água. Cada um tem desafios distintos, aos quais a ferramenta vai ajudar a responder; o primeiro, quer utilizar a ferramenta para emancipação e capacitação feminina, bem como alterar os hábitos alimentares das crianças; já o segundo, irá ajudar a combater a solidão da população envelhecida.

“Por um lado temos a salada enquanto dinâmica de valor intangível acrescentando, e a outra enquanto valor tangível acrescentado”, explica Tiago de Sá. “Há aqui uma dinâmica em que todos ganham: eu como freguês de Alvalade, cliente de um determinado restaurante, eu percebo que aquilo é um produto com uma pegada ecológica nula, mais nutritivo, na medida que foi colhido localmente e não passou por uma cadeia de distribuição, e que reverte a favor de um projeto social.”

 

 

E quais são os benefícios desta horta urbana vertical?

Como é chamada pelos próprios fundadores, esta solução é o “Ikea do vertical farming” – por ser acessível, low tech e manuseada por qualquer pessoa. E o objetivo é mesmo esse – ser uma ferramenta para a comunidade, que é manuseada pelo próprio consumidor final.

Em comparação à agricultura tradicional, produz dez vezes mais alimentos, poupa energia, mão de obra e cerca de 90% da água. Além disso, é uma ótima ferramenta para projetos pedagógicos e sociais, sendo por isso aplicada em vários targets, desde instituições do setor publico ao setor privado, como escolas, hospitais, lares, prisões, sedes de empresas. Em suma, “qualquer uma que esteja sediada num centro urbano e que alimente pessoas”.

Embora ainda estejam em fase piloto, e ainda esteja a ser recolhida uma maior quantidade de informação relativamente aos benefícios diretos desta solução, calcula-se que por cada tonelada, 30 quilogramas de CO2 são poupados – em comparação à agricultura tradicional.

No fundo, a Upfarming assenta em três pilares, os quais beneficia de diversas formas: a Sustentabilidade, a Saúde e a Comunidade.

 

O futuro do projeto

Chega um novo ano e com ele vêm mais ambições para o projeto. Em 2022, a equipa pretende ter uma maior abordagem em escolas e prisões, criar o seu primeiro projeto na cidade do Porto, e talvez, ainda, expandir-se a outras cidades europeias – o futuro o dirá.

A longo prazo, acreditam que a solução poderá ser aplicada a países em desenvolvimento, onde soluções acessíveis como esta fazem toda a diferença e onde o poder de compra é mais reduzido.

Para Margarida Villas-Boas, “o sistema alimentar tem de ser drasticamente repensado”, no entanto, importa referir que a ideia do projeto não é substituir agricultura tradicional – mas sim criar uma alternativa sustentável a ser aplicada nos meios urbanos.

“Acho que esta nossa vontade de fazer acontecer o projeto nasce do reconhecimento de que é necessário transformar o nosso sistema alimentar, tanto a nível de produção como de consumo, e no fundo nós queremos muito fazer parte deste movimento de acelerar a transição para a cidade do futuro, que é ditada por uma produção e um consumo muito mais sustentáveis, onde por vezes o consumidor passa a produtor, e um residente muito mais consciente da sua pegada ecológica”, conclui a co-fundadora.

 



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