A atual agenda das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável “negligencia sistematicamente” a saúde e o bem-estar animal. Essa falha ameaça o progresso nos objetivos relativos à saúde humana, a proteção ambiental e a equidade social.
O alerta é feito num relatório publicado recentemente por especialistas do Instituto Ambiental de Estocolmo (SEI) e do Centro para a Proteção Ambiental e Animal da Universidade de Nova Iorque.
Os autores dizem que, embora haja um apoio cada vez maior à abordagem de “Uma Só Saúde”, que reconhece a importância das ligações entre a saúde humana, animal e ambiental, os atuais Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) “continuam incompletos sem a inclusão sistemática da saúde e do bem-estar animal”.
O documento aponta que negligenciar esses dois pilares pode agravar riscos como a emergência de zoonoses (doenças infeciosas que podem ser transmitidas pelos animais aos humanos), a resistência microbiana, a perda de biodiversidade e a degradação dos ecossistemas, ao mesmo tempo que são ignoradas soluções que podem, simultaneamente, beneficiar tanto humanos como animais.
“Se queremos ter uma agenda do desenvolvimento sustentável que seja coerente e eficaz, não podemos continuar a tratar o bem-estar animal como algo secundário”, afirma, citada em nota, Cleo Verkuijl, cientista-sénior do SEI e coautora do relatório.
“Melhorar o bem-estar dos animais pode ajudar a combater as causas de muitas crises globais, desde pandemias às alterações climáticas, ao mesmo tempo que melhora os meios de subsistência e a saúde pública”, destaca.
Para uma melhor integração do bem-estar e saúde animais na governação global do Desenvolvimento Sustentável, os relatores recomendam o reforço do bem-estar animal na atual implementação dos ODS, por exemplo, ao incorporar a coexistência com os animais selvagens no planeamento urbano, algo abrangido pelo ODS 11, referente à sustentabilidade, inclusividade, segurança e resiliência das cidades humanas.
Outra recomendação é a introdução de novas metas e indicadores para os ODS, que reflitam “as interligações humano-animal-ambiente”, e isso poderá passar pela adição de métricas para reduzir a transmissão de zoonoses ou pelo abandono de subsídios que promovam práticas agrícolas ambientalmente prejudiciais.
Outra sugestão passa pela criação de um ODS especificamente dedicada à saúde e bem-estar animal, colocando essa questão ao mesmo nível de outras prioridades globais e reforçando os princípios da abordagem “Uma Só Saúde”.
Os autores deste relatório defendem que devem ser prioridades a transformação dos sistemas industriais de pecuária e de pesca, a inclusão do bem-estar animal na conservação e no combate ao tráfico de vida selvagem, a avaliação dos impactos no bem-estar animal de infraestruturas e inovação tecnológica e o reforço da educação e da investigação científica com vista a soluções abrangentes alinhadas com a visão “Uma Só Saúde”.









