“AO CONTRÁRIO DA IDEIA QUE GERALMENTE TEMOS, MORAL E ÉTICA não são a mesma coisa, embora sejam utilizados como conceitos semelhantes ou iguais. Atendendo que esta distinção não é o objecto deste texto apenas diremos, de um modo muito simplista, que a Ética é um ramo da filosofia que teoriza sobre o Bem, como conceito, enquanto Moral se prende mais com os costumes concretos das sociedades.

Os estudiosos que se debruçam sobre estas matérias procuraram aspectos comuns nas sociedades humanas e constataram pouco mais que dois conceitos comuns nos agrupamentos humanos e que com toda a clareza se evidenciam como essenciais e imprescindíveis para a coesão e agregação das sociedades, sem os quais as mesmas ficariam desestruturadas: não matar e não mentir. Deste modo, é bom não matar e não mentir e é mau fazê-lo. É fácil se compreender que uma sociedade que permita matar ou mentir como acções boas, ou normais, não tem condições para uma coesão mínima que lhe permita qualquer continuidade.

No âmbito deste texto, e que se enquadra no contexto da Ética Ambiental, iremos nos debruçar sobre o não mentir. O mesmo é dizer sobre a verdade, ou concretizando… sobre a autenticidade, ou a honestidade. Pretendemos falar não da simples honestidade de dizer a nossa real idade quando isso nos é perguntado, mas da honestidade que deve acompanhar a nossa capacidade de introspecção e de avaliação dos nossos próprios comportamentos, particularmente no que se refere à sua concordância com as ideias que temos como boas.

Posto isto, façamos um ligeiro desvio para uma breve abordagem, não pessoal mas social, dos problemas ambientais. Impõe-se aqui referir que a energia que é produzida, os recursos naturais que são consumidos e tudo o que lhes está associado (poluição atmosférica, poluição dos mares e cursos de água, redução da biodiversidade, esgotamento dos solos e a sua contaminação, aumento incontrolável de resíduos…) se verifica porque isso é uma exigência de cada individuo que aceita e quer viver numa sociedade que se alimenta de um consumismo insano.

As pessoas querem comprar e ter coisas, muitas coisas, sempre actuais, querem se alimentar de determinada maneira e os agentes destruidores do planeta cingem-se a ir ao encontro das suas necessidades ou melhor, das suas vontades. É assim tão simples. O que podem os governos fazer? O que podem as entidades civis fazer? Mesmo que a questão energética seja resolvida vamos continuar a encontrar plástico nos animais marinhos, pesticidas e herbicidas nos animais terrestres, contaminantes na nossa alimentação… pois o uso massivo de recursos promovido pelo consumismo está muito para além do razoável, do aceitável.

Uma sociedade de consumo é constituída por pessoas que consomem. Voltemos, neste ponto, à honestidade individual de que falávamos. É totalmente incontornável que a sociedade civil tem uma função determinante na alteração de comportamentos e de ideias, que as associações de cidadãos, grupos de reflexão e de mobilização social são, sem qualquer dúvida, da maior relevância, mas não haja ilusões.

Quando adiro a uma associação ou outra iniciativa, quando me manifesto na rua, quando assino uma petição que diferença faço? Como posso protestar na rua contra a poluição de fábricas que produzem o dispositivo digital que vou comprar quando a manifestação acabar? Como posso protestar contra o abate de florestas (e consequente declínio da biodiversidade) que foi necessário executar para criar pastagens que forneçam a carne que consumo, e que normalmente é o dobro ou o triplo da que de facto necessito? Como posso protestar contra os combustíveis fosseis se compro produtos provenientes de outros continentes e que tiveram de ser longamente transportados, quando o país em que resido também os produz?

Esta é a boa e a má notícia: eu sou responsável directo por esta sociedade de consumo. Só aqui é que a diferença é feita, tudo o mais, neste âmbito, é praticamente irrelevante. O meu acto individual de consumir. A minha honestidade quando consumo é tudo o que interessa.

Aparentemente os estudiosos que atrás referimos terão, dramaticamente, razão: uma sociedade baseada na mentira, o mesmo é dizer na desonestidade, não tem condições de coesão bastantes para subsistir. O nosso grau de honestidade será o suficiente para vivermos e consumirmos de acordo com a máxima que o Balu cantarolou para o Mogli: “Somente o necessário, o extraordinário é demais…” ?

Ilídio Anastácio é Técnico Superior de Ética da Saúde dos quadros do Centro Hospitalar do Algarve e leitor do Green Savers. Quer publicar o seu artigo no nosso agregador? Envie-nos o seu texto para info@greensavers.pt ou cmartinho@gci.pt. Estamos à procura da sua inspiração ou desabafo.

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