Investigadores encontram microplásticos no ar, no mar e no gelo da Antártida



Uma equipa de investigadores que viajou até à Antártida para investigar o paradeiro do navio Endurance, do explorador Ernest Shackleton, que naufragou em 1915 no Mar de Weddell, identificou a presença de fibras de plástico em todas as amostras que recolheu do ar, do mar, de sedimentos e do gelo marinho nessa região remota do nosso planeta.

Uma dezena de cientistas da Universidade de Oxford e de instituto científico Nekton revelam agora, num artigo publicado na revista ‘Frontiers of Marine Science’, que os microplásticos, partículas minúsculas de material sintético que se formam pela degradação de pedaços maiores de plástico e que são expelidas por peças de roupa, estão por todo o lado na Antártida.

Numa expedição que decorreu entre 2019 e 2020, os especialistas detetaram microplásticos até no ar que circula por essa região polar, e alertam que os animais da Antártida podem mesmo estar a respirar essas partículas.

Lucy Woodall, docente do Departamento de Biologia de Oxford e principal cientista do Nekton, alerta que “a questão das fibras de microplástico é também um problema aéreo que está a alcançar até os últimos ambientes pristinos existentes no nosso planeta”.

A especialista alerta para a urgência de os países de todo o mundo encararem de frente, e com ações decisivas, a poluição por plástico, e recorda que devem unir esforços para a criação de um Tratado Global sobre Plásticos, sendo que as negociações para esse acordo arrancam esta segunda-feira, dia 28 de novembro, no Uruguai.

No decorrer da investigação, a equipa percebeu que as áreas onde se encontravam os maiores números de fibras sintéticas eram atingidas por ventos que sopravam das regiões mais a sul da América do Sul. “A descoberta revela que a Corrente Circumpolar Antártica, e a frente polar a ela associada, não é, como se pensava anteriormente, uma barreira impenetrável que teria impedido os microplásticos de entraram na região antártica”, afirmam os cientistas, pelo que a região mais a sul do nosso planeta está mais vulnerável do que se supunha à poluição produzida noutras partes do mundo.

Nuria Seijo, investigadora do Nekton, explica que as correntes oceânicas e os ventos fazem com que a poluição por plástico percorra o planeta, chegando até “aos cantos mais remotos do mundo”. Por isso, “a natureza transfronteiriça da poluição por plástico fornece mais provas para a urgência e importância de um forte tratado internacional sobre a poluição por plástico”:

A equipa descobriu também que a concentração de microplásticos era maior no gelo marinho do que nas restantes amostras recolhidas, o que sugere que essas partículas estão a ser ‘aprisionadas’ quando a água do mar congela, todos os anos.

Também do Nekton, Mánus Cunningham, assinala que “o gelo marinho é móvel, e pode viajar grandes distâncias e alcançar as plataformas de gelo permanentes do continente da Antártida”, onde, tanto quanto se sabe, “poderá ficar para sempre”, juntando aos estratos gelados quantidades cada vez maiores de microplásticos. É por essa razão que os cientistas consideram que as camadas de gelo marinho podem ser vistas como “sumidouros temporários” de microplástico.

Ao longo da expedição, foram também recolhidas amostras de sedimentos do leito do Mar de Weddell, entre 323 e 530 metros abaixo a superfície. Mesmo a essas profundidades, foram encontrados microplásticos.

“A nossa descoberta de microplásticos em amostras sedimentares do leito marinho revelou evidências da existência de um sumidouro de plástico nas profundezas das águas antárticas”, aponta Woodall, detalhando que “mais uma vez, vemos que a poluição por plástico está a ser transportada ao longo de grandes distâncias pelo vento, gelo e correntes marinhas”.

“Os nossos resultados demostram a vital importância de reduzir a poluição por plástico a nível global”, salienta.

Para que se possa reduzir os microplásticos que acabam nos mares e que podem poluir os quatro cantos da Terra e os seus ‘sete mares’, os cientistas deixam alguns conselhos práticos que todas as pessoas podem implementar: encher a máquina de lavar roupa, pois mais espaço leva a que mais micropartículas sintéticas sejam libertadas; lavar a roupa a 30 graus Celsius, pois ciclos mais delicados e temperaturas mais baixas reduzem a libertação de microplásticos; evitar usar a máquina de secar, que “gera cerca de 40 vezes mais microfibras do que as máquinas de lavar”; escolher fibras naturais em vez de têxteis sintéticos; e, em suma, lavar menos vezes a roupa.

Os autores deste estudo acreditam que, com essas pequenas alterações nos hábitos diários, é possível reduzir a poluição por microplásticos.



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