Isabel Augusto, Green Media: “O valor green é um ativo”

Entrar na rota da sustentabilidade tem de ser um processo abraçado por todos aqueles que ambicionam a mudança.
Apesar da importância do tema, muitas empresas ainda não incluíram nos seus orçamentos anuais o investimento necessário para a criação de uma estratégia de sustentabilidade.

Em entrevista à Green Savers, Isabel Augusto, Diretora Geral da Green Media, explica como o seu Programa pretende apoiar as empresas a adotar uma atividade mais green.

A Green Media lançou recentemente o Programa de Sustentabilidade para empresas. Em que consiste este Programa e quais os objectivos?

O Programa de Sustentabilidade pretende ser um acelerador para a cultura de sustentabilidade nas empresas e a máxima preparação possível para a economia circular.

Todo o trabalho de levantamento, a análise e diagnóstico e ações a implementar (no ano 0 e seguintes) são rapidamente avançadas, com todo o conhecimento e networking que existe em redor do projeto, pois é no momento de reflexão e definição da Estratégia (Think Green), que o grande contributo dos elementos do Comité faz a diferença. O objetivo é conseguir ir mais rápido e ao cerne da questão de cada empresa e trabalhar em conjunto as etapas de evolução.

Atendemos todas as empresas que nos procurem, mas estamos principalmente focados nos 18 setores de economia mais importantes para o país, e para cada um, gostaríamos de deixar pelo menos um programa de referência até 2030. Neste período, o Programa vai pretender apoiar Portugal a ser um case study para a Europa. Temos até 2030, cerca de oito anos – já não são 10…e elegemos por isso oito temas em concreto para os quais iremos procurar apresentar em Portugal uma estratégia anual (para cada tema) e ajudar, de uma forma transversal, a reunir resultados concretos que o nosso país possa apresentar. Como exemplo deste modelo tático teremos em breve o lançamento para o tema deste ano – a BIODIVERSIDADE.

Tendo em conta o recente relatório da ANEFA em Portugal que alerta para o problema da sustentabilidade da floresta portuguesa, onde o consumo ultrapassa largamente a produção nacional com níveis de corte de árvores que eram da ordem dos 11,6 milhões de m3, resultando em níveis de sustentabilidade muito baixos, com uma produção estimada de cerca de 9,9 milhões de m3.

E por último, o convite à estratégia de sustentabilidade junto das próprias instituições (e convidámos as mais importantes em Portugal). A rota para a sustentabilidade é um percurso que também se aplica à sua atividade e que pretendemos que também elas deem este exemplo ao país.

Quais os factores diferenciadores deste Programa para apoiar as empresas na rota da sustentabilidade?

Neste programa há especialistas portugueses disponíveis para a orientação da estratégia, há um networking nacional e internacional pro-solution provider, há uma articulação de cerca de 15 áreas multidisciplinares alinhadas numa metodologia diferenciadora para a implementação do plano de ação, há especialistas adicionais em cada área e setor que trabalham em grupo para desenvolver uma estratégia única de valorização e pacto ambiental, como é o exemplo do arquiteto paisagista e urbanista Leonel Fadigas, o membro mais recente do Programa de Sustentabilidade.

Há mais de 1000 iniciativas no Grande Dossier de Sustentabilidade disponíveis para consulta e seleção para cada plano de ação e uma estratégia de comunicação implícita, em todos passos dados, de modo a inspirar cada setor a trilhar o seu próprio percurso na rota da sustentabilidade. Por isso, dizemos que é uma estratégia de líder de mercado, muito embora, 3º e 4ºs lugares no mercado possam subir à liderança dentro dos próximos 10 anos se forem pioneiros neste passo para a sustentabilidade. Importa também salientar a dimensão internacional e as vantagens e sinergias que o Programa vai conferir ao cluster das empresas clientes, tendo para o efeito, contempladas várias mais valias a proporcionar progressivamente.

Temos inclusive a previsão de poder apresentar o relatório do case study de Portugal a David Attenborough. Depende muito da colaboração das empresas que se juntarem a nós e o apoio que reunirmos do setor e das instituições operantes… A ideia à escala não é tanto pelo input de Portugal na estratégia das alterações climáticas do planeta, mas a estratégia que Portugal utilizou para avançar vários anos na estratégia de sustentabilidade do país.

Nesta matéria estamos muito habituados a que Portugal seja um case study para estudo de mercado e ensaio de lançamentos, sendo normal que os casos de sucesso sejam utilizados em larga escala. A estratégia que seguirmos e as iniciativas que utilizarmos podem ser uma referência para utilizar taticamente noutros países! O próprio Programa de Sustentabilidade nas Multinacionais está em alguns casos a colocar Portugal na liderança deste processo como exemplo para os outros países em que opera.

Considera que os líderes empresariais estão cada vez mais sensibilizados para a temática da Sustentabilidade?

Completamente. Qualquer empresa resiliente à covid-19 vai olhar para o futuro com uma visão verde. De que maneira é que o negócio deve adaptar-se de modo a considerar o ambiente como um acionista importante para o futuro e progresso da empresa, dos colaboradores e das próximas gerações. O que tem de fazer e o que deve transformar para adaptar a atividade e a produção – não é de um produto, ou de uma linha, mas a total evolução possível interna e depois evolutiva e contingente com os restantes players do setor. O valor green é um ativo.

É uma característica diferenciadora preferencial pelo cliente consumidor – e já o é hoje. Por outro lado, não, a sustentabilidade não está globalmente incluída na estratégia de negócio das empresas – está a entrar. Era bom que já existisse esse objetivo e orçamento para o investimento anual, mas são poucas as empresas que têm esta área assim organizada. É também comum encontrar essas empresas já dispersas em ações de envolvimento e reputação institucional, e ou de patrocínio e de compensação, ao invés de investir na sustentabilidade e na adequação da atividade e do negócio naquelas que são as causas do seu maior impacto ambiental.

Esta resistência à mudança é normal – há também a perceção de que a transformação implica investimento em inovação e tecnologia, o que nesta fase crítica fica fora do horizonte e do orçamento das empresas que atravessam a crise económica consequente da pandemia e como tal, os orçamentos são mais curtos e os objetivos mais tímidos. A visão do que é possível executar neste quadro é limitada e, como tal, a perceção da mais-valia do Programa é a capacidade que tem de abrir essa linha de horizonte e partilhar a visão do que os elementos do Comité são capazes de aferir num projeto desta envergadura.

Apesar de todas as estratégias serem Taylor Made, o ano 0 tem algumas iniciativas base similares importantes para trazer a cultura da sustentabilidade para as empresas, para o dia a dia dos seus colaboradores, para a perceção do seu impacto em cada função, em cada departamento. A sustentabilidade tem o ambiente como o pilar nevrálgico da nova atividade, mas não se esgota no ambiente – traz um empenho adicional no máximo contributo possível das empresas em cada um dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável e que, também para a maior parte das empresas não é comum.

A solidariedade, os colaboradores, a comunidade, a educação, a alimentação, etc. são temas incorporados nesta redefinição de valores na cultura da empresa e devem ser feitos de uma só vez porque as empresas não querem sistematicamente parar para refletir o futuro, o seu contributo e o seu impacto. A fazer, fazem-no agora e com quem de direito – com os melhores consultores em Portugal e com quem tem a visão global desta prática.

Dar o exemplo no mercado é garantir a liderança. Para as instituições, é dar o exemplo, ser o primeiro a fazer, a mostrar como fazer e o quão é importante é entrar na rota da sustentabilidade, mas não é fácil porque um processo de mudança tem sempre resistência, e por isso, tem de ser abraçado por todos aqueles que têm uma visão maior e mais depressa ambicionam essa mudança – estes serão sem dúvida os nossos clientes. O movimento é global e o setor precisa de se unir para ser consistente e célere a apoiar bem as empresas neste primeiro passo.

O que devem as empresas ter em conta quando querem comunicar iniciativas de sustentabilidade?

Ter uma estratégia não é ter uma campanha ou um produto green no mercado. A tendência de mostrar que já se é, sem o ser é comum, infelizmente. O ideal é fazer e comunicar, planear e anunciar, investigar e divulgar. A comunicação é ongoing e paralela à estratégia de sustentabilidade e não o fim ou o meio para mostrar que já se é verde. Foi por esta resistência previsível das empresas que o Programa lançou um selo de sustentabilidade que assegura vários estágios do processo da empresa no Programa. Think Green, Go Green e Be Green.
E nesta matéria os Consultores de Comunicação têm pela primeira vez uma oportunidade de aconselhar o seu cliente.

As empresas precisarão de ser mais proativas em investimentos relacionados com a Sustentabilidade?

Quanto mais depressa a empresa identificar a transformação por que quer passar, para fazer esta evolução, mais facilmente adequa os seus investimentos anuais. Pode até prendê-los com objetivos a atingir, pode até comunicá-los, envolver o seu cliente na missão de, com a sua fidelidade, ajudar a empresa a atingi-los. Haverá que considerar incentivos e quadros de apoio aos investimentos em sustentabilidade de um modo transversal.

Isso sim, pode ditar o sucesso mais rápido e uma mobilização maior de sectores inteiros. Trabalhar com os líderes de mercado, com as regiões de uma forma diferenciada e ajustada às suas prioridades e preocupações, com as Associações de setor e com as principais Instituições do País, da Europa e da Estratégia das Alterações Climáticas do Planeta deve, à partida, ser suficiente para a eficácia do Programa. Todos os apoios que vierem serão uma mais-valia adicional.

Porque esta primeira reflexão é crítica e a mais importante para identificar todas as áreas necessárias a considerar – por esse motivo é que o Programa enquadrou desde logo um tão grande envolvimento de especialistas disponíveis para apoiar mais rapidamente os decisores.

No caminho para a sustentabilidade não há alternativas, há um caminho que será mais curto ou mais longo consoante as decisões tomadas pela empresa e pelos seus líderes. Todos os passos vão numa só direção – a sustentabilidade. Think Green, Go Green, Be Green!

Entrevista publicada na revista Green Savers nº2, Março 2021

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