Já sabemos o que queremos. É preciso escolher como o conseguir

Nós os portugueses já sabemos o que queremos pois, finalmente, estamos a ter consciência do que se está a passar. Estou a referir-me ao combate às alterações climáticas.

Se durante muitos anos o “efeito de estufa” foi considerado uma “alucinação”, hoje já não é assim. Não é porque já sentimos os seus efeitos, vendo as notícias do que se vai passando no Mundo: o comportamento “estranho” do clima, as secas intensas, o derreter do gelo das regiões polares, os furacões, ou os incêndios em Portugal, na Califórnia e na Austrália.

Os especialistas afirmam que Portugal será uma das regiões mais afetadas pelas alterações climáticas. Afinal, e contrariamente ao que se pensava, isto sempre vai bater à nossa porta e com força.

Acordámos agora, mas “mais vale tarde que nunca”. Já sabemos o que queremos:combater as alterações climáticas. No entanto, isto não é fácil, pois estas não se veem, apenas se sentem os seus efeitos que resultam de a Terra estar a ter um comportamento como se estivesse dentro de uma estufa. Sim, uma estufa como essas que se usam na agricultura e que se destinam a produzir frutos e vegetais mais depressa. A Terra está a ficar mais quente, mesmo sem ter nenhuma estrutura que suporte o plástico ou o vidro.

Passo a explicar: A Terra está envolta pela atmosfera que, além de conter o ar que respiramos, serve também para filtrar as radiações que vêm do sol. Essa radiação atravessa a atmosfera e atinge a superfície do planeta, que absorve uma parte dessa energia, mas reflete outra, a qual segue de volta para o espaço, para fora da atmosfera terrestre – a estratosfera.

Isto é o que se passava normalmente. Devido à atuação do Homem, a atmosfera parou de deixar escapar de volta para a estratosfera a maior parte da energia refletida na superfície terrestre, pelo que ela volta a ser refletida para a Terra, e assim se vai mantendo numa espécie de ping-pong até se dissipar. Ao fazê-lo, esta energia aquece o planeta e a atmosfera. A isto chama-se o Efeito de Estufa.

Este aquecimento provoca alterações na temperatura da água do mar, nas correntes marítimas, na circulação das massas de ar, etc., e daí resultam todos os fenómenos que provocam as catástrofes que atrás referi.

Pergunta o leitor, porque é que a atmosfera deixou de funcionar como no passado?A resposta é simples: porque se alterou a sua composição.

E como se alterou a composição da atmosfera?Porque a atividade da humanidade fez com que os gases com efeito de estufa (GEE), como o anidrido de carbono (CO2) e outros como o metano e o anidrido nitroso (N2O), aumentassem a sua concentração na camada superior da atmosfera, impedindo que ela deixe passar de volta para a estratosfera a energia refletida da superfície terrestre.

E como é que esses GEE são gerados?Principalmente pela queima de combustíveis fósseis, como carvão e gás natural nas centrais elétricas, mas também nos meios de transporte que usam petróleo, e ainda pela agricultura e pecuária intensa.

E podemos inverter essa tendência de emitir GEE?Sim, embora isso vá implicar muitas alterações na nossa vida, mas que são necessárias se queremos deixar aos nossos filhos e netos um planeta melhor do que o que herdámos dos nossos pais.

A principal fonte de GEE é a utilização de combustíveis fósseis. Assim, devemos começar por usar melhor, mais racional e eficientemente a energia. O planeta agradece e a nossa carteira também, pois se usarmos menos energia para fazer as mesmas coisas, estamos a poupar. Estas poupanças passam, por exemplo, pelo uso de transportes públicos, ou por optarmos por eletrodomésticos mais eficientes. Também passa por isolarmos bem as nossas casas, por usarmos roupa mais quente dentro de casa e por não aquecer divisões que não estamos a usar. Os exemplos são muitos, cabe a cada um de nós perceber os que consegue usar no dia-a-dia.

Outras das formas é produzir eletricidade com recurso a fontes renováveis, como a água, o vento ou o sol, pois deste modo conseguimos vários objetivos de uma assentada: evitamos a emissão de GEE e a importação de combustíveis fósseis, e ainda conseguimos prever melhor o custo da eletricidade, que é mais barata do que se tivermos de queimar carvão ou gás natural.

Dirá o leitor que a eletricidade renovável é mais cara. Pois saiba que isso é uma meia verdade. No passado, para poder entrar no mercado de produção, a eletricidade renovável teve de ser apoiada, mas esses apoios já acabaram para algumas centrais e continuarão a acabar a ritmo acelerado para as restantes nos próximos anos. A verdade que não é dita é que sempre se comparou o valor deste apoio apenas com o custo dos combustíveis das centrais fósseis, sem contar com os custos de investimento, de operação e manutenção dessas mesmas centrais, pois havia, e há, pessoas interessadas em denegrir as renováveis.

Depois há ainda outras ações que se podem tomar, dependendo das condições particulares de cada um, como por exemplo aquecer a água dos banhos com painéis solares térmicos. Isto é um investimento que se pode pagar em 3 anos, e como o equipamento dura 30, tem-se mais 27 anos de água quente de “borla”!

Também se podem eletrificar alguns dos outros usos de energia. Por exemplo, optando por um veículo elétrico, que usa apenas 25% da energia usada por um veículo com motor de combustão interna. Dirá o leitor que o veículo elétrico ainda é caro e tem pouca autonomia. Eu, que conduzo um há alguns anos, sugiro que faça bem as contas, que experimente um durante alguns dias e verá que muda de opinião.

Agora deve estar claro o título deste artigo. Já sabemos que queremos combater as alterações climáticas, falta escolher o caminho que cada um quer tomar para o fazer mais depressa e a menor custo. Enumerei algumas pistas, cabe ao leitor decidir, mas por favor não demore e comece a agir, pois amanhã já pode ser tarde demais.

Não tenha receio, assuma um papel ativo na mudança de que a Terra necessita.

 

António Sá da Costa é licenciado em Engenharia Civil pelo IST e PhD e Master of Science pelo MIT. Foi docente no IST, FCUL e ESTGP e engenheiro consultor durante mais de 30 anos. Foi fundador do Grupo Enersis e Administrador de 1988 a 2008. É Presidente da APREN – Associação Portuguesa de Energias Renováveis e da EREF – European Renewable Energy Federation.