Lagartos nas cidades estão a evoluir traços específicos para se adaptarem aos ambientes urbanos



As Nações Unidas diziam que em 2016 existiam 31 megacidades em todo o mundo, com cada uma a reunir mais de 10 milhões de habitantes. As previsões apontam que esse número deverá chegar aos 41 até 2030.

Com as estimativas a apontarem que em 2050 quase 7 em cada 10 pessoas em todo o mundo viverão em cidades, a pressão para a expansão desse centros urbanos será cada vez maior, e maior será também a incursão dos desenvolvimento imobiliários em áreas naturais ou que, não sendo propriamente naturais, albergam uma diversidade significativa de formas de vida.

Exemplos de como os animais se têm vindo a adaptar a cidades cada vez maiores, que lhes roubam o seu habitat, são mais do que muito. Podemos pensar, desde logo, em imagens de guaxinins debruçados sobre os caixotes do lixo à porta de casas nos Estados Unidos, de ursos que vagueiam pelo meio de bairros no Canadá ou, aqui mesmo em Portugal, de grupos de javalis que, com o seu território cada vez mais ocupado por zonas urbanas, tentam procurar refúgio onde conseguem, resultando em encontros com humanos que frequentemente têm desfechos trágicos.

Por isso, os animais tentam adaptar-se, na medida do possível, às alterações do mundo que os rodeia. Uma dessas criaturas é o lagarto da espécie Anolis cristatellus, endémico do Porto Rico, ilha na Caraíbas que faz parte do território norte-americano.

Alertando que “a urbanização tem transformado, de forma dramática, as paisagens em todo o mundo, alterando a forma como os animais interagem com a natureza, criando ‘ilhas de calor’ com altas temperaturas” que estão a prejudicar a biodiversidade local, cientistas da Universidade de Nova Iorque descobriram que os indivíduos A. cristatellus que vivem nas cidades desenvolveram adaptações ao meio urbano que os estão a tornar diferentes do ‘parentes’ que vivem nas florestas.

Comparando 96 desses pequenos répteis recolhidos em três regiões porto-riquenhas (San Juan, Arecibo e Mayagüez), em zonas urbanas e em áreas florestais em torno das cidades, os especialistas perceberam que lagartos das cidades desenvolveram membros mais longos que lhes permitem correr mais rápido em áreas abertas e estruturas almofadadas na parte inferior das patas (na planta dos pés e das mãos, se quisermos) com escamas especiais que os ajudam a trepar superfícies mais lisas, como janelas e paredes.

Adaptações do lagarto Anolis cristatellus, de Porto Rico, aos ambientes urbanos.
Fonte: New York University

Essas medições levam os investigadores a concluírem que essas diferenças entre os A. cristatellus da floresta e da cidade são respostas adaptativas às pressões ambientais, e ajudam os lagartos citadinos a prosperar em contexto urbano.

Mas as diferenças não são apenas anatómicas. Os especialistas identificaram alterações ao nível genético que são partilhadas pelos répteis recolhidos nas área urbanas das três regiões, mas que não são encontrados nos espécimes que foram apanhados na floresta. Por exemplo, algumas dessas adaptações genéticas ajudam os lagartos a resistir melhor a infeções.

“Embora precisemos de continuar a estudar estes genes para realmente perceber o que estas descobertas significam, temos provas de que os lagartos urbanos se magoam mais e têm mais parasitas, por isso alterações na função imunitária e na cicatrização e feridas fazem sentido”, explica Kristin Winchell, docente de biologia na Universidade de Nova Iorque e principal autora do artigo divulgado na ‘PNAS’.

“A urbanização impacta cerca de dois terços da Terra e é expectável que continue a intensificar-se”, diz a especialista, apontando que “perceber como os animais se adaptam aos ambientes urbanos pode ajudar-nos a focar os nossos esforços de conservação nas espécies que mais precisam deles e até a construir ambientes urbanos de forma a que mantenham todas as espécies”.



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