Lisboa com níveis de poluição superiores ao tolerado pela OMS



Investigação em curso no Iscte – com recurso à ciência de dados na análise de 80 sensores espalhados por Lisboa – revela que os valores de dióxido de azoto e de partículas PM10 excedem os parâmetros aceites pela Organização Mundial da Saúde, nomeadamente nas ciclovias e no terminal de cruzeiros. O estudo será apresentado na conferência dedicada à “Transformação Digital em Tempos de Crise” no Iscte, avança o instituto em comunicado.

Segundo a mesma fonte, dois dos principais poluentes atmosféricos – o Dióxido de Azoto (NO2) e as partículas suspensas PM10 – ultrapassam em Lisboa os níveis de qualidade do ar considerados aceitáveis pela Organização Mundial de Saúde (OMS), confirmando os alertas anteriormente realizados pelas agências públicas, especialistas e associações ambientais. A novidade do estudo do Iscte – Instituto Universitário de Lisboa assenta na utilização da ciência de dados, ao analisar a informação recolhida por 80 sensores, entre agosto de 2021 e julho de 2022, perfazendo um total de 998 895 observações.

O terminal de cruzeiros em Santa Apolónia, tal como as ciclovias em certas artérias da capital, “são áreas com níveis de poluição elevados e prejudiciais à saúde”. A investigação em curso “corrobora, na sequência de estudos anteriores, o trânsito elevado e o transporte marítimo, como fatores determinantes nas situações de poluição registadas no concelho de Lisboa”, sublinha o Iscte.

Estas são conclusões do projeto de investigação em curso “Data science analysis for environmental inequalities” cujos dados irão ser apresentados no dia 29 de novembro na 1ª Conferência SocioDigital Lab 2022 for Public Policy, a realizar no Iscte (ver Programa em anexo). Esta conferência será dedicada à “Transformação Digital em Tempos de Crise” e conta com a participação de Mário Campolargo, secretário de Estado da Digitalização e da Modernização Administrativa, na sua sessão de abertura.

“Esta é uma das primeiras investigações sobre o concelho de Lisboa, com esta amplitude de dados, para um período anual, na medição dos níveis de dióxido de azoto e das partículas suspensas PM10, entre outros indicadores disponíveis”, afirma Nuno Nunes, investigador do CIES-Iscte e um dos coordenadores do estudo, conjuntamente com Catarina Ferreira da Silva, investigadora do ISTAR-Iscte. A análise de dados de 80 sensores georreferenciados espalhados pela cidade – disponibilizados pela Câmara Municipal de Lisboa (CML) – permitiu identificar com recurso à ciência de dados as zonas com maior prevalência de poluição atmosférica, no que respeita ao dióxido de azoto e as partículas suspensas PM10.

O estudo foi conduzido por sete investigadores do CIES-Iscte (Centro de Investigação e Estudos de Sociologia), do ISTAR-IUL (Centro de Investigação em Ciências da Informação, Tecnologias e Arquitetura) e do CERENA (Centro de Recursos Naturais e Ambiente). Para além de Nuno Nunes e Catarina Ferreira da Silva, a equipa do projeto é constituída por Sérgio Moro, João Henriques, Ana Sousa, Rodrigo Sarroeira e Maria do Carmo Botelho.

De acordo com os dados apurados, o trânsito e o transporte marítimo são apontados como “possíveis causas para os níveis de poluição ultrapassarem os parâmetros estabelecidos pela OMS”. O aquecimento residencial e comercial, a construção e a indústria “são outras atividades que contribuem igualmente com elementos poluidores”. Também fenómenos naturais como o transporte de poeiras do deserto do Saara constituem, segundo os investigadores, outras fontes de poluição atmosférica na capital portuguesa.

Calçada de Carriche, Alameda da Encarnação, 24 de julho e Santa Apolónia com maiores níveis de NO2

Nos casos do dióxido de azoto e das partículas PM10 – dois dos parâmetros utilizados pela OMS para avaliar a qualidade do ar – a agência especializada em saúde estipula dois critérios a considerar: o limite médio diário (LMD) e o limite médio anual (LMA). No que respeita ao primeiro (25 μg/m3), é ultrapassado com bastante frequência no concelho, existindo zonas da cidade que têm valores médios diários de dióxido de azoto nas quais o LMD é excedido em cerca de 90% dos dias.

Os investigadores constataram que, entre agosto de 2021 e julho de 2022, os valores de dióxido de azoto na cidade de Lisboa foram, em termos médios, de 71,08 μg/m3, bem acima do patamar definido pela OMS (10 μg/m3). A Calçada de Carriche, a Alameda da Encarnação, a Avenida 24 de Julho e a Avenida Infante Dom Henrique, em Santa Apolónia, foram as zonas que apresentaram níveis de poluição mais elevados por dióxido de azoto.

Relativamente às partículas PM10, a OMS define o limite médio diário em 45 ug/m3 e o limite médio anual em 15 ug/m3. Apesar de em nenhum dos sensores utilizados o LMD ter sido excedido em mais de 10% dos dias, o valor médio anual foi de 15,7 μg/m3, ultrapassando ligeiramente o limite definido pela OMS.

A Calçada da Ajuda, a Rua dos Sapadores, a Avenida Fontes Pereira de Melo, a Avenida Alfredo Doutor Bensaúde e a Calçada de Carriche são os pontos de Lisboa com maior concentração de partículas suspensas PM10.

Bruxelas considerou Lisboa a “neutral-climate and smart city”

Nuno Nunes salienta que “Lisboa foi uma das 100 cidades a quem a Comissão Europeia atribuiu, em abril, a designação de “neutral-climate and smart city”, ocasião adequada para que a investigação científica das várias áreas disciplinares, os poderes públicos locais, regionais e nacionais, as empresas, as associações e os cidadãos ativamente cooperem para que se alcancem os objetivos propostos. Como ainda refere, “será nesta lógica de participação inclusiva e alargada, que poderemos obter saltos qualitativos de bem-estar e qualidade de vida, não apenas na cidade de Lisboa, mas em todo o país. Os desafios ambientais que enfrentamos exigem o maior conhecimento e empenho possíveis”.

De acordo com informações fornecidas pela OMS, a exposição ao dióxido de azoto e às partículas PM10 “aumenta o risco de doenças crónicas, como infeções respiratórias agudas, doenças cardiovasculares, doença pulmonar obstrutiva crónica e cancro do pulmão”.

A equipa do projeto considera que uma monitorização periódica e constante é o primeiro passo para diminuir a poluição atmosférica: “É necessário recolher dados que permitam às autarquias atuar preventivamente e identificar tanto as áreas que carecem de intervenção, como o nível de atuação necessário”, afirmam os investigadores, recomendando ainda o alargamento da rede de distribuição de sensores de indicadores de poluição do ar a mais locais.

“Aumentar os espaços de áreas verdes, alargar o circuito pedonal na cidade e construir e renovar edifícios de forma que sejam energeticamente eficientes”, são outras das propostas para diminuir os níveis de poluição atmosférica. Segundo os investigadores, o uso de transportes públicos, carros partilhados ou bicicleta são outras formas de reduzir fontes poluentes.

Futuro ambiental em debate no Iscte

Algumas das conclusões do projeto “Data science analysis for environmental inequalities” irão ser apresentadas na 1ª Conferência SocioDigital Lab 2022, que terá lugar nos dias 28 e 29 de novembro, no Auditório B203 do Iscte. A conferência também poderá ser acompanhada remotamente, via streaming, através do Youtube do Iscte, conclui a mesma fonte.

 

 

 



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