Milhares tricotaram 1215 metros de linha vermelha contra a prospeção de combustíveis fósseis em Portugal

Milhares de pessoas, de todas as idades, de várias localidades do país, tricotaram 1215 metros contra os furos de prospeção de combustíveis fósseis.

Durante os últimos quatro anos esta campanha percorreu o país e também chegou além fronteiras para alertar, sensibilizar e mobilizar as pessoas não só para a luta pela justiça climática mas também para a necessidade de mudarmos a sociedade e a maneira como interagimos com a restante natureza.

Durante o dia de ontem, 10 de outubro, a Campanha Linha Vermelha foi até Belém, medir as Linhas Vermelhas que milhares de pessoas tricotaram ao longo dos últimos quatro anos contra a exploração de combustíveis fósseis e por um futuro verde.

Desde Lisboa, Setúbal, Cascais, Sintra, Sines, Odemira, Caldas da Rainha, Porto, Pombal, Aveiro, Coimbra, Bajouca, Évora, Faro, Loulé, Olhão, Tavira, São Brás de Alportel, Caldas da Raínha, Alcobaça, Marvão, Bragança, Pombal, Ilha do Pico, Miranda do Douro, mas também na Austrália, Inglaterra, Suécia, Brasil, Espanha, França, EUA, Holanda e Alemanha.

Independentemente da origem, da nacionalidade, do género e idade de cada pessoa, todas tricotaram contra a prospeção de combustíveis fósseis e por um futuro verde.

A campanha “Linha Vermelha” nasceu em 2016 com a vontade de agregar “dois mundos” que raramente se juntam e que têm muito em comum: o mundo do tricô e do crochê com o mundo da luta pela justiça climática.

“Estes dois mundos têm muito em comum pois o motivo pelo qual o tricô e o crochê passaram a ser vistos como algo do passado tem a mesma origem do problema da crise climática e ecológica que vivemos: os combustíveis fósseis e o sistema capitalista que necessita de crescer infinitamente, extraindo recursos a uma velocidade muito superior à capacidade de regeneração do planeta. Crescimento infinito implica recursos infinitos e isso não existe…” explica João Costa, co-coordenador da Campanha Linha Vermelha.

Em 2015 existiam quinze contratos para prospeção e exploração de combustíveis fósseis em Portugal e neste momento esses quinze contratos estão todos cancelados. Além da sensibilização feita pela Campanha Linha Vermelha e por todo o movimento pela justiça climática em Portugal, a mobilização das populações no Algarve, no Alentejo e na Bajouca foram essenciais para esta vitória, indica a Campanha em comunicado.

“Isto foi uma vitória de todas as pessoas que habitam no planeta, pois um furo em Portugal afeta todo o planeta, tal com um furo em Moçambique afeta todo o planeta. Atualmente, as reservas atuais de combustíveis fósseis já em fase de projeto ultrapassam em 120% o que podemos explorar se queremos manter uma temperatura média global de 1.5ºC, indica um relatório de 2019. Temos que a nível mundial cancelar todos os novos projetos que aumentem emissões de gases com efeito de estufa e além disso ter em conta que os países do Sul Global necessitarão de aumentar as suas emissões. Temos que requalificar os trabalhadores desta indústria obsoleta e cuidar das populações mais vulneráveis! A luta pela justiça climática não acaba aqui!” refere Joana Dias, co-coordenadora da Campanha.

No último sábado reuniram-se em Lisboa para saber quantos metros foram tecidos por todas as pessoas que participaram na campanha ao longo de quatro anos, mas também para relembrar o que é que cada material utilizado, cada ponto diferente, cada forma, tem para nos contar, acerca da história da luta contra a extração de combustíveis fósseis em Portugal.

Neste mesmo dia, em Évora e na Bajouca também existiram momentos de celebração e de solidariedade. Em Évora a associação Pé de Xumbo decidiu fazer uma performance com Linhas Vermelhas e na Bajouca estiveram várias pessoas a tricotar mais Linha Vermelha na principal praça da vila, lembrando a sua luta local contra estes furos e a articulação que houve com a Campanha Linha Vermelha para que esta causa fosse ganha.

A Campanha encontra-se atualmente em fase de balanço e nos próximos meses anunciará a que causa mais concreta se irá dedicar no futuro.

“A nossa causa é mesmo a justiça climática mas sabemos que o caminho de compreensão de cada pessoa é diferente e necessitamos de nos focar em algo concreto para sensibilizarmos para a causa maior. Seja o novo aeroporto, seja o aumento da capacidade do terminal de GNL do porto do Sines, seja o projeto do hidrogénio ou um novo gasoduto, causas não nos faltam, agora precisamos de priorizar e ouvir os nossos parceiros e as pessoas que participaram na campanha. Apesar de haver muita informação, também existem muitas mentiras a circular e o lobby das empresas de combustíveis fósseis é muito forte. Basta pensarmos que os combustíveis fósseis além de combustíveis também dão origem aos plásticos e aos fertilizantes. É das indústrias mais poderosas do mundo e é por isso que tem que ser desmantelada e os seus trabalhadores integrados em novos postos de trabalho.”

A campanha continuará a tricotar e a difundir estas técnicas manuais ancestrais pois acreditam que é uma excelente ferramenta para agregar pessoas diferentes, mas também para não deixar morrer estas técnicas.

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