Um novo livro publicado pela Cambridge University Press defende que a confiança excessiva na tecnologia para resolver a crise climática está a desviar a atenção de uma realidade incómoda: salvar o planeta exige mudanças imediatas nos estilos de vida, sobretudo por parte de quem vive com maior conforto económico.
Intitulado Promise the Earth: A safe planet in good faith, a obra é assinada por Julian Allwood, professor de Engenharia e Ambiente na Universidade de Cambridge, e Andrew Davison, professor Regius de Teologia na Universidade de Oxford. Juntos, os autores propõem uma reflexão profunda não apenas sobre a redução de emissões, mas também sobre a forma como vivemos, lideramos, esperamos e assumimos responsabilidades.
Apesar de virem de áreas muito diferentes, um engenheiro e um teólogo defendem que a crise climática não é apenas um problema científico ou técnico, mas sobretudo um desafio moral e cultural, que implica mudanças de mentalidades e de comportamentos. O livro alterna capítulos dedicados às opções físicas, económicas e políticas para a ação climática com reflexões sobre as sete virtudes clássicas: coragem, justiça, prudência, temperança, fé, amor e esperança.
“Os cientistas estão convencidos da gravidade das alterações climáticas há muito tempo, mas a motivação para mudar não é apenas uma questão de dados”, afirma Andrew Davison, citado em comunicado. “É preciso olhar para o mundo como ele é e como deveria ser, e perceber como podemos passar de um para o outro.”
Julian Allwood critica a ideia, amplamente difundida, de que novas tecnologias surgirão a tempo de resolver o problema. “Contámos a nós próprios uma história reconfortante, segundo a qual a inovação chegará no momento certo e salvar-nos-á”, afirma. “Mas, se olharmos para a realidade física — para a velocidade a que conseguimos construir infraestruturas — percebemos que esses planos não são suficientes. Não há nenhum salvador a caminho.”
O investigador sublinha que tecnologias como a captura e armazenamento de carbono estão a evoluir demasiado lentamente para terem um impacto significativo. “A captura de carbono começou a ser usada em 1972 e, após mais de 50 anos, continua a captar menos de um décimo de um por cento das emissões globais — e grande parte disso serve para extrair mais petróleo”, afirma.
Mesmo com um forte compromisso político, há limites físicos à rapidez com que novos sistemas podem ser implementados. Por isso, Allwood defende que a solução passa inevitavelmente por um período de contenção: usar menos recursos, viajar menos, mudar a forma como aquecemos as casas e reconhecer que a nossa influência vai muito além da pegada de carbono individual.
“A ação climática não se resume ao que fazemos em casa”, diz. “Inclui o local de trabalho, a comunidade, as organizações que influenciamos. Temos mais capacidade de agir do que pensamos.”
A colaboração entre Allwood e Davison nasceu de uma frustração comum: a constatação de que décadas de evidência científica não se traduziram em mudanças reais. “Mais ciência não vai convencer as pessoas”, afirma Davison. “E mesmo quando compreendem o problema, isso nem sempre é suficiente para mudar comportamentos.”
O próprio Davison reconhece que escrever o livro o levou a rever as suas escolhas pessoais, nomeadamente no que diz respeito a viagens de avião. “Não faço viagens de lazer de avião há quase dois anos e reduzi bastante as deslocações profissionais”, conta. “Isso levanta questões importantes para as universidades: precisamos mesmo de voar tanto? Não haverá formas mais criativas de nos reunirmos?”
Os autores sublinham ainda que, embora o estilo de vida dos ultra-ricos chame frequentemente a atenção, a maior parte do impacto ambiental nos países ricos resulta das escolhas de cidadãos comuns, sobretudo das classes médias e profissionais.
“Gostamos de pensar em nós próprios como pessoas normais”, afirma Davison. “Mas, à escala global, a maioria dos profissionais pertence aos mais ricos do mundo. Isso traz responsabilidade e também poder de ação.”
Viver de forma mais responsável, defendem, não significa abdicar do que torna a vida valiosa. “Ler, cantar, dançar, estar com amigos e família — nada disso está ameaçado por escolhas mais conscientes”, diz Davison. Mas implica reconhecer o peso moral das decisões individuais.
Os autores alertam ainda para uma nova forma de negacionismo climático, mais subtil, que aceita a ciência mas insiste que qualquer ação séria destruiria a economia. Davison discorda: “Há muitas medidas possíveis e muitas até permitem poupar dinheiro. Quem tem mais capacidade financeira é, muitas vezes, quem tem maior impacto e maior margem para mudar.”
Para Allwood, esta transição representa uma oportunidade de inovação diferente. O investigador criou cinco empresas derivadas que demonstram que é possível crescer economicamente com menor uso de recursos. “A mudança começa muitas vezes com pequenos grupos que decidem fazer diferente — numa casa, num local de trabalho ou numa instituição”, afirma.
O livro termina com uma mensagem de esperança pragmática. “Não estamos a dizer que a vida tem de piorar”, conclui Allwood. “Estamos a dizer que tem de mudar.”









