Nuno Brito Jorge: “É inegável que a economia verde é melhor que a economia do carbono”

Fundada em 2013, a Coopérnico é a primeira cooperativa dedicada à produção de energias renováveis em Portugal. A ideia partiu de um grupo de 16 cidadãos que partilha uma preocupação em comum: o desenvolvimento sustentável.

Esta é uma cooperativa aberta a todos, em que para se ser membro basta adquirir capital social da mesma. Em entrevista ao Green Savers, Nuno Brito Jorge, presidente da Coopérnico, explica como nasceu o projecto, as actividades desenvolvidas e o futuro desta cooperativa que incentiva a produção de energias limpas – abordando também o panorama actual das renováveis em Portugal e o seu futuro.

Quando e como é que surgiu a ideia de criar uma cooperativa de energias renováveis em Portugal?

Começou quando, em 2011, um grupo de amigos decidiu rentabilizar as suas poupanças de forma diferente, num projecto de energia fotovoltaica. O primeiro projecto correu bem, fizemos outro, convidámos mais algumas pessoas que se reviam neste conceito e assim nasceu a Coopérnico.

A ideia partiu inicialmente de 16 pessoas. Com quantos membros conta agora a cooperativa?

Neste momento temos 74 inscritos e 66 membros efectivos.

Qual o vosso objectivo ao nível do número de membros?

O nosso plano de actividades, aprovado em Dezembro de 2013, estabelece objectivos para este ano e para os próximos quatro anos. Esperamos acabar este ano com, pelo menos, 150 membros. No final de 2017 queremos ter ultrapassado os 1.500 membros.

O que é necessário para se tornar membro da Coopérnico?

Apenas vontade de contribuir para uma mudança positiva, abertura de espírito e um mínimo de €60 para comprar três títulos de capital social no valor unitário de €20.

Que projectos já desenvolveram até agora?

Neste momento temos dois projectos operacionais. Uma central fotovoltaica em Tavira (15kW), num turismo-rural chamado Quinta do Caracol (o nosso primeiro projecto) e  outra numa creche da APPACDM Lisboa (Associação dos Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental) (20kW), na zona de Alvalade.

 Que projectos estão actualmente a desenvolver?

Temos mais três projectos em desenvolvimento e que brevemente entrarão em fase de investimento pelos membros da cooperativa. Na Associação João Santos, em Loures, num centro ocupacional da APPACDM Lisboa – o CAO Júlia Moreira – e no Centro de Bem Estar de Alcanena. Todos os projectos podem ser consultados no nosso site.

Um dos vossos princípios é a solidariedade. Como é que pretendem ajudar os portugueses e o ambiente do país através das renováveis?

No que respeita ao ambiente, o investimento em energias renováveis, por si só, contribui para o combate à poluição atmosférica e às alterações climáticas bem como para a redução da utilização de combustíveis fósseis e, portanto, da dependência energética externa. Os projectos desenvolvidos com organizações de solidariedade social são também uma forma de ajudá-las a financiar-se, rentabilizando espaços inutilizados (telhados ou terrenos baldios, por exemplo). Além disso, promovemos uma auditoria energética às instalações e oferecemos o equipamento à instituição no final do prazo de arrendamento.

Também temos um conjunto de princípios, como a preferência pela contratação de empresas ou mão-de-obra locais para implementação dos nossos projectos, que esperamos que sejam uma forma de promover o emprego local – naturalmente, à nossa escala. Importa também referir que a criação da Coopérnico veio dar oportunidade, aos membros, de rentabilizar poupanças num projecto em que acreditam e que querem fazer acontecer.

De que forma estão a divulgar a Coopérnico?

As formas de divulgação que utilizamos são essencialmente o word of mouth, ou seja, a recomendação e sugestão entre amigos e familiares, as redes sociais, nas quais estamos num processo de aprendizagem mas que já assumem um papel relevante nas visitas ao site da Coopérnico, e a imprensa positiva, por acreditarmos que estamos a fazer algo de bom e que interessa a muitos cidadãos portugueses.

A curto prazo esperamos que o maior contributo para a divulgação da Coopérnico no território nacional venha a ser dado pela criação de Núcleos Regionais. Temos a intenção de criar um núcleo por distrito. Já temos três em fase de criação – Braga, Porto e Santarém – e esperamos vir a criar alguns mais durante este ano. Também temos previsto participar em alguns eventos da área ambiental ou da energia.

Como é que avalia actualmente o sector das renováveis portuguesas?

Como é sabido, os grandes projectos de renováveis estão parados em Portugal desde a entrada do actual Governo. Os pequenos projectos, aqueles a que a Coopérnico se dedica, sofreram um golpe muito forte no final do ano passado com o segundo corte de 30% nas tarifas em dois anos consecutivos.

Durante o primeiro semestre do ano é esperado que seja publicada legislação para o autoconsumo que, esperemos, irá compensar o corte sofrido em Dezembro. Se assim for, com legislação que defenda os interesses do consumidor-produtor de electricidade verde (ao invés do que está a acontecer em Espanha), será um momento marcante no sector energético em Portugal: o momento a partir do qual é possível produzir electricidade a partir do sol como uma forma de poupança.

Como acha que vai ser o futuro destas formas de energia alternativas?

Só pode ser brilhante. Acredite-se ou não no fim do petróleo e nas alterações climáticas, é inegável que a economia verde é melhor que a economia do carbono, para o Planeta e para a nossa saúde. Na sociedade limpa do futuro (pelo menos a que eu imagino) há electricidade verde e em abundância.

De que forma se poderia melhor aproveitar os recursos energéticos do país?

Tenho uma grande simpatia pela visão do Ministro do Ambiente e da Energia de Portugal como país exportador de electricidade verde. É uma perspectiva de futuro muito importante, que permite aproveitar o nosso enorme potencial, mas que precisa do bom acolhimento europeu para vingar. Creio que também seria interessante recuperar a aposta na mobilidade eléctrica, como forma de mobilidade sustentável mas também no seu papel de forma de armazenamento de electricidade verde. Reforço que é essencial assegurar que a legislação de autoconsumo seja justa e promova o aparecimento de cada vez mais produtores-consumidores de electricidade.

Quais são os planos da Coopérnico para os próximos anos?

No imediato estamos focados no desenvolvimento e conclusão dos nossos atuais projectos, na criação dos Núcleos Regionais e na formação de grupos de trabalho temáticos. Durante os próximos anos esperamos vir a alargar as tecnologias que utilizamos para produzir electricidade, trabalhar em inovação (nomeadamente em colaboração com o sector académico ou empresas inovadoras), organizar campanhas de compra colectiva de serviços e produtos na área da energia, criar programas de apoio à utilização doméstica de energias renováveis e eficiência energética para os membros da cooperativa, entre muitas outras ideias. E, claro, queremos crescer, em número de membros, em envolvimento de cidadãos e iniciativas e na produção e consumo de energia verde.

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