O que é que os gorilas comem? Depende do local onde vivem



Tal como os humanos, antes de terem redes comerciais de longa distância, também a alimentação dos gorilas depende do que existe nas áreas onde vivem.

Uma equipa de cientistas, liderada pela organização Dian Fossey Gorilla Fund, estudou as dietas de 12 grupos de gorilas-das-montanhas (Gorilla beringei beringei), uma subespécie dos gorilas-do-oriente (Gorilla beringei), que vivem no Parque Nacional dos Vulcões, no Ruanda. Oito grupos vivem na parte sudoeste do parque, entre os 2.600 e os 3.800 metros de altitude, enquanto os restantes quatro residem a nordeste, entre os 2.400 e os 2.800 metros.

Num artigo publicado na revista ‘Ecology and Evolution’ em maio passado, e que recuperamos para assinalar do Dia Internacional do Gorila, que se celebra a 24 de setembro, os investigadores revelam uma grande variação nas dietas desses gorilas, mesmo quando vivem apenas a poucos quilómetros uns dos outros.

O objetivo era perceber se diferenças na altitude a que vivem e na vegetação existente influenciam o que esses grandes primatas comem e se variações na qualidade e quantidade dos ingredientes ingeridos podem ajudar a explicar por que razão uns grupos crescem mais do que outros.

Os resultados, obtidos através de observações diretas em campo e da análise dos valores nutricionais das plantas consumidas, mostram que, apesar de os dois conjuntos de gorilas terem dietas quase totalmente distintas, o valor nutricional do que comem é semelhante. Os investigadores dizem que as dietas dos grupos que vivem na região oriental desse parque ruandês tendem a ter dietas mais variadas dos que a subpopulação mais a ocidente.

Contudo, e apesar das diferenças quase totais, apenas um tipo de planta é consumida por ambos: o bambu, que constitui o que os cientistas chamam de um “alimento-chave”, uma vez que representa parte importante da dieta desses primatas não-humanos. Ainda assim, alertam, recordando estudos anteriores, que o bambu não está a regenerar tão frequentemente como no passado, provavelmente devido à redução da chuva durante os períodos de crescimento dessas plantas.

Os autores deste artigo entendem que o declínio da abundância do bambu no Parque Nacional dos Vulcões poderá ter impactos na saúde e na reprodução dos gorilas-das-montanhas.

Vivendo numa zona com apenas 160 quilómetros quadrados, “é notável ver quanta variação alimentar existe numa população que vive numa área tão pequena”, diz, citada em comunicado, Honorine Ihimbazwe, primeira autora do artigo.

A investigadora do Dian Fossey Gorilla Fund aponta ainda que os gorilas-das-montanhas que vivem no Parque Nacional do Vulcões são das populações de animais mais estudadas do mundo, “e, até agora, não tínhamos percebido completamente que existiam essas diferenças extremas na alimentação”.

Os gorilas que vivem na região ocidental do parque têm vindo a crescer em número mais rapidamente do que os conspecíficos que residem nas áreas orientais. Uma vez que não foram identificadas diferenças no valor nutricional daquilo que comem, mesmo que tenham dietas muito diferentes, os cientistas acreditam que outros fatores podem estar a ter influência. Por exemplo, sugerem que as distâncias que os primatas têm de percorrer para obterem alimento, o que acontece com os grupos orientais, pode levar a mais gastos de energia e, dessa forma, afetar o crescimento das subpopulações ao longo do tempo.

“Estes resultados enfatizam a necessidade de estratégias de conservação localizadas”, defende Didier Abavandimwe, coautor do artigo.

“À medida que as alterações climáticas e as pressões humanas modificam os seus ambientes, perceber como os gorilas usam os seus habitats e conseguem adaptar o seu comportamento é mais importante do que nunca”, salienta.






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