O “triângulo mágico” do Green Deal



Por: Sílvia Machado, Senior Advisor for Environment & Climate na CIP

Economia circular, digitalização e descarbonização da economia. A transição para uma economia realmente verde – que proteja o planeta como exigido pelas novas gerações – implica a combinação destas três frentes, não apenas a nível europeu, mas a nível global, com uma mudança generalizada de comportamentos, individuais e em sociedade.
Na combinação destas três áreas para a transição para uma economia mais sustentável, a Economia Circular tem o papel central na prossecução dos ambiciosos objetivos do Pacto Ecológico da União Europeia. E aqui, a gestão dos resíduos afigura-se, de facto, como um dos mais difíceis obstáculos que teremos de ultrapassar. Uma correta gestão dos resíduos deve, desde logo, assentar na prevenção e redução, passando pela devida separação – para otimizar a recolha seletiva – e subsequente valorização.

E se a atitude individual é crucial nas primeiras fases do processo, igualmente importante é a criação de um enquadramento regulatório favorável e de infraestruturas adequadas, bem como a definição dos corretos incentivos ao comportamento de produtores e consumidores, além de uma correta fiscalização dos agentes que operam nesta área.

É certo que as novas metas para os resíduos são ambiciosas. Mas a realidade pode ser bastante dececionante. No recente inquérito realizado pela CIP junto de 202 empresas portuguesas – já sensibilizadas para o tema – 71% afirma não dominar na totalidade o conceito de Economia Circular, e apenas 14% consegue identificar claramente processos ou estratégias de circularidade. Igualmente, durante todo o mês de julho, a CIP organizou um ciclo de debates – incluído no projeto Economia + Circular – que juntou mais de 1.600 empresas para discutir os principais obstáculos que se colocam à circularidade no contexto nacional.

E as conclusões são claras: Precisamos de procedimentos mais simples e mais céleres para a utilização de matérias-primas secundárias; é necessária uma clarificação regulatória sobre os vários mecanismos de desclassificação de resíduos para subprodutos; são essenciais incentivos para a utilização de matérias-primas secundárias pelos fabricantes (frequentemente mais onerosas do que as virgens), bem como para o consumidor, para que valha a pena investir num produto mais durável, eco concebido para poder ser reparado e/ou recondicionado e totalmente reciclado no fim de vida.

Sob pena de ser chamada de “ambientalista” pela indústria, ou acusada de estar “do lado negro da força” pelos ambientalistas, julgo que é a sustentabilidade que deve estar em primeiro plano. Um conceito que não se esgota na sua vertente ambiental, mas que obedece antes a uma avaliação tripartida: ambiental, económica e social. Isto implica um debate sério, sem demagogias fáceis. Soluções, aparentemente atrativas, podem ter consequências ao nível de outros poluentes, do consumo de água ou energia, ou mesmo a nível social e económico.

A desinformação sobre o que é realmente favorável para o ambiente, fruto de campanhas de marketing que são na verdade ações de greenwashing, pode promover soluções que se limitam, na melhor das hipóteses, a transferir impactos ambientais de um meio para outro, como, por exemplo, do mar para o solo. Estejamos atentos.



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