Os oceanos vão mudar de cor

O aquecimento dos oceanos traz inúmeras repercussões, e cabe a cada um de nós trabalhar para mitigar estas alterações.

Os oceanos são uma parte essencial do planeta, afinal, ocupam 70% do espaço da Terra. São fundamentais para a vida do ser humano e de muitas outras espécies de fauna e flora. A ação humana e a forte industrialização têm levado a grandes níveis de poluição, desde as ilhas de plástico até à emissão de gases de efeito de estufa como o dióxido de carbono e o dióxido de azoto para a atmosfera. Surgem assim as alterações climáticas, e com elas muitos fenómenos atípicos como grandes tempestades, temperaturas elevadas, e o aquecimento da água do mar. Os oceanos estão a aquecer, e estão a gerar uma grande mudança nos ecossistemas. Cerca de 93% do calor do aquecimento global é absorvido por eles.

O seu papel na alimentação humana é insubstituível. Segundo o mais recente relatório “The State of World Fisheries and Aquaculture” da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), a pesca em alto mar em 2018 produziu um total de 115 milhões de toneladas correspondendo respetivamente a aquacultura 31 milhões de toneladas e à pesca no mar 84, sendo quase a sua totalidade para consumo próprio. O peixe e o marisco são importantes na alimentação das pessoas. Além de o setor da pesca ser um dos que menos causa impacto no planeta, dá emprego a cerca de 59,9 milhões de pessoas em todo o mundo. Com a mudança nas temperaturas cada vez mais acelerada, várias espécies de peixes, aves, cetáceos, mamíferos, vão ser obrigadas a procurar condições mais favoráveis para habitar.

Essa procura vai prejudicar outros habitats onde vivem outras espécies nativas, quer seja em outras águas, quer seja em camadas inferiores do oceano. Em simultâneo, a distribuição de oxigénio nas águas vai diminuir. Todos estes riscos vão levar ao desaparecimento de milhares de espécies. O fenómeno afeta os ecossistemas, aumenta o risco de propagação de doenças, e prejudica toda a cadeia alimentar animal e humana. A destruição dos recifes de corais traz problemas para as zonas costeiras, contribuindo para a degradação da qualidade das águas e causando maior erosão da costa. Estima-se que 60% das espécies de peixes desapareçam até 2100, caso as temperaturas globais aumentem 5 graus celsius, revela um estudo recente da Universidade de Bremen e do Helmholtz Institute for Functional Marine Biodiversity.

DEGELO

Outra consequência que importa destacar é que o aumento das temperaturas leva ao derretimento do gelo nos polos e do permafrost. A região do Ártico já aqueceu 0.75°C graus, o que resulta em verões maiores, mais quentes e secos, e invernos mais húmidos. Essas alterações no clima levam a que o permafrost comece a derreter. Uma das principais consequências do degelo é o aumento do nível das águas em todo o planeta, que afeta comunidades e espécies, põe em risco a existência de zonas costeiras e contribui para a sua erosão, conduz ao deslizamento de terras e à instabilidade do solo (que levam à destruição de construções e infraestruturas), e resulta na rutura dos ecossistemas. A camada de solo permafrost retém grandes quantidades de carbono (cerca de 1,600 mil milhões de toneladas), que ao derreter são libertadas para a atmosfera, somando-se aos valores emitidos pelas atividades humanas.

Um fator mais preocupante para os cientistas é o da libertação de vírus e bactérias que até agora se encontravam congelados no subsolo. Não é por acaso que a Sibéria tem sofrido grandes incêndios florestais e recordes de temperaturas, e o Alasca grandes precipitações como foi o caso do ano de 2014, em que o permafrost não voltou a congelar ao mesmo nível. Segundo o Serviço Europeu Copernicus, em junho e julho de 2020 os incêndios libertaram 204 megatoneladas (204 000 000 toneladas) de dióxido de carbono. A vaga teve início em maio mas os focos permaneceram com o passar do tempo, e as chamas chegaram a aumentar em junho devido a ondas de calor que se fizeram sentir no Nordeste da Rússia.

As temperaturas na Sibéria chegaram aos 37ºC no dia 20 de junho, e aos 38ºC na cidade russa de Verkhoiansk, temperaturas que são em média as mais altas dos últimos 20 anos. Clare Nullis, porta-voz do World Meteorological Organization, afirma que, “no geral, o Ártico está a aquecer mais do que o dobro da média global. Este aquecimento está a exercer um grande impacto nas populações e nos ecossistemas locais, mas dizemos sempre que o que acontece no Ártico não fica no Ártico, afeta o nosso clima em diferentes partes do mundo onde vivem centenas de milhões de pessoas”. Uma das espécies que mais estão a ser afetadas por estas alterações são os ursos polares (Ursus maritimus). Segundo os cientistas, as suas populações estão a decrescer, e a dificuldade em caçar focas e alimentar-se com as calorias diárias de que necessitam (um estudo publicado na Science afirma que estes animais precisam em média de 12.325 quilocalorias por dia) põe seriamente em causa a sua sobrevivência.

Com o gelo a quebrar mais facilmente e menos estável, os ursos polares têm de se esforçar mais para se deslocar e sobreviver. Espera- -se um declínio de 30% nos próximos quarenta anos. O aquecimento dos oceanos traz inúmeras repercussões, e cabe a cada um de nós trabalhar para mitigar estas alterações. Existem cada vez mais alternativas ecológicas a adotar nas funções do dia-a-dia, seja em bens de consumo, em meios de deslocação, ou no setor alimentar.

O Acordo de Paris começou por unir os países e influenciar uma mudança, impondo metas que respeitam o ambiente da Terra. Contudo, a ideia tem de ser transmitida e aplicada por todos nós a nível mundial, sem exceção. O planeta onde vivemos é só um, e é uma responsabilidade de todos.

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