Os refrigerantes são o tabaco do século XXI?

Raúl Valverde, um mexicano de 40 anos, adora refrigerantes. “Bebo entre 600 ml a um litro por dia”, explicou ao Financial Times. Ou melhor, bebia, uma vez que decidiu deixar de beber refrigerantes quando descobriu que tinha excesso de peso.

“É desconfortável ter excesso de peso e isso vai ter um impacto na minha saúde, ainda que, felizmente, não seja diabético”, frisou.

Foram pessoas como Raúl que levaram o Governo mexicano a taxar os refrigerantes no início do ano – o país concorre com os Estados Unidos para esse tão desconfortável título do lugar com mais obesos do mundo.

No mês passado, a Organização Mundial de Saúde (OMS) reduziu a dose recomendada de açúcar por dia para os 5% de calorias recomendadas – ou seis colheres de chá. “O açúcar tornou-se no novo tabaco”, explicou ao FT Simon Capewell, fundador da ONG Action on Sugar, formada em Janeiro no Reino Unido.

“Em todo o lado, os refrigerantes e fast food são empurrados para os pais e crianças por uma indústria cínica, focada nos lucros e não na saúde”, continuou Capewell. Como resposta, a indústria do açúcar diz que está a ser “demonizada” de forma injusta, argumentando que a falta de exercício físico é responsável pelas cada vez maiores taxas de obesidade.

Ainda assim, há cada vez mais estudos e investigações científicas que ligam o açúcar à obesidade. E alguns Governos, como o mexicano, estão a acordar para os gastos no tratamento de diabetes, cancro ou outras doenças ligadas ao consumo excessivo de açúcar.

“O custo total do combate à obesidade e diabetes é de €360 mil milhões (R$1,1 biliões), cerca de 10% do total gasto em saúde no mundo”, explicou Stefano Natella, do Credit Suisse.

A indústria reage

Quando Michael Bloomberg tentou proibir os copos gigantes de refrigerantes em Nova Iorque, em 2012, a indústria levou-o a tribunal e ganhou. Agora, vários estados norte-americanos, como a California e o Illinois, propuseram taxas para os refrigerantes.

Atacada por diversos lados, a indústria dos refrigerantes, doces e snacks está a reduzir há mais de 10 anos o nível de açúcar nos seus produtos. A Nestlé reduziu o acçúcar nos seus produtos em 30% de 2001 a 2011, e a Coca-Cola procura na inovação – substituir o açúcar por stevia – para o alcançar.

Segundo o cardiologista Graham MacGregor, do Wolfson Institute of Preventive Medicine, de Londres, estas iniciativas não são suficientes. “Todas as empresas podem fazer algo diferente para com as suas promessas de [reduzir] as calorias, por isso é impossível medir e acaba por não ter nenhum efeito”, explicou o responsável.

“O açúcar acrescentado à comida e bebida não tem valor nutricional, ou tem pouco, e contribui para o aumento das calorias”, continuou o médico.

Em Inglaterra, a directora-geral de saúde já avisou os legisladores que são necessárias novas medidas para garantir que as pessoas percebem o quão calóricos são os refrigerantes, bebidas de fruta ou colas. E deixou aberta a possibilidade de ume taxa para os refrigerantes.

“Temos uma geração de crianças que, porque são obesas e não fazem actividades físicas, não viverão tanto como as da minha geração. Será a primeira geração a viver menos”, explicou ao FT. E em Portugal, poderemos ter uma taxa para refrigerantes ou bebidas com açúcar?

Foto:  Joelk75 / Creative Commons

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1 comment

  1. mouzinho

    Concordo inteiramente que os governos devam no imediato tomar medidas, atraves de novas leis, que ponham cobro aos LUCROS EXAGERADOS e IMORAIS de toda uma industria que a montante produz, manipula , vende e publicita, produtos cientificamente provados que fazem mal a saude , criam habituações e mais grave, NAO ELUCIDAM OS CONSUMIDORES DESSES PERIGOS.
    De todas as doenças dai resultantes quem sofre é o consumidor ( muitas das vezes sem o saber) e quem paga as despesas com tratamentos medicos , ausencias ao trabalho etc etc, é o estado, isto é todos nós.

    As empresas que produzem esses produtos deviam ser obrigadas a ter um fundo que suportasse todos esses prejuizos na saude das pessoas.
    Há que estabelecer limites legais para o açucar e o sal nos alimentos embalados.

    E criar ROTULOS VERMELHOS de alerta para que todos nós cidadaos e consumidores tenhamos consciencia dos males que podem causar.

    E haja a coragem da sociedade civil e dos governos em lutar contra os lobies e todas as forças que encapotadamente tentam escamotear o problema e evitar que medidas legislativas sejam tomadas, para não perderem os bilioes de lucro que teem todos os anos.

    O mundo mudou mas há muita gente que ainda pensa estar no feudalismo e na Idade Media.

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