Pedro Rocha: “McDonald’s Bio ou subversão?”

“NA ALEMANHA, FUI SURPREENDIDO COM UMA NOVA ABORDAGEM DE MERCADO DA MCDONALD’S. Em Portugal temos a McBifana, na Alemanha o McBio. Esta diferença é bem demonstrativa da força que o bio ganhou no país em que, talvez, os produtos de agricultura biológica se encontrem mais disponíveis e a preços mais competitivos. Bia na Alemanha é quase uma obrigatoriedade. Assim exigem os alemães.

Mas na McDonald’s? McBio?!

A lógica levar-nos-ia a aplaudir. É de facto fantástico que a McDonald’s, sendo reconhecida pela sua baixa qualidade, ofereça um hamburger bio. Levante-se a plateia e que se bata palmas, efusivamente. O mundo da fast food está em processo de conversão. A McDonald’s ganhou consciência. Finalmente uma grande multinacional decidiu salvar o mundo.

Seguramente, o objectivo passa por recuperar de uma imagem cada vez mais associada à baixa qualidade, comida pouco saudável… Mas, mais certo, é que a estratégia saia furada. Os alemães são porventura o povo que melhor conhecimento tem sobre os princípios da agricultura biológica e dos seus valores éticos. Não será por uma jogada de marketing que se deixarão enganar.

Para que se entenda que não passa de uma mera jogada, fica a explicação.

A McDonald’s oferece nas suas lojas alemãs a possibilidade de pedirmos um hamburger bio, onde só a carne desse hamburger é de agricultura biológica (tudo o resto se mantém). A publicidade encontra-se espalhada por todo lado e tem armadilha. Em letra pequena, a McDonald’s reserva o direito de não ter o produto disponível, por limite de stock. Ou seja, no pior dos casos poderá acontecer nunca ter a hamburger bio em oferta. Este é talvez o hamburger mais difícil de engolir, pois cheira a puro golpe de marketing.

Talvez seja tempo de repensarmos as regras para utilização do selo bio ou correremos o sério risco da agricultura biológica ser subvertida numa mera questão de imagem.

É legítimo que a McDonald’s publicite uma oferta que não corresponde à oferta real das lojas? Será que a imagem bio passou unicamente a marca de prestígio? Onde estão os limites do que é bio e não bio, apesar do selo? Poderá ser dito que o McBio é bio, quando o pão, o queijo, o ketchup, a cebola não o são?

Tudo isto é chocante. Levanto sérias dúvidas quanto à rastreabilidade de uma certificação bio na McDonald’s, onde os produtos são manuseados e confeccionados na hora e na presença de produtos não bio. Existe todo um processo para a produção do hamburger, até à entrega ao cliente na loja, que abre diversas possibilidades para que a rastreabilidade se perca.

Apenas um sistema de controlo altamente exigente e burocrático poderia permitir ter a oferta de um único produto bio numa cadeia de lojas como a McDonalds. Simplesmente, com o conhecimento sobre os processos de certificação, não acredito que uma multinacional conhecida pela estratégia do barato, rápido e fácil não esteja a subverter o conceito bio e a tentar tirar partido da imagem positiva que o bio tem, pagando para ter um selo que dificilmente respeitará.

Se o bio assim continuar, estou certo que o consumidor castigará os produtos certificados, com a perda de credibilidade que se adivinha”.

Pedro Rocha é leitor do Green Savers, nasceu em Espinho em 1976 e cresceu entre as praias da Aguda e os campos de Arcozelo. Em 2000 concluiu o Curso de Ciências do Ambiente e Poluição na Universidade de South Wales, no Reino Unido e, no mesmo ano, iniciou a actividade profissional na consultora alemã Hydroplan GmbH, sendo consultor no projecto de desenvolvimento rural em Cabo Verde. Em 2005 começou o projecto de agricultura biológica Raízes, na produção e distribuição de produtos biológicos, do qual ainda é sócio. Desde 2014 que se dedica à prestação serviços como agricultor urbano e consultor, promovendo novos conceitos de relação entre consumidores e produtor.

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