Pistas centenárias revelam uma ameaça oculta a uma das aves mais emblemáticas da Austrália



Um novo estudo realizado por investigadores da Universidade de Copenhaga e da Universidade Nacional Australiana (ANU) revelou uma ameaça oculta a uma das aves mais emblemáticas da Austrália.

A ave, em perigo crítico de extinção, chegou a contar com centenas de milhares de indivíduos, mas a sua população diminuiu para menos de 300.

Analisando o ADN de espécimes de museu com mais de 100 anos e comparando-o com amostras modernas, a equipa descobriu que, apesar de um declínio populacional de 99%, este não foi inteiramente refletido pela genética. A ave perdeu 9% da sua diversidade genética.

De acordo com os autores, esta disparidade reflete um “atraso” na erosão genética – em que a variação genética diminui mais lentamente do que o tamanho da população.

“Este atraso pode estar a esconder os riscos genéticos que se aproximam”, afirma Ross Crates da ANU.

“As nossas simulações mostram que a perda de diversidade vai continuar e até acelerar, e é provável que a espécie já esteja a sofrer uma diminuição da saúde genética devido a este processo”, acrescenta.

“Com esta informação em mãos, podemos proteger melhor os abelharucos regentes. Podemos identificar habitats prioritários, otimizar programas de reprodução e observar atentamente os sinais de consanguinidade antes que se tornem um problema crítico”, sublinha.

Para compreender melhor os desafios que as aves enfrentam, o estudo também recorreu à modelação ambiental. Com base em registos históricos e projeções de climas futuros, os autores descobriram que a perda contínua de habitat, o desenvolvimento urbano e as alterações climáticas reduziram drasticamente os locais adequados para a reprodução e alimentação do abelharuco.

Os seus modelos preveem que as condições poderão piorar nas próximas décadas, especialmente no que respeita aos restantes redutos da espécie.

“Este trabalho mostra como a combinação de diferentes conjuntos de dados, como os dados genómicos e a modelização da distribuição das espécies, pode fornecer uma imagem mais completa do declínio da biodiversidade”, explica o Professor David Nogués-Bravo, coautor do estudo.

O Professor Associado Hernán E. Morales, que liderou o estudo, acrescenta: “Temos de levar a sério a ameaça da erosão genómica no meio da atual crise da biodiversidade. Embora a diversidade genética do abelharuco regente pareça relativamente elevada, os nossos resultados mostram que já está a sofrer erosão, e as ameaças ambientais em curso só agravam este risco”.

“A perda de variação genética pode ocorrer de forma furtiva – e rápida – depois de as populações atingirem níveis criticamente baixos. Este intervalo entre o colapso demográfico e a erosão genética visível é um risco de extinção oculto”, conclui.

O estudo foi publicado na revista Proceedings of the Royal Society B.






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