Porque razão as cidades com melhor qualidade de vida estão vazias?

Todos os anos, a consultora Mercer, o jornal The Economist e a revista Monocle elaboram o ranking das cidades que oferecem melhor qualidade de vida, aquelas onde todos, na teoria, quereriam viver – Most Livealable Cities.

Como é normal, muitas das cidades repetem-se nestes rankings, mas todas têm um facto enigmático – e irónico – em comum: não vive lá ninguém. Esta é a verdade, por mais que doa às cidades helvéticas, canadianas ou nórdicas que encabeçam estes rankings.

Ora vejamos o número de habitantes de algumas das cidades com melhor qualidade de vida: Copenhaga: 530 mil habitantes; Zurique: 370 mil; Vancouver, 580 mil; Helsínquia, 715 mil; Genebra, 190 mil.

Outras destas cidades, como Munique, Viena ou Auckland, na Nova Zelândia, estão na casa do milhão de habitantes, mas nem este facto ajuda a perceber porque é que as pessoas, que procuram qualidade de vida, migram para grandes áreas metropolitanas como Londres, Nova Iorque, Los Angeles, Hong Kong ou Bombaim.

Como explicava há dias o Financial Times, estas megacidades – metrópoles universais – são demasiado caóticas, ineficientes, perigosas ou, simplesmente, demasiado grandes. Então porque razão todos querem lá morar?

De acordo com Rick Burdett, que fundou a London School of Economics, estas pesquisas (das cidades com melhor qualidade de vida) elaboram sempre “uma lista das cidades onde ninguém quer viver”.

“As pessoas querem viver em cidades grandes e complexas, onde não conhecemos todos e nunca sabemos o que vai acontecer no próximo dia. As cidades são lugares de oportunidades e conflito, mas onde podemos sempre encontrar segurança na multidão”, revelou.

O Financial Times, por exemplo, divide as cidades entre as de que se gosta e as onde se vive bem. Um exemplo: há milhões de pessoas felizes a viver numa favela brasileira, no Rio de Janeiro ou São Paulo, e milhões de cidadãos infelizes na ordeira e verde paisagem escandinava. “Ainda ninguém fez uma lista das cidades com uma melhor qualidade de vida informal”, revela o jornal.

Outra das razões pelas quais as grandes metrópoles receberão sempre mais habitantes que as pequenas e ordeiras capitais nórdicas ou canadianas prende-se com a mobilidade social.

“Londres e Nova Iorque são ímanes para os imigrantes precisamente porque permitem começar do zero. Têm estruturas de classe, mas são altamente maleáveis”, diz o FT.

E, para si, que características fazem uma grande cidade, uma cidade com qualidade de vida mas também onde se pode viver no limite? E, já agora, em que cidade gostaria de viver – se é que já não vive?

O que faz uma grande cidade, segundo o FT?

  1. Mistura entre beleza e áreas feias. A beleza para levantar a alma, as áreas feias para garantir que a cidade é um organismo em permanente mudança.
  2. Diversidade. Se há milhões de pessoas que querem ir para uma cidade, então é porque algo lá se passa.
  3. Tolerância. Para haver diversidade, a cidade tem de ser tolerante.
  4. Densidade, que traz actividades culturais 24 horas por dia (como Nova Iorque) e faz com que a cidade seja vibrante.
  5. Mistura social, que mantém a cidade viva.
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