Presidente do Brasil acusado de mentir na Assembleia Geral da ONU



“Trago a boa notícia de que os primeiros dados disponíveis para o último ano já indicam diminuição de mais de 20% do desmatamento naquela região (Amazónia). Retomamos o bom caminho e nesse caminho persistiremos”, afirmou esta terça-feira Michel Temer, no seu discurso de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque.

Acontece que o presidente do Brasil cita os dados do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazónia (Imazon), divulgados no dia 22 de Agosto, e um dos investigadores responsáveis por esse levantamento já veio dizer que a informação apresentada por temer “é imprecisa” e “inadequada”.

“Os dados que o Imazon mede mensalmente podem indicar uma tendência. Portanto, é possível que o desmatamento caia. Mas não podemos dizer 20% porque não temos a precisão que essa afirmação exige”, disse o engenheiro florestal Paulo Barreto, investigador associado do Imazon, à BBC Brasil.

“Estes não são dados oficiais. Os dados do governo ainda não foram divulgados e parece que o presidente está comparando dados oficiais do ano passado com os nossos, de agora, sendo que as metodologias são totalmente diferentes”, afirmou. O investigador aponta que uma eventual redução não seria fruto de políticas públicas para a preservação do meio ambiente, como sugeriu o presidente, lembrando que há vários factores a contribuir para o desmatamento, desde politicas públicas até a economia e o mercado. Além disso, “o governo mandou projectos de lei para o Congresso para reduzir áreas de conservação. Nossos estudos mostram que as taxas dobram com reduções como esta”, conclui.

Entre Agosto de 2016 e Julho de 2017, período usado como parâmetro para a medição do Imazon, o desmatamento acumulado na região foi de 2.834 Km². É um número menor apenas que o do ano passado (3.580 Km²), mas ainda assim é importante referir que a área desmatada no último ano corresponde a quase duas cidades de São Paulo inteiras.

Segundo críticos e analistas, a inclusão destes pontos no discurso do presidente do Brasil na 72ª Assembleia Geral da ONU, a par da reafirmação do apoio brasileiro ao acordo de Paris, terá sido uma estratégia para reverter a má impressão causada a nível internacional pela extinção da Reserva Nacional do Cobre e Derivados (Renca) e pelos cortes no financiamento de países como a Noruega, a Dinamarca e a Alemanha ao Fundo Amazónia, cortes estes que se basearam no aumento de 58% no desmatamento no ano passado, segundo estudo da Fundação SOS Mata Atlântica e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Foto: Wiki Commons



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