Projeto MISTRAL juntou oito países para inovar a Economia Azul na Região Mediterrânica



Em entrevista à Green Savers, Alexandra Correia, coordenadora do Projeto MISTRAL e do Departamento de Desenvolvimento e Cooperação da ADRAL – Agência de Desenvolvimento da Região Alentejo, deu a conhecer o trajeto desta iniciativa, que ao longo de quatro anos mobilizou empresas e empreendedores europeus da região do mediterrânico em busca de soluções inovadoras para a Economia Azul.

O que é o projeto MISTRAL e no que consistiu a sua atividade?

O projeto MISTRAL, decorreu entre 2018 e 2022 – durante quatro anos – e envolveu 15 entidades de oito países diferentes. Foi um projeto de cooperação regional entre várias regiões da Europa do Mediterrâneo que teve como objetivos promover e concretizar um ecossistema transnacional de inovação na Economia Azul no qual as empresas, centros de inovação (I&D), Universidades e Instituições Públicas cooperaram na promoção da inovação e desenvolvimento económico das suas regiões.

Através deste projeto foi possível estudar, testar, transferir e capitalizar conhecimento no âmbito de cinco subsetores da economia azul (energias renovareis, turismo costeiro e náutico, biotecnologia, pesca e aquacultura e controlo e proteção marítima), onde diversas regiões trabalharam em parceria, através de uma abordagem de tripla hélice (Autoridades Públicas, Centros de Investigação, Clusters/empresas/PMEs) para garantir o desenvolvimento e inovação na região do Mediterrâneo.

De que forma esteve a ADRAL – Agência de Desenvolvimento da Região Alentejo, a única entidade portuguesa associada, envolvida no projeto?

A ADRAL esteve envolvida em todas as atividades de estudo, testagem, transferência e capitalização de conhecimento do projeto, com mais foco na implementação do que chamamos WP5 – Transferring, onde fomos a entidade responsável pelas atividades de transferência de conhecimento. Nestas atividades, a ADRAL coordenou toda a parceria para organizar os Laboratórios, Campos de Aprendizagem Regionais, Nacionais e Internacionais. Neste âmbito foram desenvolvidos 12 laboratórios de aprendizagem regionais, nos países dos vários parceiros, e ainda três laboratórios de aprendizagem internacionais, onde os diversos stakeholders tiveram a oportunidade de trabalhar as temáticas entre si.

Importa também de realçar que, apesar de a ADRAL ser o único parceiro promotor do projeto, a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo acompanhou todo o processo enquanto parceiro associado, reforçando a aposta da região no desenvolvimento estratégico da Economia Azul. A Câmara Municipal de Sines também se envolveu deste a primeira hora nesta iniciativa, apoiando o desenvolvimento das diversas atividades realizadas em Portugal e integrando grupos de trabalho internacionais com vista a reforçar o impacto que a economia azul tem na região. Outra entidade que também apoiou este projeto foi a Fórum Oceano – Associação da Economia do Mar e enquanto Cluster do Mar Português, que através do trabalho realizado com as diferentes entidades do consórcio possibilitou o estabelecimento de um acordo entre clusters nacionais ligados ao mar com clusters de Espanha e Itália, para a criação de uma rede ao serviço da governação no desenvolvimento dos sectores da economia azul.

Que destaque teve Portugal no MISTRAL?

Portugal acolheu este projeto em diversas atividades, representando e partilhando o que existe em relação à economia do mar. Foi sem dúvida um país de destaque em 2019 quando Lisboa acolheu o Dia Europeu do Mar (o maior evento europeu sobre Economia do Mar, organizado pela DG MARE), dando destaque ao empreendedorismo azul, investigação, inovação e investimento para transformar os sectores marítimos tradicionais e impulsionar as tecnologias emergentes e as cadeias de valor.

A envolvência de outras entidades, nomeadamente instituições de governança local e regional, tem também sido um destaque para Portugal, pois verifica-se um claro interesse de trabalho conjunto por parte das instituições, o que permite um desenvolvimento de novos conhecimentos sobre a evolução da política e do panorama de financiamento da UE, assim como contribuir de uma forma mais integrada para a formulação de novas políticas relacionadas com o mar.

Que resultados podem revelar findos os quatro anos de trabalho?

O trabalho em parceria, a partilha de experiências e a partilha de dados no desenvolvimento de estudos entre os vários países é sem dúvida um resultado muito positivo. Outros resultados que também podemos destacar são:

  • A edição do Blue Book MISTRAL, que permitiu recolher informações relevantes dos diferentes territórios sobre os potenciais de inovação nos cinco sub-sectores da economia azul;
  • Os concursos de planos de negócios, onde Portugal esteve em destaque com dois projetos premiados. O Subtrophi, de Frank Neumann, que foi o vencedor do “The Blue Growth Elevator Pitch Competition” e o projeto “Oceanário XR” ,de Ana Portada, que recebeu a distinção de eloquência;
  • A identificação de um conjunto de ações orientadas para a inovação de alto nível para proporcionar o máximo de impacto e, assim, abrir oportunidades para as partes interessadas;
  • A identificação de boas práticas assim como de ferramentas para aumentar a capacidade dos atores da Economia Azul para criar sinergias;
  • As recomendações políticas para a transferibilidade;
  • A assinatura de um protocolo que resultou na criação de uma rede para o desenvolvimento dos sectores da economia azul com clusters de Portugal, Espanha e Itália.

Porque é que a Economia Azul é importante? Que vantagens traz especificamente para a Região Mediterrânica?

A Economia Azul desempenha um papel fundamental para o desenvolvimento da economia na região mediterrânica, pelo enorme potencial de inovação e de desenvolvimento sustentável que aporta. Atualmente, na União Europeia, representa 5,4 milhões de empregos e um valor acrescentado bruto de aproximadamente 500 mil milhões de euros por ano. Em Portugal, representa 5,1% do Produto Interno Bruto (PIB) e 4,1% do emprego, segundo dados deste ano da Direção-Geral de Política do Mar (DGPM).

Os Países do Mediterrâneo estão historicamente ligados ao mar, foi uma importante fonte de recursos ao longo dos séculos. A mudança de paradigma que atualmente vivemos para tornar o nosso planeta e o nosso dia a dia mais sustentável levou a que naturalmente as regiões com acesso ao mar voltassem a olhar para este como uma fonte de recursos sustentável capaz de aportar muito valor ao território envolvente.

Assim, o Mistral procurou estimular o conhecimento, as sinergias, mas também a competitividade e a inovação em setores chave para a economia azul como: a segurança e proteção marítima, energia azul, turismo, pescas e conhecimento.

Ao concretizar este tipo de projetos é possível estabelecer a cooperação entre os vários territórios para o desenvolvimento da região mediterrânica neste caso, de forma integrada, alavancando a escala das suas ações e projetos, e dotando os agentes regionais com mais conhecimento e redes de contactos relevante que vai acelerar o desenvolvimento da economia azul nestes territórios de forma sustentável.



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