Projeto português contribui para a proteção animal reconstruindo peles exóticas em laboratório

Um projeto incubado no parque da Ciência e da Tecnologia da Universidade do Porto (UPTEC) pretende, através da reconstrução de peles exóticas em laboratório, contribuir para a proteção animal e a descarbonização da indústria do couro.

Em declarações à agência Lusa, Maria João Maia, uma das fundadoras do Corium Biotech, explicou hoje que tudo surgiu depois de, em 2018, ter visitado uma reserva natural de jacarés na Florida, nos Estados Unidos da América.

“Quando visitámos essa reserva, ganhámos consciência da realidade desse negócio das peles e que estes animais muitas vezes são mantidos em cativeiro com a única finalidade de extração e venda da pele para a indústria da moda”, contou.

Consciente dessa realidade, Maria João Maia aplicou o conhecimento biológico que tinha de como reconstruir pele em laboratório para “construir uma pele animal que podia ter como fim a proteção animal e a descarbonização da indústria do couro”.

“A solução que nós propomos interessa porque permite obter um couro da mesma qualidade que o couro real, sem ter esta associação ao mal-estar animal e à carbonização e o impacto ambiental negativo que o couro e a indústria neste momento têm”, salientou Maria João Maia.

Ainda que a indústria do couro seja “vasta”, o Corium Biotech debruça-se, neste momento, sobre a pele de réptil, uma vez que esta se “regenera mesmo em idade adulta” e pode vir a ser aplicada também a diferentes áreas da saúde.

“Compreender os processos de regeneração que levam os animais a numa fase adulta conseguirem regenerar completamente a pele, depois de um stress externo de uma ferida, pode levar também a aplicação de novas terapêuticas”, explicou a jovem, mestre pela Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto (FFUP).

Sem causar no animal “qualquer tipo de dor”, as fundadoras do projeto recorrem a uma biopsia para extrair, apenas uma vez, as células animais e, posteriormente, cultivá-las e produzi-las em laboratório.

“Podemos combinar uma parte lucrativa industrial com uma parte de desenvolvimento que pode servir aos doentes queimados e outras áreas da saúde”, referiu Maria João Maia, acrescentando que a tecnologia desenvolvida poderá ser futuramente aplicada a outros tipos de couro.

“Quisemos desenvolver o mercado do couro de réptil porque, neste momento, economicamente é o que mais interessa à indústria e onde podemos ser competitivas, mas a tecnologia pode vir mais tarde a aplicar-se a todo o tipo de couro”, salientou.

À Lusa, Maria João Maia adiantou que, neste momento, o projeto está em “fase final de contrato com um fundo de investimento”, o que permitirá ter “uma primeira ronda de ensaios laboratoriais concluída” para que dentro de um ano e meio “os primeiros protótipos estejam concluídos”.

Paralelamente, o Corium Biotech tem já alguns protocolos estabelecidos com equipas de investigação pública na área de criação de modelos de pele em três dimensões (3D), o que permitirá fazer “a ponte entre a investigação fundamental e o desenvolvimento de terapêuticas cutâneas e aplicações na indústria da moda”.

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