Roberta Medina: “Já investimos cinco milhões de euros no projecto social do Rock In Rio”

Sem tabus nem papas na língua. Assim foi a entrevista exclusiva que a vice-presidente executiva do Rock In Rio, Roberta Medina, deu ao Green Savers no início da semana, na qual explicou o cada vez mais importante papel do desenvolvimento sustentável no histórico festival.

Adiantando que o evento já investiu, nos últimos dez anos – ou seja, sete edições – cinco milhões de euros no projecto social, Roberta Medina admite, ainda assim, que as pessoas não sabem, exactamente, que causas sociais o Rock In Rio apoia.

“Eu compreendo isso, porque o Rock In Rio não tem uma causa única, desde sempre nos dedicámos a abraçar causas que, nesse [dado] momento, nos pareciam as melhores”, explica a responsável.

Por outro lado, a próxima grande batalha do Rock In Rio passa por… reduzir as emissões de CO2. “Já fazemos planos de redução de emissões para o ambiente, promovemos concursos internos para incentivar patrocinadores e fornecedores a terem atitudes mais sustentáveis”, explicou Medina na primeira parte da entrevista exclusiva ao Green Savers.

Hoje, o Rock In Rio dedica parte das suas acções de promoção a falar de sustentabilidade e inclusão social, mas muitas vezes o grande público acaba por não ter noção do quanto a organização investe nestes temas. Concorda? Porque razão?

Concordo. As nossas pesquisas dizem-nos que as pessoas sabem que este investimento existe e valorizam o facto do Rock In Rio apoiar causas sociais associadas, mas não sabem dizer que causas são essas. E isso eu compreendo, porque o Rock In Rio não tem uma causa única, desde sempre nos dedicámos a abraçar causas que, nesse [dado] momento, nos pareciam as melhores.

Nas duas primeiras edições apoiámos as crianças carenciadas, em 2006 já começámos a olhar para as alterações climáticas, compensação das emissões de CO2…

Actualmente já compensam 100% das emissões de CO2.

Sim, em todas as nossas edições no Brasil, Espanha e Portugal. Mas, como dizia, em 2006 fomos impactados pelo tema das alterações climáticas, e de lá para cá fomos aprendendo muito, por exemplo com a E.Value, que é a empresa que nos oriente neste tema.

Entendemos que compensar as emissões de CO2 é bom, mas melhor ainda é reduzi-las. Já fazemos planos de redução de emissões para o ambiente, promovemos concursos internos para incentivar patrocinadores e fornecedores a terem atitudes mais sustentáveis.

Em 2010 demos um passo mais à frente com a ampliação do nosso plano de sustentabilidade, que passou a ser trabalhado de forma mais transversal. Para nós a sustentabilidade não é só ambiente, é um maior equilíbrio e uma sociedade mais harmoniosa – ou seja, é aquilo que sempre procurámos nestes dez anos de projecto Por Um Mundo Melhor, que comemoramos este ano.

De 2008 a 2010 demos um grande passo em frente no tema da sustentabilidade e criámos mesmo um prémio, o Rock In Rio Atitude Sustentável, para o qual convocámos grandes referências nesta área para serem júris. E valeu a pena, senti que as pessoas receberam o prémio com orgulho. É isto que nos dá força para continuar a fazer este movimento. Acreditamos que o maior contributo do Rock In Rio [para a sustentabilidade] é em comunicação, e não propriamente nos valores investidos. Há sempre um público impactado com as notícias, ou com o projecto Escola Solar, ou com os vencedores do Prémio Atitude Sustentável ou as que participam, dentro do recinto do Rock In Rio, com as brincadeiras da Sociedade Ponto Verde.

Portanto, na sua opinião, este investimento é positivo, ainda assim.

Sim, sim, completamente. Mas este projecto, é bom notar, não nasceu como uma estratégia de marketing ou comunicação, mas sim como uma motivação pessoal do Roberto [Medina, fundador do Rock In Rio e pai de Roberta Medina] há dez anos, com o Projecto Social.

Nas duas primeiras edições brasileiras, o Rock In Rio, enquanto modelo de negócio e impacto de marketing, foi um evento muito interessante. Mas o modelo financeiro não era suficientemente válido para correr o nível de risco que é fazer um evento destas dimensões.

Dez anos depois da segunda edição, o Rock In Rio não era, no Brasil, um produto comercial como em Portugal ou Espanha, onde vamos construindo a marca, ele era um ícone de uma geração. Uma geração que, hoje, vai reencontrar-se no Rock In Rio. Esta força da marca já era grande, mas queríamos fazer uma coisa maior: gostamos de desafios. Foi aí que surgiu o Rock In Rio Por Um Mundo Melhor, que surgiu numa época em que o marketing social não era ainda muito utilizado… apenas os bancos faziam algumas acções, mas não as contavam.

Na altura, pensámos que [era muito positivo] que cada vez mais mais empresas achassem que o Rock In Rio se beneficiava como parceiro social. Na altura, chegávamos a dizer: “Por favor copiem e façam igual”.

Porque a nossa mentalidade leva-nos a pensar que, se todas as empresas privadas tivessem esse compromisso mínimo de preocupação com a questões sócio-ambientais, viveríamos, de facto, num mundo melhor.

Há dez anos, a estratégia Por Um Mundo Melhor era muito baseada na inclusão social. Depois, viraram-se também para a parte ambiental…

Sim, mas agora é metade social e metade ambiental. Na verdade, hoje os conceitos confundem-se muito e para nós o importante é o Homem. Não dizemos que estamos a reduzir emissões, ou plantar árvores, pelo Planeta. Nós estamos a fazer isto porque o Homem precisa de sobreviver no Planeta.

O Rock In Rio 2011, que em Setembro se realiza no Brasil, vai promover também a área ambiental?

Sim. A palavra sustentabilidade está muito desgastada no Brasil, de tanto ser utilizada comercialmente. Por isso decidimos não utilizar a sustentabilidade como bandeira, vamos ficar com o nosso Por Um Mundo Melhor – e investir mais fortemente nas duas áreas. Vamos ter um movimento de educação através da música – para trabalhar directamente a parte social, com as escolas – e uma outra parte que são as coisas práticas dentro do evento, os nossos compromissos. São acção muito inovadoras e que fazem valer a pena, ao mercado, estar connosco. Queremos investir mais nas acções, na compensação de emissões, na reciclagem…

Mas não deixa de ser irónico que o País que viu nascer Jaime Lerner ainda esteja nesta fase de ver a sustentabilidade quase como uma moda, como uma estratégia comercial.

É isso. O que percebo, ao conversar com muitos executivos de uma geração acima da nossa [Roberta Medina fazia 33 anos no dia desta entrevista], é que eles ainda não sabem se a “tal” da sustentabilidade ainda é só uma moda ou é mesmo uma mudança de paradigma.

Alguma vez tiveram em conta, na escolha das bandas a tocar, critérios ambientais – bandas que utilizem menos energia ou grupos locais?

Não, porque se o evento não funcionar, o projecto social não existe. Quanto maior for o sucesso do festival, maior é o sucesso do projecto social. Nós fazemos várias pesquisas e o que o público quer ver, é aquilo que ele vai ver. Mas vamos fazendo pequenas acções, com os artistas, para tentar [mudar as mentalidades]. Mas neste mercado o que conta é o tamanho do cheque e as disponibilidades do artista. A verdade é que os próprios artistas, por vezes, ficam bastante interessados [na promoção do desenvolvimento sustentável], o problema é chegar até eles.

Como é feita a compensação da emissão de CO2 das bandas?
É tudo auditado. Fazemos a medição dos voos da banda, de onde elas vêm, o número de pessoas.

Há quem diga que, movimentando o Rock In Rio milhões de euros, poderia fazer algo mais pelo desenvolvimento sustentável.
Acho que quem diz isso também poderia fazer mais pelo desenvolvimento sustentável. Nós não precisávamos de fazer a mínima acção pela sustentabilidade, nada do que estamos a fazer há dez anos. Nestes últimos dez anos investimos cinco milhões de euros no nosso projecto social para o desenvolvimento sustentável, não só na luta contra as alterações climática como na inclusão social, por exemplo. Eu queria ouvir essas pessoas, frontalmente, para ver o que eles fazem em relação a um mundo melhor. Estou muito feliz com o que temos feito, e vamos continuar a fazer tudo o que podemos fazer sem prejudicar financeiramente o projecto.

Esses cinco milhões de euros, estamos a falar de…

Estamos a falar da edições de 2001, no Rio [de Janeiro], 2004, 2006, 2008 e 2010, em Lisboa, e 2008 e 2010, em Madrid.

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