Sustentabilidade e economia: é o futuro circular?

No âmbito da Conferência “Gestão Eficiente de Recursos no Contexto da Economia Circular”, organizada pelos Green Project Awards, falámos com Beatriz Luz, fundadora da Exchange4Change Brasil, uma consultora estratégica que visa impulsionar a economia circular no Brasil. Como pode a economia circular contribuir para um dia-a-dia mais “verde”? Que gestos podemos adoptar já hoje para um futuro mais sustentável? As respostas da mentora deste projecto de enorme sucesso no Brasil.

 

Criado em 2015, o seu projecto Exchange4Change Brasil está assente em três grandes princípios: conectividade, criatividade e circularidade. Como podemos usar estes conceitos no dia-a-dia? 

Conectando pessoas, criando valor, através do pensamento circular, a base da nossa metodologia de trabalho é o princípio dos 3Cs. Acreditamos que tanto na relação comercial como na nossa vida pessoal devemos ser éticos, prestativos e colaborativos. A circularidade no nosso dia-a-dia destaca-se nas nossas decisões e atitudes. Devemos dar prioridade a marcas que entregam valor ao consumidor e à sua cadeia, escolher produtos mais duráveis, com embalagens recicláveis, que fechem o ciclo dos seus resíduos. Além disso, entender que como consumidores somos um elo muito importante para encerrar o ciclo e minimizar os resíduos, evitando a sua geração e destinando-os adequadamente quando necessário.

O conceito de economia circular está cada vez mais presente na nossa vida. Que medidas podemos adoptar já hoje, nos nossos pequenos gestos, para potenciar uma vertente mais “verde” desta ideia? 

Na economia circular não existe expressões de mais ou menos verde, mais ou menos eficiente. Ser mais eficiente apenas retarda o processo de exaustão dos recursos naturais. Portanto, a Economia Circular provoca um novo olhar de desenvolvimento macroeconómico e uma nova cultura de compra e venda de produtos. Será que precisamos de comprar um carro ou uma bicicleta se podemos compartilhar? Devemos sempre ter uma garrafa reutilizável na bolsa e assim evitar o uso de garrafas descartáveis. Escolher e dar prioridade a marcas conscientes, pois são os consumidores que direcionam o mercado.

Veio ao Porto para participar na Conferência “Gestão Eficiente de Recursos no Contexto da Economia Circular”, organizada pelos Green Project Awards. Na sua opinião, pode o conceito de economia circular verde, implementado com sucesso no Brasil, ser estendido a outros países, por exemplo a Portugal? Por onde começar? 

Na nossa experiência percebemos que a transição para a Economia Circular acontece quando empresas e Governo têm a consciência de que um modelo económico mais restaurador e colaborativo irá gerar diferencial competitivo e benefício económico. Na Europa já existem políticas públicas e incentivos e este é o ponto onde o Brasil tem muito para aprender com Portugal. Brasil e Portugal têm escalas completamente diferentes e características especificas, mas a trajectória para a transição parece-me ser similar e baseada em 3 pilares: educação, implementação e demonstração. Além disso, o povo brasileiro é muito criativo, flexível e adaptável. Estas características permitem-nos experimentar o novo e adaptar as soluções à nossa realidade. E é esta a perspectiva do nosso trabalho. Começar por entender o cenário, as regulamentações locais pertinentes ao negócio, o que já está a ser feito que pode ser considerado dentro do contexto da Economia Circular e deste ponto estimular uma nova visão estratégica baseada nos 3 Rs da Economia Circular: reavaliar o processo produtivo, rever valores e redefinir produtos e consumo.

Uma economia circular de sucesso está intimamente ligada ao esforço que todos nós, enquanto sociedade, fazemos para viver uma vida mais sustentável. Neste contexto, qual o papel que os actores políticos e os grandes grupos económicos devem desempenhar?

A economia circular provoca uma mudança de mind set, uma nova cultura de produção e consumo que deve ser inicialmente impulsionada através de programas de incentivo do Governo e leis que regulamentem e transformem as práticas das grandes empresas. Não é mais possível colocar produtos no mercado que não sejam recicláveis ou que tenham uma segunda vida. Os resíduos são passivos da economia linear.  A Economia Circular provoca uma economia sem a geração de resíduos. Os grandes grupos económicos devem liderar a transformação e contribuir com a reeducação do mercado. Até porque, neste novo cenário macroeconómico de um mundo digitalizado, interconectado e globalizado, aquelas empresas que não se adaptarem à nova realidade podem ter o seu negócio ameaçado por pequenas empresas acabadas de entrar no negócio – com novas tecnologias e agilidade – que mudam completamente o mercado. Temos como exemplo a Uber que mudou o sector de mobilidade, sendo replicável globalmente, assim como o Airbnb que mudou o sector hoteleiro e é hoje a maior empresa de hospedagem sem ter um único activo.

As alterações climáticas, e os efeitos que estão a provocar no planeta, estão nos media todos os dias. Como pode a economia circular ajudar a minimizar estes impactos?

Um estudo da empresa holandesa Circle Economy mostrou que as metas assinadas por várias empresas durante a COP21 para controlar o aumento de temperatura não são suficientes para atingir o limite de 1,5oC. Entretanto, destacou que se conduzimos a economia global para os novos modelos de negócio da Economia Circular conseguiremos reduzir o gap, evitando o aumento da temperatura e minimizando os impactos ambientais. Sendo assim, o benefício ambiental não é mais o foco e sim a consequência de um modelo baseado em produtos mais duráveis, modulares, no uso de energia e produtos de base renovável e o uso optimizado dos recursos através do compartilhamento e desmaterialização. A Economia Circular não soluciona o problema, e sim, evita o problema.

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