The Wanderlust: Viajar pelo mundo com preocupações de sustentabilidade

Miriam Augusto é uma “viajante profissional” que há quatro anos decidiu criar uma agência de viagens sustentável.

Começou a viajar com apenas oito anos e, desde aí nunca mais parou. Nos mais de 30 países que visitou, já conversou com sobreviventes de guerra e deixou a sua pegada no deserto Mui Ne, no Vietname; já mergulhou na companhia de Mantas gigantes no Komodo, Indonésia, e já subiu até ao pico mais alto de Marrocos.

Em 2014, trocou o mestrado em medicina legal pelas viagens e transpôs os seus princípios para uma agência. Foi assim que nasceu a The Wanderlust, uma agência de viagens que oferece experiências de mochila às costas para grupos, em 17 destinos diferentes, e se rege por princípios de sustentabilidade e responsabilidade.

Estivemos à conversa com Miriam, agora que a The Wanderlust faz quatro anos, para saber mais sobre este projeto.

O que é uma agência de viagens regida por princípios de sustentabilidade?
O principal foco das viagens sustentáveis é gerir os recursos dos nossos destinos tendo em conta o seu impacto económico, social e ambiental atual e futuro, atendendo às necessidades dos visitantes, da indústria, do meio ambiente e das comunidades anfitriãs. Resumindo, as pessoas deverão ser capazes de satisfazer as suas necessidades e expectativas no presente, sem comprometer as gerações vindouras.

Desta forma, além de ser ecologicamente correto, proteger e respeitar as comunidades, cultura e tradições do nosso destino, é também um fator que torna a aventura mais autêntica, emocionante e mais culturalmente envolvente para quem a desfruta.

Na The Wanderlust, é basicamente esta a filosofia que seguimos na preparação das nossas viagens e na gestão/orientação das mesmas no terreno.

A componente humana é, a nosso ver, um dos grandes fatores de distinção da The Wanderlust.

Como surgiu a ideia de criar uma agência de viagens assim?
A criação da The Wanderlust partiu da sugestão de um colega que viu os meus planos de viagem superorganizados, em folhas de Excel. Uma vez que preparava cada aventura ao detalhe, perguntou porque não começava a levar pessoas comigo. No início fiquei um pouco cética, porque viajo de mochila às costas – os chamados backpackers – e nós não recorremos a agências de viagem, nem viajamos em grupo. Uma vez aceite o desafio para a criação da agência, além de o conceito de viagem ter de ir ao encontro do meu perfil de viajante, também tinha de ter os meus valores. Sempre foi uma preocupação em viagem, sempre valorizei muito os meus destinos e isso tinha de estar presente nas experiências que iria proporcionar aos outros.

As vossas viagens distinguem-se como?
Cada uma das aventuras é cuidadosamente concebida por um dos nossos líderes de viagem, de forma responsável e sustentável, garantindo que os destinos são explorados de forma surpreendente, proporcionando uma experiência inesquecível e autêntica.

Viajamos em pequenos grupos, o que dá ao viajante a sensação de estar a descobrir um destino de forma independente, mas ao mesmo tempo com uma boa energia social, possibilitando flexibilidade ao longo de todo o percurso e uma maior ligação entre as pessoas. Recorremos a transportes locais permitindo uma deslocação mais genuína e contribuindo para o desenvolvimento da economia local. Também recorremos a alojamento local de modo a experienciar locais inesquecíveis, comunidades acolhedoras e moradores afáveis, enquanto proporcionamos um boostna economia local.

Esta componente humana é, a nosso ver, um dos grandes fatores de distinção da The Wanderlust. Em grande parte, é a esta componente que se deve a satisfação dos nossos viajantes, e o facto de eles voltarem a viajar connosco.

 

A ideia tem sido bem acolhida? Houve resistência por parte dos clientes a este modo de viajar?
Fico satisfeita por poder dizer que grande parte dos viajantes que nos procuram já têm essa consciência e que efetivamente valorizam o facto de nós termos essa preocupação. Claro que é sempre importante haver alguma educação do viajante da nossa parte, e isso é algo que fazemos sempre. Todos os nossos Manuais de Viajante, e até mesmo o nosso website, têm dicas de como ser um viajante responsável e sustentável.

 

 

É um desafio fazer com que os vossos clientes respeitem o ambiente dos locais que visitam? Ou notam que quem vos procura já está mais sensibilizado para estas questões?
Como disse anteriormente, grande parte dos viajantes já estão sensibilizados para essas questões. Mas quando é necessário intervir são extremamente compreensivos. Às vezes o problema é mesmo a falta de informação e assim que a mesma lhes chega, a atitude muda. Há muita coisa que desconhecem. Dou como exemplo o turismo de animais selvagens. Embora se fale cada vez mais nisso, muitos viajantes têm, por exemplo, aquela “ideia romântica” de fazer um passeio de elefante, mas têm-na porque são completamente ignorantes relativamente a todo o processo por que o elefante passa para eles poderem ter alguns minutos de diversão. Quando lhes damos a conhecer a realidade, tudo o que está por trás disso, a postura muda e deixam de querer compactuar com esse tipo de exploração. Que é mesmo o termo, exploração.

 

Na vossa senda pela compreensão intercultural, como é que isto se realiza na prática? Ajudam os clientes a aprender sobre a cultura que visitam? Ou as pessoas já vêm preparadas de antemão?
Antes da viagem em si, entramos sempre em contacto com os nossos viajantes para começarmos a preparar a viagem juntos. É-lhes passada alguma informação de como se devem comportar no local de destino, as regras de etiqueta. Já no terreno, também lhes vamos passando informação e o facto de lhes proporcionarmos um convívio próximo com os locais (ficam, muitas vezes, alojados em casa dos mesmos) também os ajuda a compreender melhor a cultura que estão a experienciar. Posso dizer que estas são as grandes experiências transformacionais, quando somos confrontados com realidades completamente diferentes das nossas, com problemas muito maiores que os nossos (os chamados, muitos deles, problemas de primeiro mundo) e que são encarados com sorrisos. São os mundos simples e humildes que tornam o nosso mundo maior e o viajante que parte connosco, muitas vezes não é o mesmo que volta.

estas são grandes experiências transformacionais, quando somos confrontados com realidades completamente diferentes das nossas, com problemas muito maiores que os nossos

Como surgiu a ideia de criar o Wander for Good, o vosso projeto filantrópico? Como está a correr?
Para mim não fazia sentido ir só ver os destinos. Era importante envolvermo-nos ativamente com os mesmos. Nós trazemos tanto connosco, porque não deixar algo para trás também que, de alguma forma, contribua para a sua melhoria, agora e no futuro?

Nesse sentido, surgiu este projeto que tem por objetivo apoiar projetos locais a nível ambiental, social ou cultural. Sempre que possível envolvemos os nossos viajantes em algum tipo de projeto. Pode passar por uma manhã ou tarde de voluntariado, dar a conhecer uma comunidade para a qual os viajantes podem contribuir com donativos, participar numa atividade cujo valor pago contribua para a implementação de um projeto específico ou até mesmo doar parte do nosso lucro a um projeto ou causa em particular.

Tudo isto é muito gratificante para nós e extremamente enriquecedor para os viajantes, dado que os aproximamos da população local, tornando a experiência em si, mais rica.

A indústria da aviação é uma das maiores poluidoras a nível mundial. Ao proporcionar viagens internacionais de avião, não estão a contribuir para este problema? Como é que se resolve esta questão?
É um facto e é uma das razões que nos levam a evitar esse tipo de transporte nos nossos itinerários. Sempre que possível fazemos tudo por terra, reduzindo a nossa pegada de carbono. No entanto, há situações em que não é de todo viável deslocarmo-nos de outra forma, num espaço de tempo razoável. Ao mesmo tempo, já há várias transportadoras aéreas que dão a possibilidade ao viajante de reduzir a pegada de carbono nas suas viagens, comprando compensações de carbono. É algo que embora não resolva o problema, ajuda a atenuar e é um gesto no sentido de diminuir o impacto no planeta.

 

Que balanço faz destes quatro anos de atividade da The Wanderlust?
Extremamente positivo, não só do ponto de vista de negócio, mas também pessoal. Vêem-se paisagens maravilhosas, têm-se experiências incríveis, conhecem-se pessoais lindas e é muito gratificante poder partilhar tudo isto com os outros, criando algo maior, que nos ultrapassa enquanto seres individuais. Não podemos estar aqui só por nós, mas sim uns pelos outros, e a The Wanderlust tem sido isso, nestes anos – partilha. É extremamente gratificante chegar ao final de uma viagem e ouvir palavras graciosas por parte dos nossos viajantes. Saber que os marcámos para o resto da vida. Isto enche o coração a toda a equipa. Claro que nem tudo é um mar de rosas, há momentos, por vezes, menos bons, mas todos eles servem para aprender algo e contribuir para o crescimento que todos os anos temos. Estou extremamente satisfeita e grata por tudo.

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