WWF: Áreas de pastagem devem ganhar importância no combate às alterações climáticas

Em Portugal, 31% do território são pastagens, a que importa dar maior importância no âmbito do combate às alterações climáticas, defende a Associação Natureza Portugal (ANP), a propósito da publicação de um novo atlas sobre uso do solo.

O Rangelands Atlas, hoje tornado público pela organização ambientalista internacional Fundo Mundial para a Natureza (WWF), de que a ANP é representante em Portugal, indica que mais de metade da superfície terrestre são pastagens e, em Portugal, estas áreas correspondem a 31% do uso do solo, o equivalente a cerca de 2,8 milhões de hectares de pastagens e mato, segundo o Inventário Florestal Nacional de 2015, diz a ANP/WWF, em comunicado.

Segundo a mesma organização ambiental, dados do Instituto Nacional de Estatística de 2019 mostram que 52% das terras agrícolas correspondiam a pastagens permanentes, verificando-se um aumento de 14,9% de pastagens permanentes na última década em Portugal.

A ANP/WWF sublinhou, na mesma nota, que a importância destas áreas tem sido muito debatida, “mas pouco relevada nos principais planos nacionais”.

“As pastagens e matos são chave na transição climática pela sua capacidade de armazenamento de carbono e de proteção da floresta contra incêndios pelas descontinuidades que criam, pelo que devem ter um lugar chave nas políticas de transformação da paisagem e no desenvolvimento socioeconómico dos espaços rurais, através do apoio ao pastoreio extensivo e da valorização económica dos serviços que estes prestam”, preconiza o técnico de alimentação da ANP/WWF, Tiago Luís.

No comunicado, a organização não-governamental (ONG) salienta que no Plano Nacional Energia e Clima (PNEC 2030) é referida a importância da “conversão de pastagens pobres em pastagens biodiversas” e no Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 “não há referência a pastagens, ignorando a sua importância no combate às alterações climáticas, para a natureza e as pessoas”.

A ANP/WWF mencionou ainda o Plano Estratégico de Portugal no âmbito da Política Agrícola Comum europeia, atualmente em elaboração, defendendo que “deveria acautelar vinculativamente a proteção destes ecossistemas”.

“Embora as pastagens sejam conhecidas por desempenhar um papel fundamental no sequestro (armazenamento) de carbono, oferecendo habitat a uma diversa vida selvagem e natureza, e suportando os maiores rios e zonas húmidas do mundo, estão presentemente ameaçadas pelo aumento da conversão e pelos efeitos drásticos das alterações climáticas”, alertou a ONG portuguesa.

Segundo a ANP/WWF, parte da razão pela qual as pastagens “foram subvalorizadas” era a falta de dados concretos sobre sua extensão e valor, mas frisou que o “Rangelands Atlas vem preencher parte desse vazio”.

O novo atlas é visto como um ponto de partida para a recolha de dados mais detalhados sobre os serviços de ecossistemas exatos e os benefícios económicos e sociais que as pastagens proporcionam às pessoas e à natureza.

A ANP/WWF refere que estes dados, em constante atualização, podem ser uma boa ferramenta para os legisladores e decisores políticos melhorarem a gestão das pastagens e trazerem benefícios para os pastores, as comunidades e os empresários locais, a natureza e o clima.

“Pela primeira vez, temos uma compreensão precisa da composição da terra do nosso planeta. Até hoje, os esforços de conservação e desenvolvimento têm-se concentrado nas florestas. Agora, sabemos que as pastagens precisam urgentemente de crescente atenção”, afirmou a diretora-geral assistente do International Livestock Research Institute (ILRI), Shirley Tarawali, citada na referida nota.

As associações ambientalistas acentuaram ser uma oportunidade para enfrentar as crises climática e de biodiversidade.

Embora 54% da superfície terrestre seja composta por pastagens, “apenas 10% dos planos climáticos nacionais (como parte do Acordo de Paris) incluem referências a pastagens, contrapondo com 70% que referem as florestas”, comparam as ONG, no mesmo comunicado.

Se 12% das pastagens mundiais estão designadas como áreas protegidas, “grande parte das restantes está ameaçada por uma conversão crescente, particularmente para áreas cultiváveis”. De acordo com o mesmo documento, “nos últimos três séculos, mais de 60% das terras selvagens e bosques foram convertidas”.

“Esta mudança no uso da terra contribui para a crise climática, mas o atlas mostra que as pastagens também sofrerão com o aquecimento global. Prevê-se que os efeitos drásticos ocorram numa área equivalente ao dobro da Europa, destabilizando perigosamente a natureza e reduzindo a capacidade de produzir alimentos, combustível e fibras”, adverte a ANP/WWF.

Segundo Shirley Tarawali, que é também presidente da agência das Nações Unidas Food and Agriculture Organization (FAO) “se quisermos ter alguma esperança de alcançar os objetivos climáticos, alimentares e da natureza, a gestão e o uso das pastagens devem ser tratados a alto nível, as pastagens devem receber a devida atenção nas próximas conferências da Organização das Nações Unidas sobre a biodiversidade, clima, terra e alimentação”.



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