Jardins botânicos devem ter um papel mais relevante no combate à perda de biodiversidade

O conhecimento que os jardins botânicos do mundo têm sobre as plantas não está a ser devidamente aproveitado pelos esforços de mitigação das alterações climáticas e de conservação da biodiversidade, alertam cientistas.

Filipe Pimentel Rações

O conhecimento que os jardins botânicos do mundo têm sobre as plantas não está a ser devidamente aproveitado pelos esforços de mitigação das alterações climáticas e de conservação da biodiversidade.

O alerta é feito por um grupo de dezenas investigadores de vários países num artigo publicado este mês na revista ‘Nature Plants’. Nele, os autores apontam para a existência de uma “manta de retalhos” de sistemas de dados incompatíveis uns com os outros que, no final de contas, acabam por pôr em causa o avanço do conhecimento científico e a conservação a nível global, especialmente num momento que descrevem como “crítico”.

O grupo, que à cabeça tem Samuel Brockington, curador do Jardim Botânico da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, pede a criação de um sistema global “unificado e equitativo” de dados sobre coleções de plantas vivas que permitam aos jardins botânicos gerir e partilhar informação da melhor forma.

Com esse sistema e o acesso a toda essa informação, argumentam os autores, os jardins botânicos podem trabalhar em conjunto e fortalecer a investigação científica sobre o mundo vegetal e sua conservação, especialmente numa Terra em acelerada transformação.

Por todo o planeta, as alterações climáticas, as espécies invasoras, a perda de habitat e o crescente movimento global de plantas estão a acelerar, pelo que, dizem estes cientistas, é preciso haver um sistema a partir do qual se possa aceder a toda a informação disponível, de alta qualidade e confiável sobre as espécies de plantas que vivem hoje na Terra.

Para isso, é preciso que haja “uma cultura partilhada de dados abertos, preciso e acessíveis” e o reforço da participação equitativa de entidades, investigadores e técnicos do Sul Global, onde residente grande parte da biodiversidade do mundo.

“Criámos uma extraordinária rede global de coleções de plantas vivas, mas estamos a tentar fazer conservação do século XXI com sistemas de dados que estão fragmentados, que são frágeis e, em muitos casos, inacessíveis a cientistas e conservacionistas que trabalham onde origina a maior parte da biodiversidade”, salienta Brockington.

“Precisamos urgentemente de um sistema de dados partilhado para que as pessoas que gerem coleções possam trabalhar em conjunto como um todo coordenado”, acrescenta.

Por seu lado, Thaís Hidalgo de Almeida, curadora de coleções vivas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e que também assina este artigo, aponta que esse sistema “ajudar-nos-ia muito a responder a necessidades de conservação urgentes em países ricos em biodiversidade como o Brasil, tornando o nosso trabalho mais rápido, mais colaborativo e mais eficaz”.

Num planeta em crise, a conservação da biodiversidade e dos ecossistemas e o seu restauro dependem cada vez mais de coleções de plantas vivas dos jardins botânicos. Contudo, muitas coleções ainda não têm registos digitais e, quando os têm, podem estar armazenados em sistemas que não comunicam com sistemas de outras instituições no resto do mundo.

Dessa forma, informação fundamental sobre espécies ameaçadas, resiliência climática, origem e estatuto legal não é partilhada entre instituições, aquém ou além-fronteiras.

Atualmente, estima-se que, pelo menos, 105.634 espécies de plantas, que representam cerca de um terço de todos as espécies de plantas conhecidas a nível global, são cultivadas nos 3.500 jardins botânicos de todo o mundo. Como tal, dizem os autores deste trabalho que, uma vez que 40% da diversidade mundial de plantas enfrenta um elevado risco de extinção, a coleções vivas dos jardins botânicos são “uma rede de segurança crítica” para tentar impedir que desapareçam para sempre.

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