Por: Fernando Amaral, Chairman, Sendys Group
Há várias décadas a liderar operações tecnológicas em muitos países de vários continentes, tenho tido o privilégio (e a responsabilidade!) de observar de perto a tecnologia a moldar colossos, como economias, serviços públicos ou cadeias logísticas globais. Noto, agora e cada vez mais, a tecnologia a moldar o próprio equilíbrio ambiental. Para mim, hoje, quando todos falam de IA, a conclusão é clara: em 2026, sustentabilidade não será um mero extra que fica bem e serve de greenwashing, nem um capítulo de um relatório anual de contas no mais exclusivo papel couché. Será parte integrante e diferencial do stack tecnológico e, por isso, da estratégia de negócio.
Os tempos que vivemos são implacáveis e uma coisa é certa: 2026 não recompensará os cautelosos. Durante demasiado tempo, o setor tecnológico falou de sustentabilidade, como se fosse um tema de compliance ou reputação. Algo importante, sim, mas periférico face à inovação. Essa visão está ultrapassada. Hoje, quem desenha software, plataformas cloud, sistemas de dados ou soluções de IA, influencia diretamente a equação do carbono. E essa equação passou a ser, inevitavelmente, uma equação económica.
Na Europa, esta realidade é já tangível. Reguladores, investidores e clientes exigem métricas ambientais com o mesmo rigor com que exigem indicadores financeiros. Nos PALOP, o contexto é diferente, mas não menos exigente: crescimento acelerado, infraestruturas críticas, pressão sobre recursos naturais e uma oportunidade única de saltar etapas, adotando modelos digitais mais eficientes, resilientes e sustentáveis. A tecnologia portuguesa, pela sua proximidade cultural e histórica, tem aqui um papel estratégico a desempenhar.
A grande mudança, está em tratar a sustentabilidade como um produto. Tal como ninguém aceita hoje um software instável ou inseguro, muito em breve, ninguém aceitará uma solução que ignore o impacto ambiental. Plataformas que medem e ajudam a reduzir emissões, sistemas desenhados para funcionar com energia volátil, software preparado para contextos de escassez… Enfim, tudo isto deixará de ser diferenciador para passar a ser requisito mínimo.
Mas não basta otimizar processos. A obsessão com a eficiência, embora necessária, é insuficiente. O verdadeiro desafio é criar valor regenerativo: tecnologia que ajude clientes a descarbonizar operações, a gerir melhor recursos escassos, a tomar decisões mais inteligentes num contexto de incerteza climática e geopolítica. Isto, exige repensar modelos de negócio, prioridades de investimento e até o propósito das organizações.
Outro ponto crítico, é a adaptabilidade. Vivemos tempos nos quais cadeias de fornecimento são interrompidas, a energia deixa de ser previsível e fenómenos extremos afetam operações de um momento para o outro. Empresas rígidas, assentes em pressupostos de abundância, ficarão para trás. As que sobrevivem e prosperam, são as capazes de mudar rapidamente, com arquiteturas tecnológicas flexíveis e decisões orientadas por dados, não por nostalgia.
Não se trata de ativismo. Trata-se de liderança de mercado. Existe hoje capital, talento e procura suficientes para apoiar empresas que integrem sustentabilidade no centro da sua proposta de valor. Esperar por consenso, ou pelo amadurecimento do mercado, é abdicar do futuro.
Como dizia no início deste texto, 2026 será um ponto de viragem. As empresas que assumirem este desafio com ambição, pragmatismo e coragem, não só reduzirão riscos operacionais e regulatórios, como ganharão vantagem competitiva duradoura. As outras, descobrirão tarde demais que a sustentabilidade não era um custo, mas sim a base sobre a qual o próximo ciclo de crescimento seria construído.
Ou, se preferirem, o mote de atuação de hoje é o que estava escrito num muro de um clube de futebol da minha infância: Audaces Fortuna Juvat (a sorte protege os audazes). Só anos depois soube o seu significado e que era um trecho da Eneida, de Virgílio, mas que aqui encaixa como uma luva. Ter visão, ser audaz e partir na frente. Um dia, outros, dirão que o sucesso foi sorte.









