Os traficantes de vida selvagem estão a explorar o sistema financeiro global para esconderem os seus lucros “à vista de todos”, avisam especialistas.
Num conjunto de eventos online promovidos em dezembro pela organização não-governamental Traffic e pelo centro de investigação anti-branqueamento da Universidade de Fudan, na China, as redes criminosas direcionadas para a vida selvagem não estão a operar nas sombras, mas sim a usar estruturas legais para fazerem movimentar os seus produtos e lucros ilícitos pelo mundo.
Os traficantes usam empresas, rotas comerciais e contas bancárias legítimas para movimentarem e branquearem milhares de milhões resultantes do tráfico de madeiras, marfim e animais vivos.
Em comunicado, a Traffic diz que os especialistas apelaram às instituições financeiras e aos reguladores para tratarem o tráfico de vida selvagem como “um crime financeiro grave” e para seguirem o rasto do dinheiro de forma a poderem apanhar as pessoas responsáveis por essa atividade criminosa.
“Os crimes contra a vida selvagem são crimes financeiros”, declara Xu Ling, diretora da divisão chinesa da Traffic.
“Ao seguir o rasto do dinheiro e ao reforçar a cooperação entre setores, podemos fazer com que seja muito mais difícil que os traficantes se escondam no sistema financeiro”, salienta.
Os especialistas deixam algumas recomendações para se poder apertar o cerco às organizações e redes que têm no tráfico de vida selvagem uma das suas fontes de lucros ilícitos.
Como os traficantes movimentam os seus produtos pelos mesmos canais legais – rotas comerciais, plataformas online e sistemas de pagamento, por exemplo – que são usados por empresas que operam dentro da lei, madeiras ilegais, animais vivos e produtos do tráfico podem estar a circular por cadeias de abastecimento legítimas ou a ser comercializados através de empresas aparentemente legais. Dessa forma, os lucros ilícitos mantêm-se escondidos, à vista de todos.
Os especialistas sugerem que quanto mais informação as autoridades e reguladores tiverem sobre fluxos financeiros, sobre quem detém a propriedade de uma empresa e sobre os movimentos comerciais, mais facilmente conseguirão identificar ilegalidades e os cabecilhas das organizações criminosas.
Comparar números de exportações e importações entre países, monitorizar padrões comerciais invulgares e analisar discrepâncias pode permitir detetar rapidamente situações de potencial branqueamento de capitais e de fraude associados a crimes contra a vida selvagem, dizem os participantes nos eventos online da Traffic no passado mês de dezembro.
Além disso, a partilha de informações entre bancos, plataformas de pagamento, autoridades alfandegárias, polícia e grupos de conservação é fundamental para ter uma imagem mais ampla do que está a acontecer e detetar antecipadamente situações de tráfico.









