Diz a sabedoria popular que o cão é o melhor amigo dos humanos. Se, depois, correspondemos a essa dedicação é outro assunto, mas facto é que a relação entre as duas espécies tem muitos milhares de anos. Tudo terá começado quando humanos e lobos, algures há 300 mil anos, criaram laços de proximidade, partilharam as mesmas presas e coabitaram nos mesmos espaços.
Essa relação eventualmente deu origem a uma ramificação dos lobos, com alguns autores a sugerirem que isso terá tido início há cerca de 135 mil anos, com animais semelhantes aos cães modernos a surgirem há 15.000 ou 10.000 anos. Apesar das incertezas que persistem, parece ser consensual que os cães, ou descendentes dos lobos a caminho dessa espécie, foram os primeiros animais a serem domesticados pelos humanos, muito antes de termos aprendido a domesticar e a controlar os ungulados que viriam a dar origem ao que conhecemos agora como o gado.
“Ao longo de milénios, os companheiros mais constantes dos humanos têm sido os cães”, escreve a antropóloga Pat Shipman, no seu livro “Our Oldest Companions” (ou “Os nossos companheiros mais antigos”, numa tradução livre).
Com o advento da pastorícia, e da pecuária de forma mais ampla, os cães passaram a desempenhar um papel fundamental na proteção do gado contra predadores, entre eles os seus antepassados selvagens, os lobos, bem como contra outras ameaças, como ladrões humanos. Alguns investigadores dizem que a referência mais antiga ao uso de cães de proteção de gado (CPG) foi assinalada por Aristóteles há aproximadamente 2.300 anos, embora haja quem defenda que os CPG sugiram há perto de 6.000 anos, depois de as cabras e as ovelhas terem sido domesticadas um ou dois milénios antes disso.

Atualmente, os CPG surgem em vários discursos, materiais e políticas como sendo centrais na conservação de espécies selvagens de predadores um pouco por todo o mundo, incluindo aqui em Portugal no contexto da conservação do lobo-ibérico. Os defensores do uso de CPG nesses contextos dizem que esses canídeos ajudam a manter os predadores longe de ovelhas, cabras, vacas, cavalos e burros ao dissuadirem os predadores de atacarem ou ao afugentá-los ativamente. Assim, reduzindo o número de ataques e de perdas de gado, reduz-se o conflito e consegue-se uma coexistência mais pacífica, ou pelo menos é esse o argumento e, claro, a esperança.
Mas onde surgiram os CPG, animais corpulentos e fortes treinados para verem no gado a sua família e para protegerem-na com determinação e lealdade? Um grupo de cientistas, liderado pelo Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO), descobriu a origem dos CPG modernos na Eurásia e os resultados revelam duas linhagens antigas que persistem.
“Uma história evolutiva muito mais complexa”
Quando se lançou na sua tese de doutoramento, Diogo Coutinho Lima tinha como um dos seus objetivos iniciais identificar um antepassado comum a todas as raças de CPG, ou, pelo menos, saber em que região do mundo teriam esses animais surgido.
Contudo, como nos conta, “os nossos resultados revelam uma história evolutiva muito mais complexa do que aquela que os dados atualmente disponíveis nos permitem resolver”. Ou seja, com o que se sabe hoje não é ainda possível perceber se há, de facto, um único antepassado comum a todas as raças de CPG.
Ainda assim, o trabalho liderado por Diogo Coutinho Lima e por Raquel Godinho, também ela do CIBIO, e que foi publicado em agosto de 2024 na revista ‘iScience’, permitiu identificar duas linhagens distintas de CPG: uma com origem na Europa e Ásia ocidental e outra na Ásia oriental. Há milénios que uma e outra seguem caminhos evolutivos separados, o que sugere uma “origem dupla” dos CPG.
A equipa analisou o ADN de 36 raças contemporâneas de CPG (estima-se que existam cerca de 40 ou mais em todo o mundo), incluindo as quatro portuguesas: Cão de Gado Transmontano, Cão da Serra da Estrela, Rafeiro do Alentejo e Cão de Castro Laboreiro. O objetivo era, através da análise de marcadores genéticos específicos que se encontram distribuídos pelo genoma dos cães, “reconstruir relações evolutivas entre raças” de CPG, detalha o cientista português, para perceber “o grau de parentesco” entre elas.
Com base nos dados obtidos, identificou-se uma linhagem que atualmente se estende do Cazaquistão até Portugal e uma outra, geograficamente mais restrita, que hoje está presente essencialmente na Mongólia, na Índia e na China.
“Embora exista uma região na Ásia Central onde estas duas linhagens entram em contacto”, diz-nos Diogo Coutinho Lima, “os dados genéticos indicam que terão evoluído de forma largamente independente durante a maior parte da sua história”.
Essa dupla origem dos CPG modernos pode ser entendida como uma “resposta a necessidades humanas semelhantes em regiões distintas do mundo”, refere o investigador. Por isso, e à semelhança do que acontece com espécies de animais que vivem a grandes distâncias umas das outras mas que desenvolvem capacidades ou comportamentos muito parecidos, Diogo Coutinho Lima salienta que é muito provável que esse seja “um caso de evolução convergente, em que práticas semelhantes levaram ao surgimento de tipos de cães funcionalmente semelhantes, mas geneticamente distintos”.
Será importante notar que quando se fala de antepassados os cientistas não se referem a um único indivíduo, a um cão isolado que terá sido o “pai” de todas as raças de CPG. Ao invés, essa ancestralidade é percebida ao nível de um conjunto de indivíduos geneticamente semelhantes a partir dos quais terão surgido as populações atuais.
“A evolução ocorre sempre ao nível das populações e não de indivíduos isolados”, esclarece-nos Diogo Coutinho Lima.
Seleção humana, sim, mas não só
Podemos pensar que as raças de CPG são o resultado exclusivo da pressão humana, que, ao longo de milénios, foi selecionando os cães com os traços considerados mais indicados para a tarefa de proteger o gado. No entanto, essa é apenas parte da história.
Práticas culturais humanas, tais como a transumância, que envolviam deslocações, ditadas pelas estações do ano, de pessoas, de gado e de cães por longas distâncias, durante as quais a vida ia acontecendo pelo caminho, “facilitaram o cruzamento entre cães de diferentes regiões”, conta Diogo Coutinho Lima. Por isso é que, ainda hoje, se conseguem detetar “semelhanças genéticas entre raças geograficamente distantes, como algumas raças italianas e dos Balcãs”.

Além da seleção humana, os CPG surgem de uma combinação de outros processos, como a seleção natural, que dá primazia aos cães com características que os ajudem a sobreviver em ambientes muitas vezes adversos, o cruzamento com cães errantes que andam pelos mesmo locais que os CPG e até o cruzamento com outros tipos de cães com outras funções.
“Trata-se, portanto, de uma história evolutiva bastante complexa”, declara o investigador.
Um exemplo, entre muitos outros, é o Mastim do Tibete, “que apresenta adaptações genéticas associadas à subsistência em grandes altitudes nos Himalaias”, explica.
O estudo das origens dos CPG revela que a evolução desses cães vai além da aparência e da docilidade, preferências que predominam nas sociedades atuais, mas, sobretudo, foi orientada para a execução de tarefas específicas em benefício dos humanos. Por isso, “ao contrário do que vemos hoje em dia, a seleção humana sobre os cães no passado terá sido muito mais comportamental do que estética”, refere Diogo Coutinho Lima.
Mas o que podemos aprender com essa história vai muito para além disso, pois permite-nos espreitar sob o véu para um conto de evolução em conjunto entre duas espécies muito diferentes. Tendo sido os primeiros animais a serem domesticados, os cães, na qualidade de guardiões dos modos de subsistência humanos, permitiram a expansão e o desenvolvimento da pecuária e a domesticação de outras espécies. Dessa forma, contribuíram para o avanço das sociedades humanas e também, talvez não tão indiretamente quanto se possa pensar, para a segurança económica e alimentar de muitas comunidades, no passado e também no presente.
Embora para já, com os dados que se tem, não seja possível saber exatamente a origem de todas as raças de cães de gado, o cientista do CIBIO afirma que se pode especular, ainda que por agora não possa passar disso, que esses cães tenham surgido depois de outas espécies de animais terem sido domesticadas, “provavelmente nas mesmas regiões onde práticas agrícolas e de pecuária desenvolveram inicialmente, como o Crescente Fértil, no Médio Oriente”.
Além disso, tudo indica que os CPG tenham surgido na Eurásia, não havendo quaisquer indícios de que possa ter surgido fora dessa região. “Os dados disponíveis apontam para sua origem e expansão dentro deste espaço geográfico, acompanhando migrações humanas”, diz Diogo Coutinho Lima.
Os CPG em tempos modernos
Usar CPG para proteger o gado de ameaças, tanto humanas como não-humanas, é uma prática milenar, mas em alguns lugares do mundo, incluindo em Portugal, foi-se perdendo, muito por causa do desaparecimento local dos predadores, especialmente os lobos. Sem predadores que possam atacar o gado, muitos criadores deixaram de ver razão para sustentar cães que, pelo seu tamanho, comem muito.
Com a proteção legal conferida nas últimas décadas aos predadores, que estavam a desaparecer de forma alarmante, na Europa e também em Portugal, no caso do lobo-ibérico sobretudo, começaram a ser promovidas soluções para tentar conseguir uma coexistência o menos negativa possível entre as atividades humanas e esses animais selvagens.
No cado do lobo, os CPG, a par da presença permanente de um pastor com o gado e do uso de vedações, recuperaram o seu protagonismo como peças-chave no mundo da pecuária, em particular da extensiva.

Assim, os CPG ressurgem como um aliado ancestral em tempos modernos e, tal como se ouve na esfera da conservação, continuam a ser “uma das medidas mais eficazes e sustentáveis para a proteção dos rebanhos contra predadores como o lobo”, diz Diogo Coutinho Lima.
O investigador português considera que desvendar a origem e a história evolutiva dos CPG “pode ajudar a tomar decisões mais informadas, nomeadamente na escolha das raças mais adequadas a determinados contextos ecológicos e tipos de gado”.
“Se isso se traduzirá num maior investimento por parte das autoridades competentes, é difícil prever”, confessa, “mas é encorajador ver projetos em Portugal, como os do Grupo Lobo ou da Rewilding Portugal, que continuam a promover o uso de cães de gado como estratégia complementar à conservação do Lobo Ibérico”.
Esta investigação revelou também uma outra dimensão curiosa. Sendo animais que, por causa da tarefa a que são destinados, foram sendo selecionados para terem traços muito particulares – corpos e cabeças grandes, comportamentos sociais e não predatórios para com o gado, protetores eficazes e determinados, grande capacidade de atenção – seria de esperar, tal como acontece com outras raças para outras finalidades, que o cruzamento com outros cães, com os rafeiros, fosse considerado algo muito negativo, que arriscava “polui” a genética dos CPG.
Mas os resultados deste trabalho mostram algo diferente. Explica-nos Diogo Coutinho Lima que as análises genéticas realizadas indicam que os CPG apresentam “sinais claros” de misturas genéticas com rafeiros. Para ele, “isto não é surpreendente, dado o contexto em que estes cães tradicionalmente vivem”, pelos montes e serras ou pelas aldeias, onde o contacto com outros cães é altamente provável.
O agravamento do abandono de animais de companhia, em especial de cães, tem vindo a ser entendido com um problema em crescendo, embora pouco de eficaz tenha vindo a ser feito para realmente tentar reverter a situação. Assim, quanto mais cães viverem sem tutores pelas ruas e pelos montes, maior a probabilidade de se encontrarem e cruzarem com CPG.
Contudo, o cientista assegura-nos de que esta mistura genética “não deve ser interpretada necessariamente com algo negativo”.
“Historicamente, os traços comportamentais e funcionais essenciais dos cães de gado foram mantidos sobretudo através da seleção humana baseada no desempenho, e não na pureza genética”, detalha, acrescentando que também não crê que a mistura entre rafeiros e CPG afete a capacidade de proteção desses últimos.
“O problema do abandono de cães levanta, ainda assim, desafios importantes”, reconhece o cientista do CIBIO, são apenas no que toca ao bem-estar animal e à conservação, “mas também no que diz respeito à gestão responsável destas populações” de animais.
Seja como for, assegura-nos Diogo Coutinho Lima que “garantir a continuidade das características funcionais dos CPG passa menos pela preservação de linhagens ‘puras’ e mais por práticas responsáveis de criação, maneio e seleção, adaptadas às realidades locais”.









