Resíduos do peixe podem ser nova fonte de lípidos saudáveis e sustentáveis

A descoberta foi feita por um grupo de investigadores liderado pela Universidade de Aveiro, que analisou dois subprodutos do processamento da pescada-do-cabo (Merluccius capensis): as aparas (cabeça e cauda, normalmente descartados) e restos resultantes do processo de corte e filetagem.

Green Savers Redação

Os resíduos gerados pela indústria do pescado — muitas vezes encarados apenas como desperdício — podem esconder um elevado valor nutricional, ambiental e económico.

A descoberta foi feita por um grupo de investigadores liderado pela Universidade de Aveiro (UA). Foram analisados dois subprodutos do processamento da pescada-do-cabo (Merluccius capensis): as aparas (cabeça e cauda, normalmente descartados) e restos resultantes do processo de corte e filetagem.

O estudo, publicado na revista ‘Applied Food Research’, revela que estes materiais são ricos em lípidos bioativos com potencial aplicação nas áreas alimentar, farmacêutica e cosmética.

Em comunicado, os cientistas explicam que foram usadas técnicas avançadas de análise química para caracterizar detalhadamente os lípidos presentes nestes subprodutos. Os resultados mostram que, embora ambos sejam fontes valiosas de compostos benéficos, apresentam perfis lipídicos distintos.

Os restos do peixe resultantes do corte e do processo de filetagem revelaram conter maiores quantidades de cinzas, proteínas e lípidos totais, bem como níveis mais elevados de certos ácidos gordos, como o ácido palmítico e o ácido oleico. Por outro lado, as aparas destacaram-se por uma maior abundância de fosfolípidos, em particular fosfatidilcolinas, que são moléculas essenciais para a estrutura das células e com múltiplas aplicações industriais.

Apesar destas diferenças, aponta o investigador João Monteiro, “ambos os subprodutos apresentaram quantidades semelhantes de fosfolípidos marinhos e de fosfolípidos ricos em ómega-3, incluindo EPA e DHA, conhecidos pelos seus benefícios para a saúde cardiovascular e cerebral”. O cientista refere ainda que “os extratos lipídicos de ambos demonstraram atividade anti-inflamatória significativa em ensaios laboratoriais”.

“A pescada-do-cabo é um caso de estudo, mas o conceito é muito mais amplo”, aponta o investigador. E acrescenta que “espécies marinhas com perfis lipídicos semelhantes, nomeadamente outros peixes magros ou semi-gordos ricos em ómega-3, produzem igualmente grandes volumes de subprodutos durante o processamento industrial”.

O estudo contou ainda com a colaboração da Escola Universitária Vasco da Gama, da Universidade de Perúgia (Itália), do Instituto Português do Mar e da Atmosfera e da Universidade do Porto.

Alternativa sustentável às lecitinas convencionais

A equipa de investigadores está convicta de que um dos aspetos mais promissores do estudo é o potencial destes lípidos marinhos como alternativa às lecitinas tradicionais, geralmente obtidas da soja ou do ovo.

As lecitinas, explica João Monteiro, “são amplamente utilizadas como emulsionantes e estabilizantes na indústria alimentar, mas existe uma procura crescente por ingredientes naturais, sustentáveis e com propriedades bioativas adicionais”.

Por isso, os fosfolípidos extraídos dos subprodutos da pescada poderão vir a ser utilizados no desenvolvimento de alimentos funcionais e suplementos nutricionais, respondendo às novas exigências dos consumidores e promovendo simultaneamente a valorização de recursos marinhos até agora pouco aproveitados.

Impacto económico e ambiental positivo

A valorização destes resíduos representa também uma oportunidade para tornar a indústria do pescado mais sustentável, argumentam os investigadores. Ao transformar subprodutos em matérias-primas de elevado valor acrescentado, lembra João Monteiro, “é possível reduzir o desperdício, aumentar a eficiência dos processos produtivos e promover uma economia circular no setor das pescas”.

Para além do setor alimentar, os compostos identificados poderão ser aplicados em produtos nutracêuticos, farmacêuticos e cosmecêuticos, graças às suas propriedades bioativas, nomeadamente anti-inflamatórias.

Os investigadores defendem que estudos futuros deverão centrar-se na otimização dos métodos de extração e purificação destes lípidos, de modo a maximizar a sua recuperação e explorar todo o seu potencial funcional.

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