Numa jazida de fósseis, perto de uma pequena localidade chamada Seadouro, no concelho de Vagos, Mário Miguel Mendes descobriu algo inesperado, um segredo muito bem guardado no coração da rocha que vem reescrever a história de umas plantas com flor que viveram há milhões de anos no que agora é Portugal.
O que o docente da Universidade Fernando Pessoa, e investigador do Centro de Investigação da Terra e do Espaço da Universidade de Coimbra (CITEUC), encontrou foram vestígios fossilizados de frutos de uma nova espécie de angiospérmica, ainda sem nome, que até agora não tinha sido identificada no país.
Através de observações feitas com microscópio eletrónico de varrimento, Mário Miguel Mendes não tem dúvidas de que os frutos pertencem ao género Endressianthus, da ordem Fagales.

Escala: A – 500 µm; B – 20 µm. Foto: Mário Miguel Mendes.
Na área do fruto onde esteve o estigma (região onde caem os grãos de pólen, que depois estendem tubos pelo estilete para levarem as células sexuais até ao ovário), foram observados pólenes de um grupo chamado Normapolles, que está frequentemente associado às plantas da ordem Fagales, pelo que, diz-nos o cientista, não há dúvidas quanto à classificação taxonómica.
Contudo, dúvidas há quanto à família (o degrau taxonómico entre o género e a ordem) a que pertence a nova espécie descoberta. Ainda assim, notam-se semelhanças com a família das Betuláceas, à qual pertencem espécies como a aveleira-comum ou aveleira-europeia (Corylus avellana) e a aveleira-turca (Corylus colurna).
Para saber ao certo a que família pertence a nova espécie encontrada em Vagos, no distrito de Aveiro, Mário Miguel Mendes irá ao Instituto Paul Scherrer, na Suíça, para usar uma técnica de imagem avançada, conhecida como microtomografia de raios-X por radiação de sincrotrão, para desvendar os mistérios que a nova espécie ainda não deu a conhecer.
Mas o facto de se tratar de uma nova espécie não é a única surpresa. O investigador conta-nos que plantas com flor do género Endressianthus já haviam sido encontradas em Portugal no registo fóssil datado do Período Cretácico Superior, mais especificamente entre o Campaniano e o Maastrichtiano, ou seja, entre há 83 milhões e 66 milhões de anos. Esses fósseis foram desenterrados nas localidades de Esgueira, em Aveiro, e de Mira, em Coimbra.
No entanto, os exemplares de frutos que estão agora a ser descritos por Mário Miguel Mendes, em colaboração com investigadores do Museu Nacional de Praga (República Checa), terão aproximadamente 87 milhões de anos, situando-os também no Cretácico Superior, mas, desta feita, no Coniaciano, ou seja, antes do Campaniano e do Maastrichtiano.
Com todos esses indícios, o investigador português está certo de que as angiospérmicas Endressianthus estavam já bem estabelecidas na flora portuguesa do Cretácico Superior milhões de anos antes do que se pensava.
Não só frutos, mas também flores
Além dos frutos, na jazida de Seadouro foram também identificadas algumas flores. Embora não apresentassem pólenes do grupo Normapolles no local onde foram encontradas, o investigador pensa que, pelas suas características morfológicas, enquadram-se “claramente” na ordem Fagales. Contudo, não se sabe ainda em que linhagem se encaixam dentro dessa ordem.
Olhando através do microscópio eletrónico de varrimento, Mário Miguel Mendes diz que o ovário da flor do exemplar recolhido está abaixo do perianto. É como se o órgão da flor onde germinarão os grãos de pólen estivesse protegido pela corola, o conjunto formado pelas pétalas, e pelo cálice, uma espécie de invólucro exterior da flor que é constituído por folhas modificadas chamadas sépalas e que é como se fosse a “base” da flor.
Mas nesta flor com cerca de 87 milhões de anos, também do Coniaciano superior de Portugal, pétalas e sépalas não se distinguem umas das outras, pelo que o cientista explica-nos que se trata de um perianto “claramente indiferenciado”.

Pelo que até agora conseguiu observar, Mário Miguel Mendes está quase certo de que esta flor, cuja família ainda não se conhece, tem dois carpelos que estão unidos na base. Os carpelos são os órgãos reprodutivos femininos de uma flor, compostos pelo ovário, pelo estilete e pelo estigma. Ao conjunto de mais do que um carpelo chama-se gineceu ou pistilo.
A zona do estigma desta flor, onde caem os grãos de pólen, está também envolvida em longos tricomas, estruturas semelhantes a pêlos microscópicos que ajudam a aprisionar os grãos, que depois estenderão “braços” para os ovários através do estilete. Todos esses traços são típicos de angiospérmicas Fagales e apontam para que esta flor seja mesmo parte dessa ordem vegetal.
Investigações anteriores tinham já mostrado que as Fagales eram comuns em ecossistemas áridos ou semiáridos do Cretácico Superior, e a descoberta agora feita em Aveiro aponta no mesmo sentido, pois os vestígios foram encontrados nos mesmos estratos onde estavam inúmeros fragmentos de frenelopsídeos, plantas do Cretácico e atualmente extintas que são associadas a ambientes secos.
Assim, o estudo de plantas antigas, mesmo com muitos milhões de anos, ajuda-nos não só a compreender melhor como era a vida nesses tempos distantes, mas também as condições ambientais que existiam em locais que hoje são radicalmente diferentes.









