A lula que faz um engodo com a sua própria pele



A auto-camuflagem é apenas um dos truques de uma espécie de lula recentemente descoberta que também está a ajudar na investigação de micróbios no estômago humano.

Em 2019, cientistas deram o nome a uma nova espécie, a lula de Brenner (Euprymna brenneri), depois de as terem encontrado enquanto mergulhavam à noite ao largo da ilha japonesa de Okinawa. “Quando se acende uma luz sobre elas, elas congelam”, disse Oleg Simakov da Universidade de Viena, ao “The Guardian”.

Segundo o jornal, embora possam ter sido fáceis para os cientistas de capturar à noite, durante o dia estas lulas adotam uma forma fascinante de camuflagem. Enterram-se no fundo do mar, e atiram grãos de areia sobre a cabeça e o corpo – enfiando-os no lugar com muco produzido pelas células na sua pele.

Se um predador de olhos atentos as espiar, têm ainda um outro truque no seu arsenal. Ao libertarem ácido da sua pele, libertam rapidamente o seu revestimento viscoso e arenoso, que depois fica na água como um chamariz, distraindo o atacante enquanto a lula foge. À noite, quando caçam, as lulas usam uma forma diferente de disfarce: camuflam-se contra a luz da lua, acendendo luzes fracas através da sua barriga.

Quando os cientistas trouxeram a lula viva de Okinawa para o laboratório, começaram a sequenciar o seu ADN. “Descobrimos que havia uma espécie que não coincidia com nenhuma outra anteriormente relatada”, explicou Gustavo Sanchez, do Instituto de Ciência e Tecnologia de Okinawa. Ao examinar mais de perto, esta nova lula também parece diferente das outras. As fêmeas aumentaram as ventosas nos seus braços, algo que anteriormente só se via nos machos.

A nova espécie recebeu o nome do Prémio Nobel, Prof. Sydney Brenner, com quem vários membros da equipa trabalharam antes da sua morte em 2019. Brenner estava especialmente interessado em cefalópodes, o grupo de invertebrados de grandes cérebros, incluindo lulas, polvos e chocos.

Em comparação com os polvos, que são agressivos e normalmente tentam comer-se uns aos outros, as lulas são muito mais pacíficas e mais fáceis de manter em cativeiro. Estudos de outras espécies de lulas e das suas bactérias simbióticas que brilham têm dado aos cientistas uma visão da relação entre os humanos e os micróbios nas nossas entranhas.

A lula de cauda de Brenner apareceu num estudo de 2021 que lança luz sobre a sua evolução. “A linhagem que corresponde a esta nova espécie pode ser claramente separada em dois grupos”, diz Sanchez. Um no Mar Mediterrâneo e Oceano Atlântico, o outro, incluindo a lula do Brenner, nos oceanos Índico e Pacífico, acrescentando que “estes têm diferentes raízes evolucionárias”.

 



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