‘Instinto assassino’ pode ter contribuído para a evolução dos predadores mamíferos em terra

Numa investigação liderada pela Universidade de Bristol, no Reino Unido, investigadores analisaram as mandíbulas dos precursores dos mamíferos, conhecidos como sinapsídeos, acreditando que perceber a evolução da sua anatomia ajudaria a desvendar os segredos da forma como se alimentavam.

Filipe Pimentel Rações

Durante 60 milhões de anos, mesmo antes de os primeiros dinossauros terem surgido em cena, os antepassados dos mamíferos dominavam o planeta.

Antes do início do Triásico, esses animais, que viriam a dar origem a muitos dos que hoje conhecemos, desde os mais pequenos roedores às grandes baleias, passando pelos humanos, ocupavam o topo das cadeias alimentares. À medida que os herbívoros se foram tornando maiores e mais velozes, os predadores tiveram de se adaptar, tornando-se ‘assassinos’ mais eficazes.

Numa investigação liderada pela Universidade de Bristol, no Reino Unido, investigadores analisaram as mandíbulas dos precursores dos mamíferos, conhecidos como sinapsídeos, acreditando que perceber a evolução da sua anatomia ajudaria a desvendar os segredos da forma como se alimentavam.

Suresh Singh, primeiro autor do artigo divulgado na ‘Communications Biology’, explica, em comunicado, que “os primeiros sinapsídeos predadores”, como o Dimetrodon, conhecido pela estrutura em forma de vela de barco no dorso, “tinham mandíbulas bastante longas com muitos dentes para assegurar que, quando apanhavam uma presa, ela não escaparia”.

Contudo, a análise revelou que há cerca de 270 milhões de anos, no Paleozoico, as mandíbulas começaram a mudar de forma, apresentando-se, nos registos fósseis, como mais curtas, mas mais poderosas, com menos dentes que tendiam a estar concentrados na parte frontal da mandíbula.

“Estas eram mandíbulas adaptadas para dar mordidas mais profundas e poderosas”, assinala o paleontólogo, que sugere que essa anatomia teria permitido ferir com mais eficiência e matar mais rapidamente as presas.

Predadores com grandes caninos em forma de sabre são alguns dos sinapsídeos carnívoros que evidenciam a nova forma de mandíbula. “Essa mudança mostra que os predadores estavam a sofrer novas pressões seletivas por parte das suas presas”, afirma Singh.

Inostrancevia, um dos predadores sinapsídeos do Paleozoico tardio, com o novo formato de mandíbulas e longos caninos em forma de sabre (espécime em exibição no Royal Ontario Museum, Canada).
Foto: Suresh A. Singh

Além de tornarem os mamíferos primordiais predadores mais mortíferos, a transformação mandibular levou a uma transformação do próprio crânio dos animais, o que, segundo Armin Elsler, outro dos autores, possibilitou a evolução “do ouvido complexo que encontramos nos mamíferos”.

Para Michael Benton, que também assina o artigo, as mudanças nas mandíbulas dos primeiros mamíferos terrestres, datadas do fim do Paleozoico, coincidem com “a altura em que os animais começaram a viver, comer e a reproduzir-se inteiramente em terra”.

“Tornaram-se completamente terrestres, colonizando novos habitats e explorando novos recursos cada vez mais para o interior, longe dos ambientes aquáticos dos quais antes dependiam.”

Por sua vez, Emily Rayfield, coautora do artigo, salienta que “as interações predador-presa são um importante fator de influência do comportamento animal hoje, pelo que é bastante interessante ver essa influência através da evolução anatómica ao longo de milhões de anos, e perceber que são potencialmente responsáveis por provocarem alguns dos grandes saltos na nossa própria história evolutiva”.

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