Por Tiago Morais, gestor de Desenvolvimento de Eólica Flutuante em Portugal para a Iberblue Wind
Nos últimos anos, o debate energético em Portugal tornou-se cada vez mais polarizado. De um lado, sublinha-se o sucesso da integração de energias renováveis; do outro, critica-se o aumento da potência instalada de tecnologias renováveis quando comparado, de forma implícita, com a potência instalada equivalente que seria necessária em tecnologias fósseis para assegurar a segurança de abastecimento do sistema elétrico. Muitas destas críticas partem de observações legítimas, mas falham frequentemente no essencial: confundem consequências técnicas inevitáveis da descarbonização com falhas estruturais de política energética.
A transição energética implica substituir tecnologias fósseis, altamente despacháveis e com fatores de carga elevados, por tecnologias de baixo carbono e renováveis com produção mais variável. O resultado é inevitável: para produzir a mesma quantidade de energia anual, é necessário instalar mais potência de origem renovável para garantir, ao nível do sistema elétrico, o mesmo nível de energia útil e de potência firme do que seria de esperar com tecnologias fósseis. Isto não é um erro de planeamento, mas uma consequência física da descarbonização. Comparações diretas entre pico de consumo e potência total instalada ignoram conceitos fundamentais como potência firme, fatores de carga e risco de falha do sistema, frequentemente avaliados através de indicadores como o Loss of Load Expectation (LOLE).
Há ainda um ponto estrutural que raramente é explicitado no debate público: Portugal não é, até ao presente momento, produtor de petróleo, gás natural ou carvão, sendo estruturalmente dependente de importações para satisfazer as suas necessidades energéticas. Embora tenham existido explorações de carvão no passado e indícios geológicos de hidrocarbonetos, estes nunca resultaram numa produção relevante à escala económica ou do sistema energético nacional. Qualquer análise séria de custos deve, por isso, incluir dependência externa, volatilidade de preços e risco geopolítico — fatores que raramente aparecem nas comparações simplistas entre “energia fóssil barata” e renováveis.
É neste contexto que o anúncio recente do Governo ganha particular relevância. Na Portugal Renewable Energy Summit 2025, o Secretário de Estado da Energia, Jean Barroca, anunciou que o Executivo irá avançar com um estudo sobre os custos totais do sistema associados às diferentes tecnologias energéticas, com o objetivo de assegurar decisões de investimento baseadas em factos e análises técnicas, evitando determinismos tecnológicos. O custo relevante para a sociedade não é apenas o da produção de eletricidade, mas o custo total do sistema: redes, reservas, flexibilidade, risco de falha, dependência externa e impactos ambientais.
O Plano Nacional Energia e Clima (PNEC) projeta, para 2030, um aumento muito significativo da potência instalada, para cerca de 48 GW, no qual se inclui nova potência instalada eólica (onshore e offshore), solar fotovoltaica (centralizada e descentralizada), outras tecnologias emergentes e armazenamento, nomeadamente sistemas de baterias. Este crescimento não deve ser avaliado apenas em termos quantitativos, mas sobretudo pela sua composição tecnológica. À medida que a penetração de renováveis aumenta, torna-se determinante privilegiar tecnologias com maior previsibilidade, fatores de carga mais elevados e contributo efetivo para a potência firme do sistema elétrico.
Neste contexto, a eólica offshore assume particular relevância. Portugal dispõe de um dos melhores recursos de eólica offshore flutuante da Europa, combinando fatores de carga elevados, maior previsibilidade e produção mais distribuída ao longo do tempo. Num contexto em que a capacidade de expansão da energia hídrica em Portugal é estruturalmente limitada, a eólica offshore assume relevância como uma das poucas opções disponíveis para acrescentar nova potência renovável de elevada qualidade ao sistema elétrico, fornecendo energia ao longo de um maior número de horas anuais e aumentando a quantidade de energia útil entregue por unidade de potência instalada.
O debate energético português beneficia, assim, de uma maior ênfase na avaliação analítica e baseada na evidência. O estudo anunciado pelo Governo é uma oportunidade para aprender com eventos recentes e tomar decisões baseadas em evidência. Se esse exercício for bem feito, a conclusão não resultará de determinismos tecnológicos, mas de factos: a transição energética não se mede em gigawatts de potência instalada, mede-se na robustez do sistema elétrico para garantir eletricidade segura, acessível, sustentável e economicamente competitiva.
À luz destes critérios — e sem prejuízo da avaliação comparativa que o estudo anunciado pelo Governo deverá realizar — a eólica offshore surge, no contexto português, como uma das opções que pode desempenhar um papel mais relevante do que o atualmente refletido nas trajetórias de potência instalada, pelo seu potencial contributo estrutural para a segurança de abastecimento.









