Não há, para já, fim à vista para as tempestades. Mas tudo indica que estes fenómenos serão mais frequentes e severos

Numa sessão online na tarde desta segunda-feira, apropriadamente intitulada “Afinal, o que se passa com o tempo?”, um painel de investigadores ajudou a tentar perceber o porquê de fenómenos raros como o chamado “comboio de tempestades”.

Filipe Pimentel Rações

Há semanas que Portugal está a ser fustigado por aquilo que está a ser chamado de “comboio de tempestades”, um série de intempéries que se têm deslocado sobre o Atlântico Norte, aterrando na costa oeste da Península Ibérica.

Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo, Marta, a seguir Nills. É “tempestade atrás de tempestade”, disse Rita Cardoso, climatologista e investigadora do Instituto Dom Luiz, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL).

Numa sessão online na tarde desta segunda-feira, apropriadamente intitulada “Afinal, o que se passa com o tempo?”, Rita Cardoso explicou que as tempestades que têm assolado o país estão “presas” no Atlântico Norte entre duas zonas de altas pressões localizadas na Escandinávia e algures na América do Norte, estando a ser empurradas para Portugal por uma corrente de jato polar que está mais a sul do que é normal. Enquanto essa corrente não migrar para norte, para as latitudes a que costuma estar, as tempestades continuarão a seguir caminho sobre o oceano e a atingir o país.

Quando isso acontecerá não se sabe ao certo, pelo que, pelo menos para já, não há fim à vista para este temporal.

Mas outro fator está a influenciar estes episódios tempestuosos que parecem não ter fim. Pedro Matos Soares, também do Instituto Dom Luiz, explicou que o por esta altura já famoso anticiclone dos Açores está também ele mais deslocado para sul do que normal e mais fraco. Isso faz com que esse “escudo anti-tempestades” não seja tão eficaz em deter as tormentas que vêm do outro lado do Atlântico e em impedi-las de chegarem a Portugal.

Assim, um rio atmosférico com origem nas Caraíbas, que o investigador Alexandre Ramos, também ele presente na sessão online, descreveu como “gigantes do céu” que transportam grandes quantidades de vapor de água por distâncias que podem ir além dos 2.000 quilómetros, conseguiu progredir ao longo do Atlântico Norte. Sem o escudo do anticiclone dos Açores para lhe barrar o caminho, contribuiu fortemente para a intensa precipitação a que temos vindo a assistir nas últimas semanas.

Com um oceano mais quente, maior é a evaporação e, assim, mais fortes se tornam os rios atmosféricos, que, sem travão, seguem pelo Atlântico fora, do lado de lá para o de cá, trazendo grandes quantidades de água.

Pedro Matos Soares acredita que este “comboio de tempestades” poderá ser o mais longo dos últimos anos, um fenómeno que descreve como “relativamente insólito e singular em Portugal”.

À medida que as alterações climáticas se vão agravando, também será de esperar que estes fenómenos, que em tempos se consideravam raros, se tornem mais frequentes e também mais intensos.

Estações do ano não vão desaparecer

É frequente pensar-se que as alterações climáticas serão o fim das estações do ano, mas o investigador Gil Lemos assegurou-nos de que elas não vão a lado nenhum. Isso, porque as estações do ano resultam da inclinação da Terra no seu eixo vertical, cerca de 23 graus. É isso que causa a variabilidade do clima pelas várias regiões do mundo. Como tal, para as estações desaparecerem, o planeta teria de “endireitar-se” no seu eixo, algo que parece pouco provável.

Contudo, Gil Lemos reconheceu que a perceção que as pessoas têm das estações pode ser diferente e podemos pensar que passam a existir apenas duas: a do frio e da muita chuva, e a do muito calor e da seca.

Não basta conhecer o perigo, é preciso “cultura do risco”

Carlos da Câmara, docente da FCUL e investigador do Instituto Dom Luiz, considera que os modelos de previsão meteorológica estão cada vez mais precisos.

Referindo-se às últimas tempestades, em especial à Kristin, afirmou que os avisos “chegaram a tempo e com qualidade”. No entanto, sublinhou que não basta apenas saber a probabilidade de um determinado evento extremo acontecer, onde ou quando. É preciso analisar também a vulnerabilidade do território a esses fenómenos.

Carlos da Câmara deu como o exemplo a maior exposição das zonas costeiras, para onde continuam a migrar muitas pessoas, mas que são as primeiras a ser atingidas pelas tempestades. Para o especialista, é preciso repensar a forma como se constroem estruturas e, acima de tudo, impulsionar uma “cultura do risco”, algo que não acontecerá de um dia para o outro, mas que é essencial para uma melhor adaptação à realidade climática na qual estamos atualmente.

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