Acidificação dos oceanos pode pôr em risco as ‘borboletas-do-mar’ na Antártida

Um grupo de cientistas alerta que o aumento da acidez dos mares e oceanos, fruto do dióxido de carbono atmosférico que se dissolve na água, pode impedir o desenvolvimento destes moluscos pterópodes, que dependem de uma concha de carbonato de cálcio para sobreviverem.

Filipe Pimentel Rações

Os pterópodes são moluscos gastrópodes com concha, como os caracóis, que se movem pela água usando estruturas locomotoras semelhantes a barbatanas que lhes valeram o nome vulgar de ‘borboletas-do-mar’.

Tal como muitos outros animais marinhos, os pterópodes estão a ser afetados pelas mudanças de temperatura dos mares e oceanos, fruto do aquecimento global provocado pelas emissões de gases com efeito de estufa das atividades humanas. Além disso, a acidificação das águas marinhas assume-se como uma ameaça particularmente preocupante, especialmente para animais que têm conchas, formadas por carbonato de cálcio.

O dióxido de carbono presente na atmosfera faz aumentar a acidez da água e, assim, degrada as estruturas de carbonato de cálcio e dificulta, ou impede mesmo, a sua recuperação. Para animais que dependem das conchas para sobreviverem, o aumento da concentração de dióxido de carbono atmosférico representa um cenário sobejamente negativo.

Para podermos ter uma noção da dimensão do problema, estima-se que, a nível global, os oceanos absorvam perto de um quarto de todo o dióxido de carbono que emitimos para a atmosfera.

Um grupo de biólogos marinhos procurou estudar o impacto da acidificação das águas marinhas nos pterópodes no Oceano Antártico, em duas espécies em particular: a Limacina rangii e a Limacina retroversa.

Embora os pterópodes sejam um grupo de animais relativamente pouco estudado, sobretudo devido ao seu tamanho diminuto (alguns não chegam a medir mais do que um milímetro de comprimento), investigadores do British Antarctic Survey, da Universidade Ártica da Noruega e da Universidade de East Anglia quiserem, precisamente, preencher essa lacuna no conhecimento científico e trazer para o centro da discussão estes moluscos marinhos que têm estado na ‘sombra’.

Para poderem compreender melhor os ciclos de vida, a abundância e a variabilidade sazonal destas duas espécies de pterópodes no Oceano Antártico, os cientistas recolheram vários espécimes a uma profundidade de cerca de 400 metros.

Pterópode do género Limacina.
Foto: Gretchen Hofmann / UC Santa Barbara

Os resultados revelaram diferenças significativas entre as duas espécies e sobre a sua vulnerabilidade às mudanças ambientais nos meios marinhos em que vivem. Por um lado, a L. rangii ocorre no Oceano Antártico durante os meses de inverno quer como adultos, quer como juvenis, ao passo que a L. retroversa, que é uma espécie predominantemente subpolar, surge nessa região apenas em adulta.

Como a água fria permite que seja dissolvido mais dióxido de carbono e, dessa forma, tornar mais ácida a água durante os meses de inverno, a L. rangii poderá ter maior capacidade de sobrevivência, uma vez que juvenis e adultos coexistem e podem compensar a perda de indivíduos, ajudando a manter a estabilidade da população em geral.

Por outro lado, a L. retoversa, surgindo nas águas geladas o Oceano Antártico durante a época mais fria do ano apenas na forma de adultos, poderá não ter a mesma capacidade de ‘reposição’ dos indivíduos perdidos, colocando em risco a estabilidade populacional da espécie nesse local.

As estruturas locomotoras semelhantes a barbatanas dão aos pterópodes o nome vulgar de ‘borboletas-do-mar”.
Foto: Alexander Semenov / Flickr

Seja como for, os investigadores avisam que nenhuma das espécies estará livre de perigo se os seus indivíduos de mantiverem expostos a condições desfavoráveis de acidez durante muito tempo.

As conclusões da investigação foram divulgadas num artigo publicado recentemente na revista ‘Frontiers in Marine Science’, onde os autores também alertam que o aumento da intensidade e da frequência de eventos de acidificação das águas marinhas antárticas está a começar a coincidir com o período de desova dos pterópodes, colocando em risco a sobrevivência os animais na sua fase mais vulnerável: as larvas.

“O declínio das populações de pterópodes no Oceano Antártico poderá ter ramificações em cascata em toda a teia trófica e no ciclo de carbono”, explica Clara Manno, do British Antarctic Survey e uma das coautoras do artigo.

Os pterópodes são elementos essenciais das cadeias alimentares, uma vez que servem de alimento a muitas outras espécies de animais. É por isso que a cientista considera que “o conhecimento sobre o ciclo de vida deste organismo fundamental poderá melhorar a previsão dos impactos da acidificação oceânica no ecossistema antártico”.

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