Associate dean da PBS: “Investimento público não será suficiente” e empresas têm papel-chave a desempenhar



No passado dia 20 de novembro, terminou a 27.ª conferência mundial do clima, a COP27, um encontro que esteve sob os olhares atentos do mundo, numa altura em que a crise climática é cada vez mais reconhecida como uma crise planetária face à qual os países devem congregar-se numa frente unida e lutar, lado a lado, para salvar a Terra e todas as formas de vida que nela habitam.

As negociações climáticas duraram mais dois dias do que inicialmente tinha sido previsto, especialmente devido às divergências entre os países, nomeadamente entre os do Norte Global e do Sul Global, sobre a criação de um fundo que compense financeiramente as nações e comunidades mais vulneráveis por perdas e danos sofridos devido a eventos climáticos extremos.

Mas no final da cimeira, um acordo foi alcançado para o estabelecimento desse mecanismo de financiamento. Ainda assim, muitas dúvidas persistem.

“O acordo é histórico, tal como foi apelidado por muitos, mas outras questões, como a redução das emissões e o abandono dos combustíveis fósseis, ficaram aquém do esperado”, conta à ‘Green Savers’, Patrícia Teixeira Lopes, associate dean da Porto Business School (PBS).

“O financiamento climático foi o tópico incontornável da COP27, que procura, em certa medida, mitigar os danos resultantes das alterações climáticas sofridos pelos países considerados ‘mais vulneráveis’”, diz a especialista em Economia e Gestão Sustentável, mas frisa que “este fundo não é uma solução unitária nem deve ser visto como uma compensação”, e que os países devem assumir metas ainda mais ambiciosas no que toca à redução de gases com efeito de estufa, pois “a mitigação, a adaptação e o Fundo de Perdas e Danos devem funcionar em conjunto”.

O combate às alterações climáticas deve mobilizar todas as camadas da sociedade a nível mundial e não poderá ser bem-sucedido sem a participação e contributos das empresas.

“O investimento público não será suficiente e os investidores privados têm sido chamados a intervir no financiamento de projetos favoráveis ao clima”, explica Patrícia Teixeira Lopes, referindo que “de facto, o financiamento verde faz parte da agenda global e é um desafio para todos: para a banca, para as empresas e para os investidores”.

No que toca ao que poderia ser chamado de ‘capital verde’, de que são exemplo os ‘green bonds’, “o compromisso, por si só, não é suficiente”, pelo que “são necessários procedimentos, regulamentos e controlos que assegurem a adequada aplicação de fundos”, assinala a associate dean da PBS.

“Caso o benefício ambiental não seja atingido, dá-se uma informação desajustada ao mercado e aos investidores e defrontamo-nos com o fenómeno de ‘greenwashing’”, assevera.

Contudo, não podemos negligenciar que o atual contexto internacional, quer ao nível geopolítico, quer económico, é marcado uma grande incerteza.

“Depois de uma pandemia, deparamo-nos com a guerra na Ucrânia e com um cenário marcado pela inflação e pela subida das taxas de juro (para fazer frente à escalada da inflação). A verdade é que a incerteza se expande para diferentes quadrantes das nossas vidas”, diz-nos Patrícia Teixeira Lopes, o que poderá ajudar a compreender a reticência de alguns países em reforçarem os seus compromissos para com o financiamento para o clima.

“Existe, sem dúvida, pressão e alguma reticência”, afiança, e “nos meses anteriores à Cimeira do Clima, no Egito, os países mais vulneráveis e com poucas responsabilidades na crise climática, mas muito expostos às suas consequências, enfatizaram a necessidade de a questão das ‘perdas e danos’ ser integrada oficialmente na ordem de trabalhos da COP27, pedido ao qual os países mais ricos demonstraram alguma reticência”.

A especialista destaca que alguns dos principais atores do Norte Global, mais rico e industrializado, como os Estados Unidos ou a própria União Europeia, demonstram resistência face “a um reconhecimento específico das perdas e danos”, sugerindo que tal se poderá dever ao “receio da possibilidade de eventuais processos legais”.

“Vivemos um contexto geopolítico desafiante, sem dúvida!”, garante.

Apesar de o fundo ter sido acordado, não se sabe ainda como irá funcionar, quem serão os financiadores e quais serão os critérios que orientarão a distribuição desse dinheiro.

“Os governos concordaram na criação de um comité de transição, cujo objetivo será formular recomendações para a operacionalização do fundo, na COP28. Prevê-se, ainda, que este comité reúna antes do final de março de 2023”, afirma Patrícia Teixeira Lopes.

Até ao final desta década, a União Europeia deverá, segundo a própria estratégia, reduzir em, pelo menos, 55% as emissões de gases com efeito de estufa, para que até 2050 possa alcançar a neutralidade carbónica.

Mas se esses objetivos forem falhados, e “se o aquecimento global chegar aos 2,5°C, o impacto será devastador para o nosso planeta e para as vidas de todos os que o habitam”.

Recordando-nos que quando a pandemia se abateu sobre o mundo “unimos e coordenámos esforços”, o que permitiu, em menos de um ano, criar uma vacina inteiramente nova, Patrícia Teixeira Lopes sentencia que “agora, estamos, mais uma vez, perante um adversário comum, mas este é já um velho conhecido”, as alterações climáticas, e que “é altura de reorganizar e, mais uma vez, trabalhar em conjunto para um mesmo fim”.

Assumindo que não se trata de uma empreitada fácil, “é possível”, garante-nos, e é fundamental “percebermos que todos temos responsabilidades, todos temos de assumir o compromisso e agir”.

Um dos principais eixos da estratégia da UE para a transição ecológica é a economia circular, “para tornar a Europa mais limpa e mais competitiva”, com Bruxelas a alertar que “existe só um planeta Terra, mas que até 2050, o mundo consumirá como se existissem três”.

É por isso que a associate dean da PBS sublinha que “se queremos um planeta mais sustentável, as empresas não podem perder de vista a economia circular”, um conceito de importância estratégica que “assenta na redução, reutilização, recuperação e reciclagem de materiais, mas também de energia”.

Avisando que a implementação de uma economia circular “não é um caminho fácil”, explica, no entanto, que “existem algumas estratégias que podem apoiar a implementação da economia circular, como, por exemplo: compras verdes, a consciencialização dos consumidores, a dinamização da colaboração entre as empresas”, entre outras.

E a economia circular “pode representar uma oportunidade económica para as empresas”. Mas em Portugal “as taxas de circularidade rondam dos 2%”, adianta Patrícia Teixeira Lopes, que apesar de reconhecer que ainda há muito para fazer nesse campo, “o nosso país já conta com alguns bons exemplos”, como ao nível dos setores agroalimentar, dos têxteis e da madeira, nos quais algumas empresas já apoiam os seus modelos de negócio na economia circular.

A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável é composta por 169 metas, das quais Portugal terá cumprido ainda somente 20, “por isso, temos muito trabalho pela frente”. No entanto, para que as empresas possam reforçar as suas transformações sustentáveis precisam de investidores.

“Por exemplo, o Estudo do Capital Group indica que a aposta dos investidores está orientada para empresas que já são líderes em Environmental, Social and Governance (ESG), em vez de empresas em processo de transição, que necessitam de mais apoio”, avança a especialista.

E não será possível alcançar um mundo sustentável sem as Finanças, que “poderão assumir um papel fundamental nas perspetivas de recompensa e penalidade”, por exemplo, “para recompensar as empresas que têm boas práticas efetivas e eficientes no que diz respeito à sustentabilidade ambiental e na prossecução das metas definidas da Agenda 2030” ou “para desencorajar as empresas que continuam presas às mesmas práticas que, por sua vez, não protegem o planeta”.

Para o próximo ano está já agendada mais uma cimeira global do clima, a COP28, que deverá acontecer em dezembro nos Emirados Árabes Unidos. Várias organizações de defesa do Ambiente, que consideraram que a COP27 ficou aquém do desejado e do que seria preciso para travar o aquecimento global e impedir que seja ultrapassado o limite dos 1,5 graus Celsius do Acordo de Paris, têm ainda esperança de que na COP28 sejam reforçados os compromissos para reduzir mais as emissões de gases com efeito de estufa e para abandonar progressivamente os combustíveis fósseis.

A esse respeito, Patrícia Teixeira Lopes diz-nos que “depois da COP27, e enquanto aguardamos pela COP28, devemos, todos e cada um e nos vários núcleos em que nos inserimos, dar pequenos passos rumo à mudança. Será com eles que construiremos esse caminho”.



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