Apagão: Interromper interligações com Espanha não protegia consumidores
O presidente da ERSE defendeu hoje no parlamento que interromper interligações com Espanha para evitar um apagão energético não iria proteger os consumidores portugueses, pois implicava ter “máquinas elétricas” em permanência para substituir essa potência.
“É evidente que evitar o apagão em Espanha, evitar que ocorresse em Portugal, não era um custo eficaz, temos que ter consciência disso”, disse o presidente da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), Pedro Verdelho, durante uma audição no grupo de trabalho criado na Comissão de Ambiente e Energia da Assembleia da República sobre o apagão energético de 28 de abril de 2025.
Pedro Verdelho respondia aos deputados depois de ser questionado sobre o que era possível fazer para evitar o incidente energético.
“Temos nove interligações com Espanha. A capacidade técnica dessas interligações é superior à nossa ponta de consumo”, vincou, para a seguir defender que “estar a imunizar essas interligações” implicava, em alternativa, garantir reservas para assegurar que o sistema continuava a funcionar se um dos elementos falhasse, o que traria consequências para os consumidores.
“Se assumimos que vamos interromper a interligação para imunizar este fenómeno que aconteceu em Espanha, significava ter máquinas elétricas em Portugal em permanência, em funcionamento, para substituir aquela potência de interligação, o que de forma razoável [não era] aceitável. Não era assim que protegíamos os consumidores”, advertiu.
Na audição, na qual foi questionado pelos deputados do PSD, PS, Chega, IL, Livre e PCP, o presidente da ERSE disse ainda que o regulador teve de tomar “uma série de decisões” relacionadas com o facto de, no dia do apagão, a compra de energia para esse dia e para o dia seguinte já estar fechada.
“Houve muitas outras decisões que tiveram que ser tomadas, porque quando houve o ‘blackout’ [apagão], a compra e venda de energia nos mercados organizados já estava fechada para o dia 28 e para o dia 29”, disse.
Com o apagão, cerca das 11h30, “o que aconteceu [com a energia] realmente foi algo completamente diferente” e, por isso, “houve que tomar uma série de decisões para reverter essas situações, para garantir a estabilidade do funcionamento do mercado – a estabilidade dos consumidores, a sustentabilidade do mercado em benefício dos consumidores”, sublinhou.
“Todas essas intervenções foram tomadas pela ERSE em processos de consulta pública que deram origem a uma série de decisões complexas”, frisou, referindo-se à definição dos cálculos da energia comprada pelas comercializadoras antes do apagão e que acabou por não ser consumida.
O corte generalizado no abastecimento elétrico afetou Portugal e Espanha durante cerca de 10 a 11 horas.
Na audição de hoje, o presidente da ERSE projetou uma apresentação aos deputados com uma análise visual, baseada no mapa da Península Ibérica, que revela como “em 20 segundos” se verificou “o colapso do sistema ibérico”.
“A perda de geração em Espanha foi enorme. O fenómeno foi muito rápido e, portanto, não havia nada a fazer. Tivemos o colapso do setor elétrico”, disse.
O painel de peritos europeus que investiga o incidente – a Rede Europeia de Gestores de Redes de Transporte de Eletricidade (ENTSO-E, na sigla em inglês) – concluiu, no primeiro relatório factual sobre o assunto, que o apagão foi provocado por uma sucessão de desligamentos súbitos de produção renovável, e subsequente perda de sincronismo com a rede continental europeia.
No relatório, de 03 de outubro de 2025, o grupo classifica o incidente como de “escala 3” — o nível mais grave previsto pela legislação europeia — e descreve-o como “o mais significativo ocorrido no sistema elétrico europeu em mais de 20 anos”.
Na terça-feira, a Comissão Europeia autorizou Portugal a abrir um concurso no âmbito do Programa Sustentável 2030 para reforçar a resiliência de hospitais, maternidades e antenas de telecomunicações, através de energia solar e baterias.
