Uma equipa internacional de cientistas encontrou novas evidências de que os glaciares dos hemisférios Norte e Sul evoluíram de forma sincronizada durante a última Idade do Gelo. A descoberta desafia teorias até agora dominantes e fornece dados fundamentais para compreender como as atuais massas de gelo poderão reagir às alterações climáticas em curso.
O estudo, liderado por investigadores da Universidade de Queensland, permitiu reconstruir, pela primeira vez, um registo completo das flutuações glaciares nos Alpes do Sul da Nova Zelândia. Para tal, os cientistas analisaram um núcleo de sedimentos marinhos, posteriormente comparado com registos de glaciares na Europa e na América do Norte.
Segundo os investigadores, a comparação revelou que os glaciares da Nova Zelândia recuaram ao mesmo tempo que os do hemisfério Norte. Para a professora Helen Bostock, da Escola do Ambiente da Universidade de Queensland, este resultado indica que um período de aquecimento global, provavelmente associado a um aumento do desequilíbrio energético do planeta, precedeu o recuo dos glaciares em ambos os hemisférios de forma simultânea.
Esta conclusão põe em causa a teoria da chamada “balança bipolar”, que defendia uma resposta oposta entre os hemisférios durante os chamados Heinrich Stadials. Até agora, acreditava-se que a entrada massiva de água doce no Atlântico Norte teria enfraquecido a circulação meridional do Atlântico, acumulando calor nos oceanos do hemisfério Sul e acelerando, por essa via, o recuo dos glaciares na Nova Zelândia.
Tradicionalmente, a reconstrução dos movimentos glaciares baseava-se na datação de blocos rochosos deixados pelos glaciares. No entanto, este método apresenta limitações, uma vez que esses vestígios podem ser perturbados por avanços posteriores do gelo. Em contraste, os sedimentos marinhos funcionam como um arquivo contínuo e bem datado da expansão e retração dos glaciares.
Além disso, estes registos permitem uma comparação direta com variações passadas da temperatura dos oceanos, identificadas através de microfósseis preservados nos sedimentos. Os dados revelam uma ligação estreita entre o aquecimento dos oceanos e o recuo dos glaciares.
Para Samuel Toucanne, investigador do Ifremer e autor principal do estudo, os resultados sublinham a complexidade e a interligação do sistema climático da Terra. Compreender melhor os mecanismos climáticos do passado é, segundo o cientista, essencial para aperfeiçoar os modelos de previsão atuais e antecipar os impactos das alterações climáticas associadas à atividade humana.
O estudo foi publicado na revista científica Nature Geoscience.









