Atividade elétrica em árvores antes de eclipse em Itália terá sido causada por trovoada

A conclusão é avançada num artigo de opinião assinado por investigadores internacionais, que contestam um estudo anteriormente divulgado com grande destaque mediático.

Redação

Um aumento sincronizado da atividade elétrica observado em várias árvores de abeto antes de um eclipse solar parcial nos Dolomitas, em Itália, pode não ter sido uma “antecipação” do fenómeno astronómico, mas sim a reação a uma trovoada coincidente. A conclusão é avançada num artigo de opinião assinado por investigadores internacionais, que contestam um estudo anteriormente divulgado com grande destaque mediático.

O trabalho original mediu a actividade bioeléctrica de um pequeno grupo de árvores e identificou um aumento da sincronização entre elas antes e durante o eclipse. Os autores defenderam que este comportamento demonstrava a capacidade das árvores responderem colectivamente a eventos externos. No entanto, segundo os investigadores que agora analisam criticamente esses dados, as condições meteorológicas registadas antes do eclipse — incluindo uma descida acentuada da temperatura, precipitação significativa e descargas elétricas na região — constituem uma explicação muito mais plausível para o fenómeno observado.

A crítica foi publicada na revista Trends in Plant Science, da Cell Press. Os autores argumentam que, cerca de 14 horas antes do eclipse parcial, uma trovoada local atingiu a área do estudo, com vários relâmpagos nas proximidades, coincidindo temporalmente com o aumento da atividade elétrica nas árvores.

“Para mim, este artigo representa a entrada da pseudociência no coração da investigação biológica”, afirma Ariel Novoplansky, ecólogo evolutivo da Universidade Ben-Gurion do Negueve, em Israel, e primeiro autor do texto crítico. “Em vez de considerarem factores ambientais simples e bem documentados, como uma forte chuvada ou relâmpagos próximos, os autores optaram por uma ideia mais sedutora: a de que as árvores estavam a antecipar um eclipse solar.”

É amplamente reconhecido que as plantas conseguem perceber alterações no ambiente e, em certos casos, preparar-se para desafios futuros. No entanto, sublinham os investigadores, este tipo de antecipação só ocorre quando o evento esperado representa uma ameaça significativa e quando existem sinais fiáveis que o anunciam. No caso em análise, o eclipse foi curto e reduziu a luz solar em apenas cerca de 10,5%, um impacto inferior ao provocado por nuvens passageiras.

“O eclipse reduziu a luz durante apenas duas horas, mantendo níveis de radiação solar aproximadamente duas vezes superiores ao que as árvores conseguem utilizar de forma eficaz”, explica Novoplansky. “As variações normais da nebulosidade naquele local alteram a quantidade e a qualidade da luz de forma muito mais intensa.”

Os autores da crítica questionam ainda a ideia de que árvores mais velhas teriam “memória” de eclipses anteriores e estariam a comunicar essa informação às mais jovens. Recordam que cada eclipse solar é único quanto ao trajecto, duração e intensidade, pelo que experiências passadas não seriam úteis para prever eventos futuros. Acrescentam que as variações gravitacionais associadas a um eclipse são semelhantes às que ocorrem numa lua nova, não constituindo um sinal relevante.

Outro ponto salientado é o reduzido número de amostras do estudo original: apenas três árvores vivas e cinco troncos cortados. Os investigadores alertam cientistas, jornalistas e o público para o risco de aderirem a narrativas sensacionalistas que carecem de base empírica sólida.

“A actividade eléctrica das árvores é um fenómeno real, mas ainda pouco compreendido”, conclui Novoplansky. “A ideia de que esses sinais possam codificar memória, antecipação ou resposta colectiva exige saltos conceptuais extraordinários que não foram sustentados pelos dados. A floresta já é suficientemente fascinante sem precisarmos de lhe atribuir capacidades irracionais com base em simples correlações.”

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