As baleias poderão estar a adaptar-se às alterações climáticas através de uma divisão mais clara dos recursos alimentares, numa tentativa de coexistir num oceano cada vez mais pressionado pela escassez de alimento. A conclusão é de um estudo canadiano que analisou quase 30 anos de dados sobre os hábitos alimentares de três espécies — baleia-comum, baleia-anã (minke) e baleia-de-bossa — no Atlântico Norte.
A investigação, publicada na revista científica Frontiers in Marine Science, analisou 1.110 amostras de pele recolhidas entre 1992 e 2019 no Golfo de São Lourenço, uma área crucial de alimentação sazonal para várias espécies de cetáceos. Através da análise de isótopos estáveis de azoto e carbono, os cientistas conseguiram identificar o tipo de presas consumidas e o lugar ocupado por cada espécie na cadeia alimentar ao longo do tempo.
Os resultados mostram uma mudança clara na dieta das baleias: todas passaram a consumir mais peixe e menos krill, um pequeno crustáceo tradicionalmente abundante na região. Esta alteração parece acompanhar o aquecimento das águas e a redução do krill ártico, associadas às mudanças climáticas e ao aumento da atividade humana no Atlântico Norte.
Segundo a investigadora Charlotte Tessier-Larivière, autora principal do estudo e investigadora no Instituto Maurice Lamontagne, “o aumento recente da partilha diferenciada de recursos entre as baleias-comuns, baleias-de-bossa e baleias-anãs pode refletir uma maior competição causada pela diminuição da disponibilidade de alimento”.
Menos sobreposição, mais especialização
O estudo revela que, ao longo dos anos, as três espécies passaram a sobrepor menos as suas dietas, mantendo-se mais fiéis aos seus nichos alimentares específicos. Este fenómeno é particularmente evidente na última década analisada, sugerindo que, à medida que o alimento se torna mais escasso, a competição aumenta e as espécies adaptam-se para evitar conflitos diretos.
A baleia-anã apresentou a maior sobreposição alimentar com as outras espécies, embora essa partilha tenha diminuído ao longo do tempo. Já a baleia-de-bossa, que ocupa naturalmente um nicho mais restrito, reduziu drasticamente a sobreposição com a baleia-anã na última década do estudo. A baleia-comum, por sua vez, passou a partilhar menos recursos e alterou significativamente a sua dieta, substituindo o krill por peixes como arenque, cavala e, mais recentemente, peixe-areia.
Apesar destas mudanças, os investigadores não observaram um cenário de exclusão competitiva total — situação em que uma espécie elimina outra ao competir pelo mesmo recurso. “O ecossistema do Golfo de São Lourenço continua a ser suficientemente produtivo e oferece presas alternativas distribuídas no espaço e no tempo, o que favorece a coexistência”, explica Tessier-Larivière.
Conservação além dos animais
Os autores sublinham que proteger as baleias passa não só por salvaguardar os próprios animais, mas também por preservar os seus habitats e fontes de alimento. Alertam ainda para a importância de estudos de longo prazo, fundamentais para compreender o impacto real das rápidas alterações ambientais nos ecossistemas marinhos.
“Tudo indica que as mudanças ambientais já estão a afetar estas espécies”, conclui Tessier-Larivière. “É essencial continuar a monitorizar os seus nichos alimentares e integrar esta informação na gestão das pescas e na criação de áreas marinhas protegidas.”
O estudo reforça a ideia de que, num oceano em transformação, a sobrevivência das grandes baleias depende tanto da sua capacidade de adaptação como das decisões humanas sobre a proteção dos mares.









