Biodiversidade: Maioria das espécies são raras e apenas algumas são realmente muito comuns



Décadas de observação de animais selvagens revelam um padrão no que toca à abundância das espécies: a maioria são raras e só algumas é que são verdadeiramente muito comuns, espalhando-se um pouco por todo o mundo.

A conclusão é de uma equipa de investigadores, incluindo os portugueses Luís Borda-de-Água e Henrique Pereira, que revela que embora a abundância global de alguns grupos taxonómicos, como as aves, seja relativamente bem conhecida, no que toca a outros, como os insetos, ainda há muito para descobrir.

Num artigo divulgado esta semana na ‘Nature Ecology & Evolution’, os cientistas escrevem: “Que algumas espécies são raras e outras são comuns é uma das observações mais antigas da ecologia”. Mas salientam que saber a razão que subjaz à distribuição na Terra do que é raro e do que é comum tem permanecido um mistério.

Ao longo dos tempos, vários modelos têm sido criados para avaliar a abundância relativa das espécies no mundo, como o criado por R. A. Fisher, que sugeriu que a maioria das espécies são muito raras e que as mais comuns tendem a ser cada vez menos, e o criado por F. W. Preston, que, inversamente, propôs que apenas algumas espécies são realmente muito raras e que a maioria das espécies tende para um nível intermédio de abundância.

O leopardo (Panthera pardus) é considerada uma espécie entre as categorias ‘rara’ e ‘intermédia’.
Foto: Corey Callaghan

Até agora, a comunidade científica não tinha conseguido apontar qual das perspetivas verdadeiramente descreve a distribuição da abundância de espécies a nível global. Mas este grupo de investigadores acredita ter decifrado o enigma, com uma solução que fica a meio caminho entre a proposta por Fisher e a proposta por Preston.

Ainda que defendam que a maioria das espécies é rara, e não muito rara, e que apenas algumas espécies são muito comuns, os autores avisam que isso só é verdade, pelo menos por agora, para grupos bem estudados, como as aves e as cigarras. Para todos os outros grupos de espécies, a informação continua a ser escassa e não permite avaliar com precisão a sua abundância à escala planetária.

Henrique Pereira, da Universidade de Halle-Wittenberg, na Alemanha, e do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO), da Universidade do Porto, é um dos coautores do artigo, e em comunicado explica que “se não temos dados suficientes, parece que a maioria das espécies são raras”.

Por isso, diz que “ao acrescentarmos cada vez mais observações, a imagem muda” e, dessa forma, “começamos a ver que existem, de facto, mais espécies raras do que espécies muito raras”.

Esta ilustração mostra aquilo que os autores consideram ser um padrão universal no que toca à distribuição da abundância das espécies no mundo, pelo menos no que toca às aves: existem poucas espécies muito raras e comuns e muitas espécies raras.
Fonte: Gabriele Rada (ilustração) e Corey Callaghan (fotos)

Recorrendo à plataforma Global Biodiversity Information Facility (GBIF), os investigadores analisaram mais de mil milhões de observações de espécies feitas na natureza entre 1900 e 2019. O trabalho, liderado por Corey Callaghan, passou pelo agrupamento dos dados recolhidos em 39 grupos de espécies, como aves, insetos e mamíferos, e reuniu informação disponível sobre a abundância global de cada uma das espécies.

Callaghan diz que embora há décadas sejam registadas observações de espécies, apenas sobre alguns grupos se conhece, de facto, a abundância das espécies. “Temos ainda um longo caminho pela frente”, salienta.

Os cientistas acreditam que os resultados desta investigação ajudarão a compreender por que razão umas espécies são raras e outras são comuns. Mas alertam que “os humanos continuam a alterar a face do planeta e a abundância das espécies, por exemplo, ao tornarem menos comuns espécies comuns”.

Por isso, o trabalho dos investigadores torna-se ainda mais complexo, pois no estudo da abundância das espécies têm não apenas de contemplar os mecanismos naturais, mas também “como os impactos humanos estão a alterar esses padrões”.

Na obra ‘A origem das espécies’, Charles Darwin perguntava “Como explicar que uma espécie tenha uma distribuição ampla e seja mais numerosa, e que outra espécie próxima tenha uma menor distribuição e seja rara?”. Apesar dos avanços em direção a uma resposta concreta, os cientistas admitem que poderá demorar ainda algum tempo até que Darwin possa ver a sua questão esclarecida por fim.





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