Como enfrentar o impacto ambiental causado pela elevada sazonalidade turística no Algarve

Um estudo pioneiro destaca os desafios que o turismo tem na gestão de resíduos nesta região. Em entrevista à Green Savers, o coordenador da investigação explica que há um comum às restantes regiões, que é mais do que triplicar a quantidade de resíduos recolhidos para reutilização e reciclagem.

Ana Filipa Rego

É urgente definir soluções sustentáveis para enfrentar o impacto ambiental e económico causados pela elevada sazonalidade turística no Algarve. A conclusão é do estudo intitulado “as implicações da atividade turística na região do Algarve para a gestão de Resíduos Urbanos” promovido pelo CICEE – Centro de Investigação em Ciências Económicas e Empresariais, em parceria com a Universidade do Algarve e com o apoio da Algar, empresa do grupo EGF.

Reunindo investigadores de cinco instituições universitárias de Portugal e dos Estados Unidos, o estudo revela que em 2023 o Algarve registou 29 milhões de dormidas, das quais 82% ocorreram na época alta o que gerou uma pressão significativa nos serviços de gestão de resíduos. Durante o mês de agosto, o turismo foi responsável por 41% da produção de resíduos, equivalente a 3,6 kg por pernoita, ou seja, mais do que o dobro da produção per capita dos residentes locais.

A produção de resíduos na época alta tem também impacto económico, uma vez que o custo total de gestão de resíduos foi de 81,3 milhões de euros em 2023, com custos médios significativamente superiores na época alta, chegando a 436 €/tonelada para resíduos indiferenciados, comparados aos 147 €/tonelada na época baixa.

No que diz respeito à gestão “é mais difícil de ter uma noção tão precisa, pois todo o sistema está já condicionado à partida pela referida sazonalidade. Uma forma simplificada de capturar esse efeito é quantificar os custos acrescidos decorrentes dessa sazonalidade. Com os dados disponíveis, estimamos que em 2023 o sobrecusto associado a essa sazonalidade tenha rondado os 24 milhões de euros”, explica à Green Savers Eduardo Cardadeiro, professor e coordenador do estudo.

Mais de 80% dos resíduos municipais do Algarve depositados em aterros

O estudo mostra que atualmente mais de 80% dos resíduos municipais do Algarve são depositados em aterros, enquanto as taxas de reciclagem e reutilização ficam abaixo de 15%, dado que estão muito abaixo das metas definidas pela União Europeia para 2035, que indicam 65% de reciclagem e reutilização e um máximo de 10% para aterros a nível nacional.

Questionado sobre quais os maiores desafios no setor da gestão de resíduos no Algarve, Eduardo Cardadeiro explica que “há um desafio, só por si gigantesco, que é comum às restantes regiões do país” e que consiste em mais do que triplicar a quantidade de resíduos recolhidos para reutilização e reciclagem.

“Isso”, acrescenta, passa por uma “profunda alteração dos hábitos e por um aumento tremendo de capacidade de recolher embalagens, vidro, papel/cartão e bioresíduos, que requer um nível de investimento sem precedentes por parte do conjunto das entidades gestoras na região”. Para o docente, “só uma boa articulação da ação de todos, com especial destaque para a Algar, os municípios a APA e a ERSAR, permitirá uma clara aproximação aos objetivos do PERSU 2030. Digo aproximação, porque entendo que é impossível atingir os objetivos nos prazos definidos”.

Algarve com desafio acrescido devido à forte sazonalidade

Mas o Algarve, diz ainda, tem um desafio acrescido, que resulta da forte sazonalidade da produção desses resíduos, com grande concentração nos meses de junho a setembro, “coisa que não se verifica com semelhante intensidade nas restantes regiões de Portugal Continental”.

Deste facto decorrem “especiais dificuldades” na gestão dos fluxos de recolha dos vários tipos de resíduos, desde logo, pelo pico de produção, que quase duplica para alguns tipos de resíduos em agosto quando comparado com um mês de época baixa, e exige um imediato aumento de capacidade, “muito difícil de conseguir devido a restrições urbanísticas e de mão-de-obra nesses períodos”, revela. Mas também porque essa sazonalidade está associada à presença temporária de muitos trabalhadores, visitantes e turistas de fora da região e do país, com diferentes hábitos de separação de resíduos e por períodos de estadia curtos, “sendo, por isso, muito difícil induzir os melhores comportamentos logo a montante”, aponta.

Eduardo Cardadeiro sublinha que, se relativamente aos resíduos produzidos em unidades de alojamento e restauração “podemos esperar e estimular uma gestão profissional e cada vez mais sustentável dos resíduos, já no que ao alojamento local diz respeito isso será muito mais difícil pela dispersão, natureza e dimensão dos proprietários”. Porém, cerca de um terço das dormidas ocorrem nesta tipologia de alojamentos, alerta.

Em síntese, para o investigador os maiores desafios são o de melhorar a separação dos resíduos e o seu correto encaminhamento para os fluxos apropriados, por um lado, e o de realizar (e financiar) todos os investimentos necessários para ajustar a capacidade instalada de recolha e tratamento para cumprir as metas do PERSU 2030 num contexto de forte sazonalidade. “Há um desafio adicional, o de conseguir fazer tudo isto de forma concertada, coordenando a ações de todos os stakeholders, desde os nacionais, como a APA e a ERSAR, aos regionais, como a CCDR, a RTA e a Algar, aos locais, como os Municípios, as sociedades gestoras de resíduos e os agentes económicos, em especial os do setor do turismo”, remata.

3 fases

Para dar resposta ao impacto e desafios da gestão de resíduos no Algarve em época alta, o estudo do CICEE identificou a necessidade de implementar medidas, que também visam cumprir as metas definidas pela União Europeia e promover uma economia circular e práticas sustentáveis para a região.

Numa primeira fase, passa pela caraterizar da relação entre o turismo e a gestão de resíduos, analisado a produção de resíduos sólidos municipais pelo turismo, diferenciando fontes e tipos de resíduos, desenvolvendo modelos estatísticos e económicos para estimar custos associados à sua gestão e avaliando as tarifas diferenciadas e alternativas de financiamento, como tarifas, impostos turísticos e outras opções que possam financiar práticas sustentáveis de gestão de resíduos.

Numa segunda fase, a implementação de um projeto-piloto, em 2025, para otimizar a gestão de resíduos, como circuitos de recolha dedicados através do envolvimento de stakeholders regionais, como ALGAR, AMAL, ATR, operadores turísticos, hotéis e restaurantes, e o desenvolvimento de indicadores de desempenho ambiental, social e de sustentabilidade para monitorizar o progresso e a adaptação de soluções às necessidades locais.

Numa terceira fase, alargar as medidas testadas com sucesso no projeto-piloto a toda a região do Algarve e promover a sustentabilidade a longo prazo, através da monitorização contínua dos indicadores regionais de recolha de resíduos e o desenvolvimento de indicadores específicos para monitorizar melhorias anuais.

O conjunto de medidas que integrará o piloto “está neste momento a ser desenhado e contamos ter este processo concluído no primeiro trimestre, para iniciarmos a implementação em abril, nos moldes que ficarem acordados entre todos”, revela Eduardo Cardadeiro à Green Savers, acrescentando que o projeto global deve estender-se até final de 2026, tendo-se iniciado em 2024 a fase de análise estatística dos dados, com um foco especial no conhecimento quantificado da situação.

Projeto piloto para testar medidas em 2025

Embora essa fase se vá desenrolando ao longo do corrente ano, já se iniciou a segunda fase, especialmente centrada no desenho de um projeto piloto para testar medidas em 2025, e, a última fase, que se iniciará no final deste ano, tem por objetivo alargar a toda a região as medidas que se revelem eficazes durante a fase piloto. Nesta última fase também se prevê a divulgação generalizada dos resultados e das que se revelem boas práticas.

Eduardo Cardadeiro sublinha que um dos principais objetivos foi procurar soluções para melhorar a gestão de resíduos e estão “neste preciso momento a desenhar com todos os stakeholders as primeiras medidas para testarmos já em 2025”, reforçando que “só é possível dar um contributo significativo e ter resultados concretos no terreno se os vários stakeholders se revirem nelas e participarem na sua implementação, pelo que é indispensável que façam parte do seu desenho”.

Por outro lado, ressalva, “não são os académicos, sentados nos seus centros de investigação, que melhor conhecem a realidade local e melhor podem identificar as medidas com maior probabilidade de aceitação por parte dos vários atores do sistema integrado de gestão dos resíduos”.

Em todo o caso, “podemos antecipar ser provável que essas medidas englobem áreas operacionais que melhorem os fluxos de resíduos nas unidades turísticas e nos circuitos de recolha e tratamento, áreas de formação e comunicação que induzam melhores comportamentos por parte dos trabalhadores do setor e dos turistas, áreas regulamentares, nomeadamente os regulamentos municipais, que incentivem a correta separação e encaminhamento dos resíduos, ou a área de divulgação de resultados e demonstração de boas práticas, etc”, aponta.

Destino ambientalmente sustentável

Afinal como é que se promove um destino ambientalmente sustentável, nomeadamente, o Algarve? “Essa pergunta está ligada ao objetivo último, ao objetivo primordial deste projeto – contribuir para melhorar a imagem do destino Algarve promovendo-o como um destino ambientalmente responsável e sustentável”, responde o docente.

Num contexto nacional e internacional de tanta pressão sobre o turismo, nomeadamente no que ao impacto ambiental diz respeito, “torna-se mais crítico para a competitividade de um destino adotar e comunicar boas práticas nesta área. O trabalho feito pela região na gestão da água e o selo Save Water é um exemplo inspirador, cuja experiência vai agora ser muito útil”, afirma.

Para o investigador, em primeiro lugar “é necessário melhorar as práticas de gestão de resíduos, para depois as poder monitorizar e comunicar, demonstrando as boas práticas e determinação na prossecução dos objetivos da economia circular. Para isso, definir indicadores e criar um selo equivalente ao selo Save Water parecem ser objetivos intermédios indispensáveis”.

Eduardo Cardadeiro não tem dúvidas de que o turismo “é fundamental” para a economia do Algarve, mas precisamos de “assegurar que o seu crescimento não comprometa o desenvolvimento sustentável da região, pelo que o desenvolvimento deste estudo é um passo importante para alinhar as práticas e necessidades locais com as metas ambientais europeias”.

*Artigo publicado originalmente na edição de março de 2025

 

Partilhe este artigo


Nova Edição

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.