Conflitos relacionados com a água disparam nos últimos anos e atingem níveis recorde



A violência relacionada com recursos hídricos mais do que quadruplicou entre 2020 e 2024 e a comunidade internacional não está a prestar a devida atenção ao agravamento do fenómeno.

De acordo com uma análise divulgada pelo grupo de reflexão Pacific Institute, em 2024 foram registados 420 conflitos que envolveram recursos hídricos. Estima-se que 61% dos incidentes envolveram ataques a infraestruturas hídricas, 34% foram causados por disputas sobre acesso ou controlo da água e 5% foram relativos ao uso deliberado da água como arma de guerra.

Os números registados em 2024 contrastam drasticamente com os de anos anteriores. Segundo a mesma análise, os conflitos em 2024 aumentaram quase 20% face a 2023 e 78% face a 2022. Em 2020, o número de conflitos sobre a água ficou abaixo dos 100 incidentes, e em 2000 foram apenas 24 a nível global.

Número de conflitos relacionados com a água desde 2010 até 2024. Fonte: Pacific Institute.

“O aumento do número de incidentes violentos envolvendo recursos de água doce salienta a necessidade urgente de atenção internacional”, diz, em comunicado, Peter Gleick, cofundador do Pacific Institute.

Assegurar que todos têm acesso a água segura e proteger os sistemas hídricos civis, em linha com o Direito Internacional, é “fundamental para evitar a expansão da violência”, acrescenta o especialista.

Conflitos sobre a água foram registados em todas das regiões do mundo, mas é no Médio Oriente, no sul da Ásia e na África subsariana que mais se concentram os incidentes. Cerca de 12% dos conflitos de 2024 estiveram relacionados com o confronto armado entre Israel e a Palestina e 16% relacionados com a guerra da Rússia na Ucrânia. Em ambas as regiões registaram-se ataques a infraestruturas hídricas civis e a fontes de energia essenciais para o seu funcionamento, a barragens e a estações de tratamento de água.

Os dados mais recentes, alertam os especialistas, deixam claro um aumento de ataques cibernéticos a companhias de água, bem como de violência contra ativistas ambientais e comunidades que defendem recursos hídricos, especialmente na América Latina.

“Os nossos dados mostram que os sistemas hídricos, os recursos de água doce e aqueles que trabalham para geri-los ou protegê-los estão a ser cada vez mais afetados pela violência”, destaca Morgan Shimabuku, investigador do Pacific Institute.

“É preciso continuar a prestar atenção para garantir que o desenvolvimento económico prossiga de forma a preservar os recursos hídricos e as comunidades que deles dependem”, argumenta.

Os conflitos dentro das fronteiras nacionais, explicam os investigadores, ultrapassam largamente os conflitos entre duas ou mais nações sobre recursos hídricos. Incidentes de violência entre agricultores e pastores em África, entre consumidores urbanos e rurais, entre grupos religiosos e entre grupos familiares são a grande maioria dos conflitos sobre a água registados a nível mundial.






Notícias relacionadas



Comentários
Loading...