O município de Guimarães é a Capital Verde Europeia para o ano de 2026. A cerimónia da inauguração oficial desta nova etapa da história de uma cidade que é também ela histórica aconteceu no passado dia 9 de janeiro.
O galardão de Capital Verde Europeia é atribuído todos os anos pela Comissão Europeia e distingue a cidade com mais de 100 mil habitantes cujos esforços e ações em direção a um futuro mais verde e sustentável são um exemplo para as demais.
As cidades vencedoras destacam-se por incluírem os seus cidadãos na transição sustentável, por melhorarem o ambiente urbano, por combaterem a poluição, por mitigarem as suas contribuições para as alterações climáticas e por se prepararem para os seus impactos com um foco na resiliência.
“Uma cidade mais verde é um lugar que atrai investidores, turistas e fornece uma melhora qualidade de vida aos seus cidadãos” é como a Comissão Europeia descreve uma Capital Verde Europeia. A primeira foi Estocolmo, na Suécia, em 2010 e agora Guimarães arrecada o prémio, depois de em 2020 ter sido a cidade de Lisboa.
A segunda cidade portuguesa a ser declarada Capital Verde Europeia, Guimarães quer ser “um farol de sustentabilidade” e “inspirar outras cidades a iniciar a sua transição sustentável”, diz o Presidente da Câmara Municipal, Ricardo Araújo.
Em entrevista à Green Savers, o autarca explica o que a distinção significa para o município, o trabalho que a autarquia tem desenvolvido rumo à sustentabilidade e o que outros municípios podem fazer para serem as próximas Capitais Verdes Europeias.
O ano de 2026 começa com uma nova capital verde europeia, o município de Guimarães, que diz querer, ao longo do ano, reforçar o papel de Guimarães como uma referência europeia no que toca a boas práticas ambientais e à liderança na transição climática. É uma ambição de grande monta. Como planeiam tornar-se nesse farol de sustentabilidade para as outras cidades europeias?
Em primeiro lugar, enquanto Capital Verde Europeia, queremos inspirar outras cidades a iniciar a sua transição sustentável, independentemente da dimensão ou background. Aliás, esta distinção é a prova de que a liderança climática não depende da escala – Guimarães é uma cidade de dimensão média –, mas sim da visão e da determinação e demonstra que é possível conciliar uma identidade histórica profunda com a inovação urbana e a sustentabilidade.
Na prática, planeamos também ser um farol de sustentabilidade ao agir como um “laboratório vivo”, onde as decisões são baseadas em evidências científicas – apoiadas pelo Laboratório da Paisagem – e onde a transição ecológica é vivida no quotidiano.
Nesse sentido, os eventos que iremos receber e promover ao longo do ano servirão para fomentar a partilha de projetos e boas práticas e dar a conhecer o que de melhor se faz no nosso concelho ao nível da sustentabilidade.
Queremos também marcar a diferença e servir de exemplo ao envolver os cidadãos no processo de tomada de decisões, para que se tornem verdadeiros aliados na criação de soluções sustentáveis com impacto real no seu meio envolvente.
Do programa que têm para este ano, que iniciativas é que destacaria como aquelas que, sem desfazer as restantes, ajudarão Guimarães a firmar essa posição como Capital Verde?
O programa da Guimarães 26 – Capital Verde Europeia é vasto, com mais de 150 eventos ao longo do ano, incluindo conferências internacionais de referência, fóruns técnicos, festivais e atividades culturais, iniciativas de educação ambiental e momentos de mobilização comunitária.
Após a maior cerimónia de abertura de uma Capital Verde Europeia de sempre, no passado dia 9 de janeiro, dentro deste programa, destacaria a conferência anual da rede Energy Cities, a Green Week Guimarães, a maior iniciativa pública de sensibilização ambiental do município, o European Urban Resilience Forum (EURESFO), a prestigiada conferência anual da Eurocities, o Encontro Nacional de Limpeza Urbana e o Congresso da Água.
Importa também referir as mais de 200 iniciativas propostas pela comunidade, que nos enchem de orgulho e provam que este é um desígnio partilhado por todos os Vimaranenses.
Guimarães destacou-se recentemente com os selos ODSlocal de Desempenho Municipal e de Dinâmica Municipal. Considera que isso é reflexo do caminho que o município tem vindo a trilhar na sustentabilidade e na proteção do ambiente e que, no final de contas, acabou por se refletir na nomeação para Capital Verde Europeia?
Desejamos afirmar um trabalho consistente, com metas claras e, sobretudo, o envolvimento de muitas pessoas, empresas e entidades locais, nacionais e europeias.
A distinção de Capital Verde Europeia não surge por acaso e não é, acima de tudo, o nosso ponto de chegada, dado que, como tenho sempre afirmado, ainda há muito trabalho pela frente para que este título signifique, sobretudo, melhor qualidade de vida para todos os Vimaranenses. Ainda assim, valida e reforça o sucesso e o empenho do nosso percurso na transição climática, social e económica.
O desenvolvimento sustentável, e todos os esforços que essa transformação exige, continua ainda a ser um desafio para muitos municípios. Que recomendações daria para se conseguir ultrapassar obstáculos? Isto sabendo que nem todos os municípios têm os mesmos recursos.
O primeiro passo é assumir a sustentabilidade como uma prioridade estratégica e transversal a nível municipal e não como um tema acessório.
Depois, é essencial que as cidades se foquem no contexto e realidade de cada território e não apenas na dimensão. Guimarães é uma cidade de média dimensão, mas estamos a conseguir provar que este caminho é possível ao apostar em parcerias estratégicas, ao partilhar conhecimento e aproveitar redes de cooperação entre municípios.
Para conseguir a transformação é também crucial, como tenho sublinhado sempre, envolver os cidadãos no processo, para que haja sentido de pertença e esta mentalidade sustentável seja enraizada nos mais jovens e futuros líderes. É por isso que é vital investir em estratégias participativas e de cocriação para garantir que os cidadãos se tornam em verdadeiros aliados nesta caminhada.
Olhando para o exemplo de Guimarães, como é que se pode integrar da melhor forma as questões da sustentabilidade e do combate às crises planetárias na agenda e funcionamento dos municípios?
A sustentabilidade deve ser vista como uma estratégia integrada nas políticas municipais e não como um tema isolado. No caso de Guimarães, influencia e molda decisões na mobilidade, no urbanismo, na energia, na água, na economia local ou na ação social. É fundamental que estas questões façam parte do dia a dia da gestão municipal e não apenas de planos ou documentos estratégicos.
Na prática, utilizamos também o Contrato Climático para alinhar os objetivos municipais com os das empresas, entidades e cidadãos, para que os projetos e medidas se traduzam numa melhoria direta da qualidade de vida, justiça social e eficiência na gestão de recursos.
Considera que há autarquias que, por falta de conhecimento, de recursos ou de apoio da população, acabam por não ser mais ambiciosas nas questões ambientais?
Considero que algumas vezes possa existir a perceção de que apenas as grandes cidades podem fazer a diferença, mas é importante sublinhar que o conhecimento está hoje muito mais acessível e que existem muitos exemplos inspiradores em Portugal e na Europa, desde logo como o de Guimarães.
Com formação, compreensão do contexto específico de cada território, visão, determinação, cooperação e envolvimento da comunidade, é possível aumentar a ambição ambiental e torná-la em ação concreta, mesmo em contextos mais desafiantes.
Presumo que a distinção como Capital Verde Europeia não seja uma vitória exclusiva da autarquia, mas também fruto das sinergias com as populações, com as empresas e negócios locais, com organizações não-governamentais e com a comunidade académica e científica. Como é que se consegue colocar toda essa gente à mesa e chegar a um plano comum que beneficie todos e que reflita a voz de todos?
Essa equação faz parte da identidade Vimaranense. A chave desta conquista partilhada foi a participação e a confiança. Neste percurso, foram reunidos consenso e unanimidade junto dos diferentes atores do município. Continuamos apostados na criação de espaços de diálogo, projetos e processos de decisão colaborativos. Quando as pessoas, as empresas, as universidades, as organizações e até mesmo os partidos sentem que a sua voz conta e que fazem parte da solução, o compromisso surge naturalmente.
A sustentabilidade e os esforços de proteção ambiental e do planeta devem ter também os municípios como agentes-chave? Isto é, são lutas que devem extravasar os governos centrais e as conferências internacionais e firmar raízes ao nível local?
Comecemos por um ponto-chave. De acordo com a ONU, metade da população mundial vive atualmente em cidades e prevê-se que este número aumente para 5 mil milhões até 2030. Esta rápida urbanização está a exercer uma pressão significativa sobre o ambiente e as cidades a colocar novos desafios à biodiversidade.
É por isso que os municípios são agentes-chave, porque é à escala local que as políticas se concretizam e que as mudanças fazem a diferença no quotidiano das pessoas. As grandes estratégias globais e nacionais só ganham impacto real quando são traduzidas em ações locais, próximas das comunidades.
Recentemente, disse que “o nosso objetivo é ser a melhor Capital Verde Europeia de sempre”. Está confiante de que conseguirão alcançar esse objetivo?
Estou muito confiante, mas também consciente da responsabilidade. O primeiro passo já foi dado com a cerimónia inaugural, a 9 de janeiro, que foi a maior abertura de uma Capital Verde Europeia de sempre.
Mas quero sobretudo que este ano seja marcante e deixe marcas de continuidade, não apenas em termos de eventos, mas também de impacto positivo no território e, sobretudo, sublinho, na qualidade de vida da nossa população e de legado. O nosso objetivo é construir uma cidade mais resiliente, mais inclusiva e mais preparada para o futuro e acredito plenamente que vamos consegui-lo.
Que conselhos deixaria a outros municípios que queiram, futuramente, ser Capital Verde Europeia?
Que comecem já a incluir a sustentabilidade na estratégia municipal, independentemente da candidatura. O importante é apostar na ciência, na educação e na participação cidadã. Trabalhar com base em dados, envolver a comunidade sempre, apostar na transversalidade das políticas e não ter medo de aprender com outros territórios. Mais do que ter um título, o essencial é construir diariamente um território mais sustentável, com políticas públicas e decisões que se traduzam em mais qualidade de vida e com transformações que possam ser sentidas no quotidiano em benefício de todos.









