Sem polinizadores as sociedades humanas entrarão em colapso



Dois investigadores do Centro de Ecologia Funcional, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, Sílvia Castro e João Loureiro, vão este sábado participar num evento paralelo à cimeira mundial da biodiversidade, a COP15, que decorre até dia 19 em Montreal, no Canadá.

Com eles, levam uma mensagem muito clara: sem polinizadores as sociedades humanas entrarão em colapso, pelo que “temos de passar das palavras às ações”. Estima-se que, atualmente, 75% de todas as plantas que usamos na nossa alimentação estejam dependentes da ação dos polinizadores, que, dizem os investigadores, “não são só abelhas”.

Animais como morcegos, aves e tantos outros insetos são parte fundamental do processo de reprodução das plantas, atuando como ‘mensageiros’ que, inadvertidamente, transportam as células sexuais de uma planta para a outra, bem como são agentes cruciais de dispersão de sementes.

Investigadores Sílvia Castro e João Loureiro, do Centro de Ecologia Funcional, da Universidade de Coimbra, em trabalho de campo.
Fonte: Universidade de Coimbra

Membros da comissão de coordenação da Polinet, uma rede colaborativa que tem como missão principal promover a conservação dos polinizadores, a sustentabilidade dos serviços de ecossistemas e a sua resiliência, que envolve academia, os setores público e privado e a sociedade civil, Sílvia Castro e João Loureiro, em conversa com a ‘Green Savers, contaram que temos de encontrar um “equilíbrio” entre o ser humano e as atividades que desenvolve e o mundo natural.

Sem essa harmonia, nenhum dos lados de equação ecológica será capaz de subsistir. Por isso mesmo, é necessário criar “um mundo em que os polinizadores e os serviços de ecossistemas que eles fornecem sejam promovidos em todas as paisagens”, sejam elas agrícolas, florestas ou áreas urbanas.

As borboletas são também importantes polinizadores.
Fonte: Universidade de Coimbra

João Loureiro diz que o resultado ideal da COP15 seria um acordo para a Natureza da mesma dimensão e significado que o entendimento que foi alcançado para o clima em 2015, durante a COP21, em Paris. Apesar da esperança, mantém algum ceticismo com base em cimeiras anteriores.

“Vemos que há sempre muitas boas intenções, mas depois há pouca ação”, lamenta o especialista. “Os compromissos a que se chega nem sempre são os mais desejáveis, e damos passos muito pequenos para a urgência que a dimensão da crise exige”, assinala.

Os dois investigadores, com formação de base em botânica, querem trazer para a arena do debate político e público a importância da proteção das espécies de polinizadores. Afirmam que os fundos para a conservação de espécies tendem a ser canalizados para espécies que sejam mais facilmente acolhidas pelo público, como mamíferos e aves, acabando os pequenos polinizadores por serem eclipsados e arrumados num segundo plano.

Por isso, apresentam hoje na COP15 os conhecimentos e boas-práticas adquiridos no âmbito da coligação internacional ‘Promote Pollinators’, criada em dezembro de 2016, na sequência da COP13 da biodiversidade, e da qual fazem parte dezenas de países de todo o mundo, incluindo Portugal, que se juntou em 2020.

Por cá, a participação portuguesa pretende construir as bases para um verdadeiro plano de ação que promova a proteção dos polinizadores, estabelecendo-os como elementos incontornáveis das estratégias para a conservação da biodiversidade e para o combate às alterações climáticas.

“A participação na COP15 permitirá apresentar os resultados do processo participativo que envolveu a partilha construtiva de conhecimentos e a identificação de uma meta comum para os polinizadores em Portugal até 2030, e das ações, atores e resultados que nos poderão conduzir a atingir essa meta”, explica Sílvia Castro.

“Só um trabalho envolvendo todas as partes interessadas permitirá encontrar soluções viáveis, adaptadas ao nosso território, em prol dos polinizadores”, afiança a investigadora, que participará no evento ‘Pollinator protection: strengthening policies, knowledge exchange and engagement”, que decorrerá hoje pelas 23h15, mas pode ser acompanhado online.

“A proteção dos polinizadores é da maior importância para os ecossistemas e para a vida em geral”, destaca Helena Freitas, coordenadora do Centro de Ecologia Funcional e ponto de contacto em Portugal da ‘Promote Pollinators’.



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