COP27: “Não podemos separar a crise da biodiversidade da crise climática”



A cimeira mundial do clima, a COP27, que decorre desde dia 6 de novembro em Sharm El-Sheikh, no Egipto, esta quarta-feira foca-se no que tem vindo a ser reconhecido como o nexo biodiversidade-alterações climáticas, ou seja, a forte relação que existe entre essas duas dimensões e que as torna inseparáveis uma da outra.

A Secretária-executiva da Convenção das Nações Unidas para a Diversidade Biológica, Elizabeth Maruma Mrema, à margem da COP27, recorda que em 1992, na ‘Cimeira da Terra’ que decorreu no Rio de Janeiro, foram aprovadas as Convenções para a Biodiversidade e para as Alterações Climáticas, como dois instrumentos distintos que refletiam a perceção, por parte dos Estados, de que se tratava de duas realidades sobre as quais se podia agir separadamente. Contudo, a responsável salienta que hoje, o entendimento é outro, e que os vários países estão cada vez mais cientes de que uma crise climática é, simultaneamente, uma crise da biodiversidade, sendo ambas “crises planetárias”.

“Não podemos lidar com as alterações climáticas sem lidar com a biodiversidade”, sentencia Mrema, que acrescenta que os negociadores que se juntarão em dezembro em Montreal “não podem olhar para as soluções para travar a perda de biodiversidade sem olhar para as alterações climáticas”.

Mas, então, como se relacionam essas duas crises? A responsável propõe que olhemos para os eventos climáticos extremos que, um pouco por todo o mundo, têm tornado claros os impactos das alterações climáticas.

“Secas, cheias, ondas de calor, fogos florestais são, de facto, eventos climáticos, mas estão a acontecer nesta Terra, nos ecossistemas”, avança Mrema, que avisa que, a não ser que tomemos medidas para conservar a diversidade de espécies que constituem o nosso planeta, esses fenómenos extremos “continuarão a acontecer”.

Recordando as conclusões dos relatórios da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços de Ecossistema (IPBES), a responsável diz que “as alterações climáticas e a biodiversidade estão intrinsecamente ligadas, pelo que as soluções têm de ser desenvolvidas de forma integrada”. E aponta que entre as cinco principais causas da perda de diversidade biológica, “as alterações climáticas são uma”.

Mrema acredita que, hoje, a conservação da biodiversidade já não é uma escolha. “Mais de um milhão de espécies caminham para a extinção, devido ao uso insustentável da terra, que, por sua vez, agravará as alterações climáticas”, e que a Ciência nos diz que a conservação da biodiversidade é um dos pilares vitais da mitigação das alterações climáticas. Para que possamos alcançar a meta de aquecimento médio global de 1,5 graus Celsius, como estabelecido pelo Acordo de Paris de 2015, é fundamental proteger a diversidade de espécies que habitam o planeta com os humanos.

Olhando para a COP15, é esperado que os Estados-membros das Nações Unidas adotem a Estrutura Global Pós-2020 para a Biodiversidade (Post-2020 Global Biodiversity Framework, em inglês), uma estratégia que tem entre os seus principais objetivos a redução da perda da perda de espécies e ecossistemas, bem como a sua recuperação. Mas alerta que isso não será possível se, ao mesmo tempo, não forem implementadas medidas de adaptação e mitigação das alterações climáticas.

“Infelizmente, nós, os seres humanos, já contribuímos para 97% da degradação global”, lamenta Mrema, apontando que as contribuições para as alterações climáticas multiplicam os riscos de perda de biodiversidade.

E todos temos um papel a desempenhar para proteger as espécies existentes, para promover a sua recuperação e para resgatar tantas outras do limiar da extinção. A escolha do que comemos é uma dessas ferramentas, com Mrema a argumentar que cabe-nos a nós, enquanto consumidores dos recursos do planeta, escolher se queremos contribuir para a desflorestação em prol, por exemplo, de terrenos usados para a criação de gado.

Por isso, a responsável afirma que comer menos carne e adotar alimentações à base de plantas é uma das escolhas que podemos tomar para reduzir a degradação dos ecossistemas e a consequente perda de biodiversidade.

“Quanto mais animais precisamos para a carne, de mais terra precisaremos e maior será a destruição ou fragmentação de habitats e a nossa interferência no reino animal”, e indica que a pandemia de Covid-19 foi o resultado dessa ‘invasão’.

Mas o nosso papel na proteção da biodiversidade não se limita à alimentação. Mrema assinala que os resíduos que produzimos têm também um impacto que não podemos ignorar, acabando em aterros, que ocupam terras, que podem poluir os ecossistemas e agravar o aquecimento global devido aos gases que emanam para a atmosfera.

Mrema salienta a importância da cimeira climática para a cimeira da biodiversidade do próximo mês de dezembro, porque os resultados da COP27 vão influenciar as negociações na COP15, especialmente no que toca à Estrutura Global Pós-2020 para a Biodiversidade.

“O que aconteceu em Paris para o clima é o que precisa de acontecer em Montreal para a biodiversidade e para a natureza”, declara Mrema, alertando que falhar na proteção de um é falhar na proteção do outro, pois “não podemos separar a crise da biodiversidade da crise climática”.



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