É preciso olhar para o “lixo” com outros olhos



Por Carmen Lima, Coordenadora Centro Informação de Resíduos da Quercus

Sem medidas urgentes, os resíduos globais aumentarão 70% dos níveis atuais até 2050.

Há 25 anos a gestão dos resíduos constituía um dos principais problemas ambientais e sociais em Portugal, onde o principal destino era a deposição em lixeiras a céu aberto, que proliferavam em todo o território nacional. As mais de 300 lixeiras a céu aberto foram, entretanto, substituídas por aterros sanitários, e nos dias de hoje estimam-se que seja necessária uma área de aterro equivalente a cerca de 10 campos de futebol para encaminhar todos os resíduos produzidos anualmente.

Os ciclos económicos refletem-se na produção de resíduos e consumimos cada vez mais recursos e materiais. A pandemia que enfrentamos tem sido dramática, com o aumento da produção de resíduos não recicláveis. Estamos perante uma evolução desfavorável no que respeita ao cumprimento da hierarquia de gestão dos resíduos, com o ligeiro aumento da deposição direta em aterro, um desvio no cumprimento das metas europeias de redução, reutilização e reciclagem e onde as políticas de gestão de resíduos não passam de puro romantismo para o paradigma nacional.

Os principais destinos dos resíduos em Portugal são a deposição ou a incineração, as metas vão continuar a não ser cumpridas, em breve esgotamos os aterros e estaremos cada vez mais preocupados a fazer contas para controlar as emissões de GEE provenientes da deposição ou queima do lixo. Se continuamos a este ritmo, de consumir e deitar fora, sem reduzir, reutilizar, recuperar os recursos e reciclar os nossos resíduos, olhando para o mesmo com todo o valor que possui, vamos ter sérios problemas no futuro e aumentar a necessidade de recorrer a soluções de eliminar – quer em aterro, quer em incineradoras – com todos os impactes associados.

A gestão de resíduos é dos principais responsáveis pela emissão de GEE e os efeitos meteorológicos extremos já mostraram que vivemos um período complicado para as alterações climáticas. Todos temos um papel. É essencial que, nos dias de hoje, o cidadão esteja informado, consciente e que desenvolva capacidade crítica para que possa interpretar de forma mais imparcial possível a informação sobre o que consome, os seus hábitos de vida e a forma como descarta o que produz.



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